Transtorno do pânico: tratamento deve ter acompanhamento psicológico

Marcela Puccia Braz - O Estado de S.Paulo

Remédios, técnicas de respiração e exercícios mentais tratam sintomas, mas não a causa, alertam especialistas

Quando a crise de pânico veio pela primeira vez, Elisete Antonucci estava sozinha em casa, sentada no sofá. Nada de especial havia acontecido naquele momento para justificar a onda gelada que subiu pelo corpo. O coração disparou e passou a doer, apertado. O braço começou a formigar, as mãos, a transpirar. Ficou enjoada, com tontura e completamente imóvel. Não conseguia se mexer para pegar o telefone e pedir ajuda.

Enquanto isso, a mente desenvolvia desfechos catastróficos: estava tendo um ataque cardíaco, em breve desmaiaria, morreria sozinha e seu corpo seria encontrado pela filha, que teria de enfrentar a perda da mãe, de 48 anos.

"A crise do pânico é a maior crise de ansiedade que você pode ter na vida. É tão intensa que você tem um limite para compreendê-la”, traduz Victor Bigelli, psiquiatra pelo Instituto de Psiquiatria da FMUSP e diretor médico do programa Mental Care. Popularizada como síndrome, a Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID), da Organização Mundial da Saúde (OMS), define a doença como caracterizada por ataques recorrentes de ansiedade severa (pânico), não restritos a uma situação específica ou a um conjunto de circunstâncias, o que os torna imprevisíveis.

E os sintomas que acometem 2% das pessoas no mundo, segundo a OMS, incluem taquicardia, sudorese, dor no peito, tremores, falta de ar, tontura, náusea, boca seca, formigamento ou amortecimento, sensação de cair, de morte súbita, perda do controle da mente e ondas de frio e calor. Tudo isso sentido entre 5 e 20 minutos de pico. “A descrição clássica é que a crise do pânico vem do nada. Mas se você for pesquisar, a pessoa passou por várias situações estressoras na vida, e é comum que os familiares próximos tenham quadro de ansiedade”, explica Bigelli.

A história de Elisete, por exemplo, não começou no sofá. Ela lidou com dois casos de suicídio na família, da avó e da irmã, teve estresse pós-traumático depois de ser rendida por ladrões em sua própria casa e estava tendo acompanhamento psiquiátrico para lutar contra a depressão havia 10 anos.

R. S., de 28 anos, também teve de lidar com uma perda importante, a da mãe, quando era adolescente. Mas a primeira crise veio 8 anos depois, após o término de um namoro difícil, "de muita cobrança, obsessão e ciúme". O episódio aconteceu numa balada e, a partir de então, os ataques começaram a ser frequentes.

"Isso tem a tendência a se repetir. E a pessoa começa a temer quando e onde vai ser o próximo ataque", acredita Mario Eduardo Costa Pereira, médico, psicanalista e psiquiatra, professor livre-docente em Psicopatologia da Unicamp. Além disso, a preocupação quanto ao lugar pode acarretar um quadro de agorafobia -- medo de lugares públicos. "No fundo, não é um medo do lugar, é de ter o ataque de ansiedade lá", diz ele, autor dos livros Pânico e Desamparo e Psicopatologia dos Ataques de Pânico.

Mas o pânico não é restrito somente a quem tem um histórico de estressores evidentes. As causas da doença são historicamente atribuídas a difunções genéticas ainda hipotéticas, segundo Pereira. "Não estou falando que não há fatores biológicos, mas eles não funcionam sozinhos. É como jogar fogo em cima de gasolina."

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Bigelli esclarece o ponto de vista biológico do pânico como uma superativação da região do cérebro responsável pelas reações de medo, alerta e preocupação -- a amígdala cerebral (que não é aquela entre nariz, boca e garganta). E os traumas e angústias importantes têm o papel de ativar esse grupo de neurônios. "Como a pessoa lida com o próprio desamparo, a falta de amor próprio, o excesso de autocobrança, com problemas de confiança nos outros e com sexualidade: tudo isso explode no pânico. Não tem como dissociar o biológico do psicológico", diz.

Tratamento. Elisete usou um ansiolítico para domar as três crises que teve, mas abandonou os antidepressivos tomados há anos. Em paralelo aos encontros quinzenais com o psiquiatra, faz ioga, medita e encontrou na corrida de rua um remédio para depressão e o isolamento. J. F., de 25 anos, procurou a homeopatia para evitar medicamentos e adotou hábitos como tomar sol, dormir o suficiente para descansar e passear com seus cachorros para exercitar o corpo.

R.S. também não quis se medicar e concentrou o tratamento no acompanhamento psicológico, além da ioga. Quando em pânico, recorre a exercícios mentais de terapia cognitiva para tirar o foco da obsessão pelos sintomas físicos. "Conto quantas janelas tem no prédio, faço tabuada de trás pra frente, somo os números das placas dos carros e descrevo com detalhes o que almocei. De repente passa. Demorei pelo menos uns 6 meses pra chegar nesse ponto, mas agora tento controlar as crises antes de elas acontecerem", relata.

Embora a origem do transtorno ainda seja nublada entre o campo da psiquiatria e da psicologia, os dois especialistas entram em consenso quanto ao tratamento. Técnicas de respiração, exercícios mentais, homeopatia e outras soluções agem apenas nos sintomas. Até mesmo a medicação, quando necessária, deve ter acompanhamento psicológico para o paciente entender e tratar seus gatilhos emocionais.

Na psiquiatria, salienta Bigelli, há espectros de gravidade do transtorno de pânico. A intervenção pode ser apenas psicológica em casos mais leves e menos frequentes. Mas o remédio é mandatório em situações de maior intensidade e incidência.

"Controlar os sintomas é importante para começar a psicoterapia. Quando a pessoa tem muitas crises, às vezes nenhum tratamento [psicológico] funciona. Tomar o remedio dá um alívio", explica Pereira.

Além do controle sintomático e do acompanhamento psicoterápico, Bigelli aconselha adotar hábitos saudáveis e reforça a importância de fazer atividades físicas. Tomar café e energéticos é algo a ser evitado, por serem bebida ansiogênicas -- provocam ansiedade. A maioria das drogas estimulantes, como anfetamina e cocaína, causam taquicardia, assim como inibidores de apetite, se usados sem orientação médica. Maconha e álcool também podem desencadear quadros de pânico. "Não é um trabalho curto. É uma intervenção que dura pelo menos 6 meses para evitar recaídas no futuro", alerta.

Como ajudar. O ideal é levar a pessoa ao pronto-socorro quando exibir sinais de crise de pânico pela primeira vez. Fazer testes cardíacos e de tireóide tranquiliza a pessoa e certifica a família de que é um quadro psicológico. "Enquanto quem a gente ama não tem consciência do que se trata, acha que é tentativa de chamar atenção, você tende a não melhorar. É uma sensação de solidão muito profunda", expõe Elisete.

O próximo passo é procurar apoio médico e psicoterápico. Durante o tratamento, amigos e familiares podem ajudar a pessoa em crise a desfocar a preocupação com o próprio o estado de saúde, com técnicas cognitivas, de respiração e de distração. A consciência das fases de início, meio e fim do processo também é outro ponto de amparo. "Fica muito mais fácil, porque você sabe que não vai morrer. É um alento", diz Elisete.

Para saber mais sobre o transtorno, a origem e como conviver melhor com ele, o psicólogo e neurocientista Julio Peres falará sobre o assunto no dia 2 de outubro, das 19h às 20h30. A palestra Pânico: origem e superação será feita na Rua Maestro Cardim, 887. Inscrições podem ser feitas pelos e-mails suely@julioperes.com.br e contato@julioperes.com.br ou pelo telefone (11) 3288-6523.