Todos os louvores para as mulheres na menopausa

Sharon Mesmer - O Estado de S.Paulo

Gostaria de estar melhor preparada; devia ter festejado de alguma maneira o fato, cumprir um rito de passagem

Para algumas mulheres a menopausa não é um grande problema. Algumas dizem que mal percebem mudanças. Minha mãe descreveu sua fase de menopausa desta maneira: "meus períodos começaram a ficar cada vez mais leves, meus hormônios se estabilizaram e um dia, acabou".

Não é meu caso. A menopausa não só mudou minha vida, ela também me mudou.

Antes de ficar prostrada com as ondas de calor, das descargas de adrenalina que me deixavam em pânico e a constante oscilação entre uma tristeza mórbida e uma ira assassina, eu me orgulhava de ser uma pessoa sem medo. Gritava obscenidades para as freiras masoquistas da minha escola católica, chutava entre as pernas de policiais disfarçados e uma vez atirei uma cadeira na cabeça do meu namorado enquanto Allen Ginsberg lia poesia na sala de baixo.

De repente tornei-me uma pessoa para quem o melhor programa de sua vida era ficar sentada em silêncio com as mãos unidas, de preferência numa sala escura e as cortinas abaixadas, talvez assistindo um programa "The Lawrence Welk Show" numa velha TV.

Gostaria de estar melhor preparada. Gostaria de ter comemorado adequadamente a última vez que cancelei meus planos de passar uma manhã inteira mergulhada numa banheira com fragrância de lavanda e um frasco de Advil. Gostaria de ter anotado a data em que desenterrei o último tampão extra do fundo da minha bolsa e o joguei fora. Devia ter festejado de alguma maneira o fato, cumprir um rito de passagem: levar o tampão para uma floresta, colocá-lo num altar formado por antigas rochas glaciais e atear fogo cantando hinos invocando alguma bruxa deusa da menopausa.

É possível que eu esteja sofrendo a Pior Menopausa do Mundo. Mas como quantificar com dados concretos as ondas de calor que me deixam como se olhando fixamente na cratera de um vulcão ativo ou o motor de uma locomotiva movida a carvão no dia mais quente da história? A que outro acontecimento anterior eu poderia comparar as descargas de adrenalina que me deixam em pânico e ocorrem de hora em hora e que, quando estou dando aula, levam alunos preocupados a me perguntarem se estou tendo um ataque cardíaco? 

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Quando ouço mulheres usando termos como "surtos de tensão" tenho vontade de cortar suas gargantas.

Se você é uma dessas mulheres para quem a transição de períodos com para períodos sem menstruação foi como se caminhar para sentar, congratulações. Quanto às outras, vocês pertencem à minha tribo. E acho que nossa tribo precisa de um ritual.

Já ouvi algumas pessoas afirmarem que a menopausa é uma segunda puberdade. Existem inúmeros ritos de passagem para as meninas quando elas entram na puberdade. Existe o mat mitzvah, a festa dos 15 anos, etc. Li sobre uma bela cerimônia apache chamada Na'ii'ees, que normalmente ocorre no verão depois de uma garota ter sua primeira menstruação e celebra a história de Esdzanadehe, a primeira mulher. 

Originalmente durava alguns dias, período durante o qual a menina, coberta com uma mistura dourada de farinha de milho e barro, assimilava o poder da primeira mulher e adquiria capacidade de curar e trazer bênçãos para sua comunidade.

Não tive uma festa dos 16 anos nem um bat mitzvah. Mas celebrei minha Primeira Comunhão, que supostamente marcaria minha chegada à idade da razão, aos sete anos de idade. Como ritual, foi bom.

Em primeiro lugar, teve a compra do vestido branco, com uma jaqueta de pele falsa branca e sapatos também brancos. Lembro quando minha mãe e eu subimos e descemos a Ashland Avenue, a principal rua de compras no nosso bairro no lado sul de Chicago, em busca de alguma coisa que realmente eu me dignasse a usar. Não devia ter muitos ornamentos, segundo a Irmã Eleanor, diretora da escola St. John of God, mas para mim tinha de ser muito, realmente muito bonito. (Há 12 anos encontrei o vestido quando estava limpando a casa de minha mãe. E era realmente muito bonito: de cetim com mangas bufantes e pérolas minúsculas por todo o corpete. Quando fomos às compras encontramos meninas com suas mães fazendo a mesma coisa. O que intensificou a percepção da importância do ritual.

A cerimônia de primeira comunhão, numa manhã de maio de 1968, foi quase pagã. Todas as 60 crianças marchavam lenta e com todo respeito, em procissão para a igreja, conduzidas pelo pároco e padres assistentes, com os coroinhas carregando uma estátua da Virgem Maria, a cabeça da santa envolvida de rosas brancas. As ruas estavam repletas de pessoas, pais, avós, padrinhos, irmãos, primos, tias, tios e vizinhos, todos tirando fotos. Nos foi dito pelas freiras que não devíamos olhar nem falar com ninguém e manter nossos olhos fixos na criança diretamente à nossa frente, as mãos postas em oração. E, contudo, a cada passo que eu dava alguém gritava meu nome. "Queridinha, é o tio Bob", quero tirar uma foto sua!" "Sharon, olhe para sua mãe".

Quando dobramos a esquina, pela primeira vez ouvi os sons do órgão da igreja e o coro cantando. Lembro-me que achei um momento mágico: todos caminhando na direção do órgão ensurdecedor tocando para nós, enquanto o coro de adultos cantava uma música chamada "This is my body".

Um grupo de meninos adolescentes com os braços cruzados nos olhava; uma jovem mãe se agachou, colocou seu braço em torno do seu bebê e apontou para nós; um senhor idoso tirou seu chapéu. Quando subimos os degraus da escada da igreja as freiras, como seguranças em um concerto de rock, procuravam conter as mães com flores e os pais com câmeras na mão. Parecíamos os Beatles. 

Agora eu me pergunto: por que fomos enaltecidos e reverenciados quando apenas iniciávamos uma jornada? Por que não lembrar também, ritualmente, as realizações ao longo do caminho e os obstáculos que superamos?

Acho que todas as mulheres que entraram na menopausa deveriam se reunir e, em dupla, realizar uma procissão pelas ruas repletas de entes querido, pais que já morreram e avós (que ressuscitaram somente em nossa homenagem e para dizer nossos nomes). 

Qualquer mulher, seja esbelta e exalando perfume Chanel, ou gordinha com seios caídos, quero todas sendo aclamadas, reconhecidas. Quero que nossa procissão seja liderada por um punhado de homens da nossa idade com barrigas de cerveja e os botões das camisas quase estourando carregando nos ombros uma estátua de qualquer deusa que seja apropriada para nós - possivelmente Coatlicue, deusa asteca da Terra, ou talvez Hillary Clinton.

Quero que um coro cante para nós enquanto marchamos e entramos em um tempo secular, possivelmente uma combinação do velho Fillmore ou a Sociedade de Cultura Ética. Dentro, nos reuniremos em círculo em torno de um enorme anel de fogo e, no momento apropriado, acompanhadas por cantos, jogaremos nossos tampões que carregamos por tantos anos.

Depois haverá uma festa que deveria durar quatro dias, com bebidas geladas, Ativa e lencinhos refrescantes de Verbena da L' Occitane (gelados em centenas de minúsculos refrigeradores pessoais) para todas as mulheres. 

Tradução de Terezinha Martino