Talvez a Louis Vuitton deveria ter ficado longe da Supreme

Guy Trebay/The New York Times - O Estado de S.Paulo

Casa de luxo francesa se une à marca de street style de Nova York. O resultado é decididamente uma mistura

Supreme para Louis Vuitton, inverno 2017

Supreme para Louis Vuitton, inverno 2017 Foto: Valerio Mezzanotti para The New York Times

Nada é mais letal para a imagem de uma empresa do que uma liquidação. No caso da colaboração da Louis Vuitton com a Supreme, realizada embaixo de uma tenda instalada recentemente no Palais Royal, em Paris, poderíamos pensar que a única vítima seria a Supreme, marca de street style que tem um exército de fãs frenéticos.

Entretanto, ambas as marcas aparentemente sofreram um golpe com a coleção de inverno 2017 masculina da Louis Vuitton apresentada pelo estilista Kim Jones. Foi a versão de um assassinato-suicídio no mundo da moda.

Em 2000, as duas marcas não eram amigas. Foi quando a Supreme lançou uma prancha de skate com um desenho que imitava o monograma da Louis Vuitton, e a grife respondeu com uma ordem de cessação da atividade sob pena de ação judicial. 

Um ano depois, a fabricante de malas francesa recebeu um forte impulso e uma boa dose de credibilidade quando seu diretor criativo, Marc Jacobs, conseguiu que os donos da companhia permitissem a distribuição do precioso logo para uma série de artistas, como Stephen Sprouse, e, posteriormente, Takashi Murakami, para ser introduzido em grafites e cartoons.

A coleção foi apresentada no Palais Royal, em Paris.

A coleção foi apresentada no Palais Royal, em Paris. Foto: Valerio Mezzanotti para The New York Times

Foi o que revitalizou a Louis Vuitton. Ela passou a ser relevante numa época em que as multidões globais de consumidores de bens de luxo começavam a migrar para a nova geração de criadores de moda.

Nos anos seguintes, tiveram tantos lançamentos em que os estilistas utilizaram marcas comerciais (culminando com uma coleção da primavera de 2017 da Vetements, na qual as 54 peças apresentadas consistiam inteiramente em colaborações com marcas como Levi’s e Juicy Couture), que tivemos a impressão de que a estratégia se esgotaria.

A coleção de primavera de 2017 de Jones mostrou uma série de jaquetas de motoqueiros em couro forradas de pelo e fecho assimétrico, calças baggy, camisas fora da calça, jaquetas jeans com o logotipo LV e bonés de jogador de baseball a um preço exagerado.

O último choque que ela nos ofereceu foram os acessórios - bolsinhas a tiracolo descendo logo abaixo da cintura, capinhas de celulares no formato de um deck de DJ, uma variedade de outras coisas - em grande parte enfeitadas com o logo vermelho e branco da Supreme.

No passado, Jones fez importante e audaciosas colaborações, inclusive com o artista Christopher Nemeth, da era punk, e os resultados foram sucessos comerciais e artísticos. 

Para muitas pessoas é imprescindível possuir uma peça da Supreme para a Louis Vuitton. É provável que elas não sejam os entusiastas que fazem fila em frente à loja da Supreme na Lafayette Street em Manhattan para comprar o último produto que a mídia ainda não descobriu. São esses consumidores que realmente mantêm viva a credibilidade da marca. Tradução de Anna Capovilla