Sem filhos por opção

Michelle Huneven - O Estado de S.Paulo

Ter um filho era uma ideia tão distante como uma dentadura e estava mais interessada em mim. Entretanto foi difícil tomar a decisão

A única chance de ser mãe que o destino me reservou, eu recusei. Não me arrependo.

A única chance de ser mãe que o destino me reservou, eu recusei. Não me arrependo. Foto: Aidan Koch/ NYT

ALTADENA - Califórnia - Aos 25 anos de idade fui a uma cartomante, que vivia numa casa cor de laranja com acabamentos em azul e vermelho brilhantes localizada numa rua muito movimentada. Uma placa continha o aviso: "Especial: 5 dólares".

Ela tinha pele clara, olhar arguto, com cerca de 40 anos, cabelos pretos. Atendia os clientes num quarto escuro na frente, repleto de móveis, os abajures adornados com lenços. Uma bola de cristal do tamanho de um melão estava depositada no centro de uma mesa de carvalho redonda, mas a cartomante não seguiu na direção dela - claramente, a obscura bola não era para clientes que iriam pechinchar.

Virando meu pulso, ela analisou a palma da minha mão: "você deve estar acostumada a ser pobre. O dinheiro vai aparecer, mas vai demorar", disse-me. E acrescentou que eu iria lutar com uma doença, séria, mas não que ameaçasse minha vida. E que eu teria um filho.

Eu havia terminado minha relação com meu último namorado três meses antes. Um ator agorafóbico que vivia num hotel que era um pulgueiro e já nem me lembrava mais dele. De modo que fiquei espantada quando, durante um exame pélvico de rotina, o doutor apalpou meu útero e disse que eu estava grávida. E na sua avaliação, eu tinha apenas alguns dias para decidir o que fazer. 

Minha melhor amiga disse que eu não devia fazer um aborto. "Vai arruinar seu carma".

Fiquei preocupada com meu carma, mas não tinha um parceiro ao meu lado (e certamente não podia me reaproximar do último), nem dinheiro. Trabalhava meio período numa cafeteria enquanto tentava escrever. Ter um filho era uma ideia tão distante como uma dentadura e estava mais interessada em mim. Entretanto foi difícil tomar a decisão.

Naquela segunda-feira arruinei o meu carma. 

Foi algumas semanas depois de ter visitado a cartomante, e me perguntei se haveria um filho no meu futuro ou se, como fiz com meu carma, tinha dado um fim à minha chance de ter um. O tempo diria. Não tinha pressa para saber.

Meus 20 e 30 anos foram consumidos numa série de casos amorosos em que perdi minha vida e meu tempo. E onde correu muita bebida também.

Enquanto isto minhas amigas se casaram. Ninguém se casou com o amor da sua vida. E ninguém tinha pressa de ter filhos. Os anticoncepcionais mudaram muito a vida das pessoas neste aspecto; era possível deixar os filhos para mais tarde. E foi o que fizemos. Mas aos 30, vem a mudança. Nos anos 80 os bebês começaram a chegar. 

Uma amiga me disse que o fato de ter comprado uma casa fez com que ela desejasse encher os quartos. Outra estava tão apaixonada pelo marido muito mais velho que tinha de ter filhos logo.

Duas amigas tiveram dificuldade para engravidar. Depois de anos de frustração e angústia ambas tentaram a fertilização in vitro; um casal produziu um bebê, o outro acabou adotando a filha de uma garota de 15 anos de idade de Bakersfield, Califórnia.

 

Amigas ainda solteiras loucas para ter filhos decidiram baixar o nível das suas escolhas masculinas - uma escolheu um alcoólatra, conseguiu reabilitá-lo pelo tempo necessário para se casarem e ela engravidar. Outra amiga, de 41 anos, seduziu o empacotador de um supermercado de 20 anos e educou seu belo filho como mãe solteira.

"Você tem de ter um bebê", uma amiga me disse no dia seguinte ao nascimento do seu filho. "No mínimo para sentir essa onda gigantesca de amor que te arrebata"

Não queria sentir esse amor por alguém. Ainda queria ser o objeto dessa onda gigantesca.

Porque desde que consigo me lembrar, eu me sentia desconcertada e de algum modo horrorizada com a família em que nasci. Minha primeira ideia claramente expressada deve ter surgido quando eu tinha provavelmente dois anos e meio ou três anos, estava de pé no jardim, e tinha a ver com meus pais: quem são essas pessoas? Porque estão agindo desta maneira? E como foi que acabei vivendo com eles?

Minha mãe era diabética cujo pâncreas produzia insulina intermitentemente, de maneira que o seu humor mudava descontroladamente. Pianista de concerto formada pelo Oberlin Conservatory, estava entediada por viver dentro de casa. Retornou à escola para obter o diploma de professora quando eu tinha seis anos e voltou a trabalhar quando eu estava com sete. Então ficou menos apática, mas longe de ficar emocionalmente estável. Sua voz tremia tamanha era a autocompaixão e com frequência ela oscilava entre a fúria e o choro. Numa ocasião ela não falou com minha irmã de dez anos durante duas semanas.

Meu pai era um homem distante, não se envolvia com ninguém, tranquilo por um longo tempo, mas explodindo de cólera se o leite fosse derramado, ou quando pedíamos mais dinheiro ou, Deus nos livre, encontrasse alguma moeda no chão. Nunca nos demos conta nem nos preocupamos com dinheiro e o quanto ele trabalhava para nos sustentar, e como éramos caras.

Eles não sabiam brincar conosco, ou ficar próximos, conversar amigavelmente, sem críticas. Mas queriam que fôssemos pessoas bem educadas. Tínhamos aulas de música, de natação; minha irmã aprendeu a cavalgar. Não havia dúvida que nós duas frequentaríamos a faculdade. 

Exteriormente nossa família parecia arrojada, divertida. Ficávamos mais sociáveis, mais felizes, nas barracas, carros, nos trailers? Raramente. Em nosso círculo mais íntimo, minha mãe e seus humores dominavam e nós, meninas, nos retirávamos, cada uma na sua própria solidão.

Tenho amigos que vêm de famílias que por muito tempo lutaram com problemas de dependência de drogas, abusos e pobreza e se tornaram pais sóbrios, responsáveis e adoráveis que construíram um lar seguro e calmo para seus filhos. Então por que nem minha irmã, nem eu, quisemos "fazer a coisa certa" e viver numa família construída por nós? Mesmo sabendo que nem todas as famílias eram iguais à nossa, não tinha confiança de que não iria recriar o mesmo ambiente que conheci. 

Acho que não foi coincidência o fato de ter esperado para me casar até ser biologicamente impossível para mim constituir uma família. Diversas vezes eu me apaixonei por homens distantes, com frequência não disponíveis, e tentei, sem sucesso, fazer com que me amassem. Meu hábito de beber aos poucos foi se tornando excessivo até os 34 anos, quando tive um momento de clareza: percebi que não conseguiria melhorar nem as coisas que eu escrevia nem eu mesma se continuasse bebendo todas as noites.

Naquele ano iniciei uma terapia, parei de beber e comecei a trabalhar ininterruptamente, enveredando por um caminho que levou à minha atual satisfação. Abandonei meus esforços para fazer com que pessoas desinteressadas me amassem e aprendi a reconhecer e apreciar as pessoas que se mostravam realmente interessadas. Com os anos de terapia superei meu ressentimento e impaciência com crianças e controlei a necessidade imperiosa de atenção e amor paternos. Comecei a compreender meus pais também, sobre diabetes e mudanças de humor e fiquei sabendo que meu pai cresceu num lar onde espancamentos e combates potencialmente mortais ocorreram. 

Tornei-me mais capaz e de algum modo comecei a desejar ser mãe, mas quando encontrei um homem que poderia ser um pai maravilhoso, já estava com 50 anos. Éramos velhos demais e, como ele diz, com os hábitos arraigados.

A cartomante que visitei quando tinha 25 anos acertou todas as suas previsões. Fui pobre durante décadas, finalmente passei a ter uma situação mais cômoda aos 40. Durante meus 20, 30 anos, tive problemas de alcoolismo. Há 27 anos não bebo. Sei também, como foi o prognóstico da cartomante, que a única chance de ser mãe que o destino me reservou, eu recusei.

Não me arrependo.

Michelle Huneven é autora do romance "(Off Course". Este artigo foi adaptado de uma coleção a ser publicada, "Selfish, Shallow and Self-Absorbed: Sixteen Writers on the Decision Not to Have Kids".

Tradução de Terezinha Martinho