Se você está procurando a felicidade na carreira, está caminhando para trás, diz pesquisador

Brigid Schulte - O Estado de S.Paulo

Ao mudarmos nossas mentalidades e hábitos, podemos modificar dramaticamente o curso da vida, melhorar a inteligência e a produtividade

Pesquisa revela que escolher hábitos simples de felicidade que não demoram mais do que escovar os dentes pode melhorar nosso estado de espírito, nos deixar mais felizes, mais saudáveis e mais produtivos

Pesquisa revela que escolher hábitos simples de felicidade que não demoram mais do que escovar os dentes pode melhorar nosso estado de espírito, nos deixar mais felizes, mais saudáveis e mais produtivos Foto: Nick Harris/ Creative Commons

Aos que pensam na felicidade como um luxo "bom de ter" ou algo que vem após uma vida de sacrifícios de batalhar obstinadamente para atingir um objetivo, o pesquisador da felicidade, Shawn Achor, diretor da Goodthink e autor de The Happiness Advantage (A Vantagem da Felicidade, em tradução livre) de 2010, está numa missão de mudar mentes, corações e vidas. A felicidade, diz ele, não é só se sentir bem, é a alegria que sentimos enquanto buscamos realizar nosso potencial. Sua pesquisa revela que escolher hábitos simples de felicidade que não demoram mais do que escovar os dentes pode melhorar nosso estado de espírito, nos deixar mais felizes e, por isso, mais saudáveis, mais produtivos e criativos no trabalho, e mais próximos daqueles que amamos em casa. Ele explica:

Pergunta: Não era habitual se falar de felicidade. Agora ela parece estar na crista da onda. O que está havendo?

Resposta: Acredito que estamos vivendo uma dupla revolução. A revolução high-tech nos permite obter informações com a ponta dos dedos a qualquer momento. E, oculta por trás desta, há uma mais poderosa. Por conta dessa tecnologia, conseguimos compreender o cérebro humano melhor do que nunca. Aprendemos que não somos apenas produtos de nossos genes e do meio ambiente. Mas ao mudarmos nossas mentalidades e hábitos, podemos modificar dramaticamente o curso da vida, melhorar a inteligência, a produtividade, melhorar a qualidade de nossas vidas, e melhorar cada simples educação e resultado empresarial.

Há uma coisa excelente no Google chamada N-gram. E pelo fato de eles terem digitalizado toda aquela literatura, pode-se pesquisar o uso da língua nos últimos 150 anos. E podemos ver que, nos 10 últimos anos, houve um aumento enorme no uso da palavra "happiness" (felicidade).

Mas se observarmos os últimos 150 anos, veremos que somos um pequeno ponto no fim de um longo declínio... durante todo o século 20. E que isso remete a uma sociedade se tornando mais industrializada. E à medida que ficamos mais interessados na gestão de tempo e produtividade, perdemos a individualidade, e com a perda da individualidade, perdemos a felicidade também.

Assim, penso que o mundo tem sido mal servido porque nos concentramos demais em produtividade e ignoramos a felicidade e o significado em nosso próprio detrimento.

P: O que está descrevendo é muito maior do que nós - a industrialização, agora a globalização. A felicidade real está fora do alcance dos indivíduos?

R: A esperança é que a felicidade é uma escolha individual, mesmo em meio a circunstâncias negativas. Ela não é algo que nossos empregadores possam nos dar, embora possam limitar e influenciar essa escolha.

Estamos descobrindo que a felicidade é uma criatura social. Se tentamos buscá-la num vazio, será muito difícil sustentá-la. Mas tão logo conseguimos ter pessoas focadas em criar relações significativas em nosso trabalho, ou aumentar o significado e profundidade de nossas relações fora do trabalho, encontramos a felicidade crescendo em consonância com esse relacionamento social.

A grande ameaça à felicidade é a fragmentação social, para a qual industrialização e globalização certamente podem contribuir. Não encontramos uma grande diferença em níveis de felicidade com base em estruturas econômicas da sociedade. A encontramos baseada na profundidade do relacionamento social. 

Trabalhei com agricultores de Zimbábue que perderam suas terras. Trabalhei com pessoas na Venezuela sob ameaça de sequestros, cujo mundo externo é instável. Mas elas têm conexões sociais muito fortes com seus familiares e amigos. E, por isso, conseguem manter um nível maior de felicidade e otimismo do que eu vi em banqueiros, consultores ou pessoal de vendas que estão na estrada o tempo todo, que têm empregos separados de suas famílias e, por isso, se privam da felicidade que decorre das próprias conexões que eles romperam.

P: Muitas pessoas pensam que a felicidade não é algo para se conseguir agora, mas algo para se alcançar mais tarde, depois de elas serem bem-sucedidas. Como defende a ideia de que a felicidade é importante?

R: A felicidade é uma vantagem excepcional em nossa vida. Quando o cérebro humano é positivo, nossa inteligência aumenta, paramos de desviar recursos para pensar sobre ansiedade.

Nossa criatividade triplica. A energia produtiva aumenta 31%. A probabilidade de promoção aumenta 40%. As vendas aumentam 37%. Esses números são todos de estudos que fizemos em lugares como Nationwide Insurance, UPS. KPMG.

A maioria das pessoas segue esperando pela felicidade, adiando a felicidade até serem bem-sucedidas ou até alcançarem algum objetivo, o que significa limitar tanto a felicidade como o sucesso. Essa fórmula não funciona.

Se invertermos a fórmula, investir em felicidade agora rende um dividendo incrível. A maior vantagem competitiva em nossa economia moderna é um cérebro engajado e positivo.

Acho isso muito importante, porque faz empresas investirem em felicidade. Isso nos incentiva a escolher a felicidade para nossos filhos e escolhê-la para nossas próprias vidas em vez de adiar continuamente a felicidade esperando que ela venha a nos ocorrer a depender de nossos êxitos.

P: Então, o que os leitores podem fazer para criar mais felicidade em suas vidas?

R: Estive analisando cinco hábitos do tipo escovar os dentes. Hábitos muito curtos que se praticarmos todos os dias, melhoraremos nossa saúde, mas também nosso nível de felicidade.

1. Três Atos de Gratidão. Gaste dois minutos por dia esquadrinhando o mundo atrás de três coisas novas que o gratifiquem. E faça isso por 21 dias. A razão porque isso é poderoso é que você está treinando seu cérebro para examinar o mundo num novo padrão, está procurando fatores positivos e vez de procurar ameaças. É a maneira mais rápida de ensinar otimismo.

Eu estava trabalhando numa grande companhia financeira e nós os fizemos pensar em três coisas que foram gratificantes por 21 dias, e não funcionou. A razão para isso é que eles foram gratos pelas mesmas três coisas: sua saúde, seu trabalho e sua família. Portanto, não foram específicos. E não estavam esquadrinhando o mundo em busca de coisas novas.

A coisa só funciona se você estiver esquadrinhando por coisas novas e for muito específico. Se disser, "Sou grato por meu filho", não funciona. Mas se disser, "Sou grato por meu filho porque hoje ele me abraçou, o que significa que sou amado apesar de tudo", essa especificidade faz o cérebro se aferrar a um novo padrão de otimismo. Ela funciona para crianças de 4 anos a velhos ranzinzas de 84.

Você pode levá-los num período de 21 dias de um baixo nível de pessimismo a um baixo nível de otimismo. Não há nada de mágico em 21 dias. Nós o roubamos do Alcoólicos Anônimos. Mas após 21 dias, assim esperamos, o caminho de menor resistência no cérebro se inclina para o hábito, e não para longe dele. A expectativa é, portanto, que ele se torne não só um hábito diário, mas um hábito de vida.

Ele está realmente fazendo pessoas sentirem que a mudança é possível. O hábito parece ter menos importância do que o fato de que eles dedicaram tempo para escolher a felicidade.

2. O Duplicador. Por dois minutos por dia, pense numa experiência positiva que tenha ocorrido nas últimas 24 horas. Assinale cada detalhe que conseguir se lembrar. Isto funciona porque o cérebro pode perceber a diferença entre visualização e experiência real. Com isso, você dobrou a experiência mais significativa em seu cérebro. Faça-o por 21 dias, e o seu cérebro começará a unir os pontos para você, depois terá esta trajetória de significado percorrendo toda sua vida.

Fiz isto com a National MS Society. Pesquisa recentes da Universidade do Texas revelaram que se você tem uma doença neuromuscular crônica, fadiga crônica e dor, e fizer isto por seis semanas seguidas, seis meses depois elas podem reduzir sua medicação em 50%.

3. Os Quinze Divertidos: 15 minutos de exercícios cardiovasculares por dia. É o equivalente a tomar um antidepressivo nos primeiros seis meses, mas com uma taxa de recaída 30% menor nos dois anos seguintes.

Isso não significa repudiar antidepressivos. É uma indicação de que o exercício funciona, porque nosso cérebro registra uma vitória, e isso repercute na atividade seguinte.

4. Respire. Fizemos isto no Google. Nós os fizemos tirar as mãos dos teclados por dois minutos por dia. E passarem das multitarefas para a simples observação do ar entrar e sair na sua respiração. Isto melhora as taxas de precisão. Melhora níveis de felicidade. Reduz seus níveis de estresse. E leva dois minutos.

5. Atos Conscientes de Bondade. O hábito final é o mais poderoso que vimos até agora. Durante dois minutos por dia, comece a trabalhar na redação de um e-mail ou texto positivo por dia elogiando ou agradecendo alguma pessoa que você conhece. E faça-o com uma pessoa diferente a cada dia.

As pessoas que fazem isso não só recebem ótimos e-mails e textos de volta, como são percebidas como líderes positivos por conta dos elogios e reconhecimento, mas sua pontuação em relacionamento social está no na ponta superior da escala.

Os relacionamentos sociais não são o maior elemento para predizer a felicidade no longo prazo - o estudo que fiz em Harvard é uma conexão de 0,7, que não parece muito significativa, mas é maior que a conexão entre fumo e câncer.

P: Esses hábitos pequenos, de dois minutos, realmente fazem a diferença?

R: Há muita gente batalhando para criar felicidade enquanto seus cérebros estão inundados de ruídos. Se o seu cérebro estiver recebendo um excesso de informação, ele automaticamente pensará que você está sob ameaça e vasculhará o mundo atrás da primeira coisa negativa. Como o cérebro é limitado, a primeira coisa a que você dá atenção se torna sua realidade.

Algumas coisas ocorrem com a falta de sono. Se você dorme oito horas, consegue se lembrar de palavras positivas e negativas em torno de 80% do tempo 24 horas depois.

Mas com cinco horas de sono, você se lembra de 70% das palavras negativas, e 20% a 30% das positivas. Assim, sua realidade muda com base em o seu cérebro se sentir ou não sobrecarregado.

Descobri que fazemos a felicidade parecer difícil demais, achando que precisamos sair para umas férias de 80 dias mundo afora, quando, na verdade, pensar em três coisas que nos gratifiquem enquanto escovamos os dentes, ou sorrimos para um estranho num corredor, pode não só aumentar nossa felicidade como nos ajudar a fazer essa escolha outras vezes.

P: Muitas pessoas são inundadas pelo ruído e se sentem sobrecarregadas, ansiosas ou deprimidas. Você falou sobre suas próprias batalhas contra a depressão. Como lidou com ela?

R: A depressão é ardilosa porque nos leva a pensar que não temos controle sobre ela, e que ela é permanente. Tendo enfrentado a depressão enquanto estava em Harvard, e usando esses hábitos positivos para sair dela, percebo que ambas as coisas são mentiras, Que a depressão não é o fim da linha, e que não somos apenas nossos genes, ambiente e neuroquímicos. Nossas escolhas diárias podem nos ajudar a superar as três coisas.

P: Quais são os hábitos de felicidade que usa?

R: Minha mulher e eu somos ambos pesquisadores da felicidade e estamos na estrada por mais de 200 dias por ano. Portanto, temos de colocar essa pesquisa da felicidade em prática, especialmente com um filho de um ano.

Quando comecei a pesquisa, decidi me mudar para a mesma cidade de minha irmã, não só para ficarmos conectados, mas para nossos filhos poderem se conhecer.

Faço estas gratidões quando estou começando a me sentir negativo. Escrevo um diário todos os dias, sobretudo quando estou em aviões. Me exercito todos os dias. A primeira coisa que faço quando vou a um hotel é ir à academia de ginástica. Eu procuro por isso. Eu me divirto ouvindo livros positivos ou engraçados em Audible. Faço uma coisa chamada investimento social. Estou constantemente investindo em pessoas ao meu redor, em especial quando me sinto estressado, triste ou solitário, em vez de fazer o oposto, que é o que a maioria das pessoas faz. Assim, escreverei e-mails positivos. Me encontrarei com um amigo. Se estou indo a uma nova cidade, enviarei um e-mail a alguém que está lá para tomarmos umas bebidas juntos.

O que estamos descobrindo é que não são as coisas macro que importam, mas são as escolhas micro de felicidade que melhor sustentam a felicidade.

Tradução de Celso Paciornik