Saiba quem são as principais maquiadoras do cinema brasileiro

Gabriela Marçal - O Estado de S.Paulo

Apesar de merecer uma categoria no Oscar, profissão ainda é pouco valorizada no mundo da beleza

Anna van Steen maquia Ana Flor para o filme "Xingú"

Anna van Steen maquia Ana Flor para o filme "Xingú" Foto: Divulgação

Apesar de merecer uma categoria no Oscar, a profissão de maquiador de cinema ainda é pouco abordada no mundo da beleza. Além de ser responsável pela caracterização de personagens, o profissional também precisa lidar com planilhas de continuidade, logística e estoque de inúmeros cosméticos, tempo cronometrado e, talvez o mais difícil, o ego dos atores. Conheça as principais maquiadoras do cinema nacional.

"Eu fazia vários cursos ligados a minha paixão pela sétima arte; cenário, figurino, maquiagem. Quando soube da carência de maquiadores de cinema no Brasil, me animei"

"Eu fazia vários cursos ligados a minha paixão pela sétima arte; cenário, figurino, maquiagem. Quando soube da carência de maquiadores de cinema no Brasil, me animei" Foto: Divulgação

Anna Van Steen, entre tintas, bigodes e perucas

Foi em Paris que Anna Van Steen começou a prestar atenção no mercado de cinema brasileiro, isso nos anos 80 quando estava estudando cinematografia na França. A irmã de Ana já trabalhava com cinema por aqui e a avisou sobre a falta desse tipo de profissional no Brasil.

“Eu fazia vários cursos ligados a minha paixão pela sétima arte; cenário, figurino, maquiagem. Quando soube da carência de maquiadores de cinema no Brasil, me animei e passei a aprofundar os conhecimentos nessa área e segui para o aprendizado no campo de efeitos especiais”, diz Steen.

Nesse período de exploração, Anna pesquisou o Kabuki (tradicional teatro japonês), Kathakali (dança secular indiana), cerimônias africanas e outras artes de diversas culturas. “Me encantei com uma professora que ensinava as várias maquiagens étnicas que havia pesquisado pessoalmente em viagens”.

Décadas depois, certamente essa experiência foi relevante para caracterizar os irmãos Villas Bôas e outros personagens do filme ‘Xingu’. “Foi um trabalho de vários meses no Tocantins e em pleno Parque Nacional do Xingu. Fizemos pinturas corporais indígenas, maquiagem de época e de efeitos especiais, pois os três irmãos envelheceram na selva”, explica Steen.

Do coração da Amazônia para a periferia da cidade maravilhosa, no longa metragem ‘Cidade de Deus’ - um dos trabalhos preferidos de Anna - os atores também passaram por várias décadas diante dos olhos dos expectadores, para essas transformações orgânicas a maquiadora apostou em perucas, barbas e bigodes falsos.

Aliás, o trabalho com apliques de cabelo são mais uma das especialidades de Anna Van Steen  que usou essa técnica no seu primeiro trabalho como maquiadora no Brasil em ‘Feliz Ano Velho’ , no qual Malu Mader interpretava dois personagens. “O desafio foi delicioso e já iniciei minha carreira em grande estilo. Neste trabalho, como em muitos outros que tenho feito, as perucas exercem um papel determinante.” A maquiadora explica que esse recurso é importante para trabalhar personalidades, estilos, épocas, narrativas e, principalmente, as propostas dos diretores.

Marlene foi reconhecida pela Academia Brasileira de Cinema pelo trabalho nos filmes 'O Palhaço' e 'Olga'

Marlene foi reconhecida pela Academia Brasileira de Cinema pelo trabalho nos filmes 'O Palhaço' e 'Olga' Foto: Divulgação

Marlene Moura, da TV em preto e branco ao ‘O Palhaço’

Em 1969, aos 19 anos, Marlene Moura começou sua carreira sendo assistente de maquiagem na TV Tupi, no Rio de Janeiro. Nessa época, a transmissão era em preto e branco e nem se pensava na internet. Hoje, com a TV em alta definição, Marlene tem um perfil dedicado a sua carreira no IMDB (site da Amazon com informações e avaliações de filmes que é uma referência para cinéfilos).

“Aprendi a ser rápida e objetiva trabalhando na TV ao vivo e em preto e branco, isto me ajudou muito. Depois veio a TV a cores, tive que me adaptar, mas como já fazia publicidade e capas de revistas como a Vogue foi mais fácil. Agora temos o HD, o que também não foi novidade para mim, pois já trabalhava com essa sensibilidade no cinema”, conta Moura.

Marlene foi reconhecida pela Academia Brasileira de Cinema pelo trabalho nos filmes ‘O Palhaço’ e ‘Olga’. Além de ter participado de obras icônicas do cinema nacional, ela também assina a maquiagem de produções mais recentes como ‘Até que a sorte nos separe 2’ e ‘Rouge Bresil’ - produção francesa, canadense e brasileira. Em julho, estreia ‘Vestido pra Casar’, protagonizado pelo comediante Leandro Hassum.

Atualmente, ela mora em Los Angeles e vem ao Brasil uma vez por ano a convite de diretores de cinema e TV. Ela está estudando o roteiro de um longa e faz pesquisas para a caracterização dos personagens. “Quando começamos a pré-produção fica mais interessante, pois temos contato com os atores para teste de câmera, com o figurino e a direção de arte. Confesso que sempre me dá um frio na barriga, é como se fosse o meu primeiro trabalho”, diz a maquiadora.

Moura conta que no início da carreira aprendeu tudo na “marra”. Para se aperfeiçoar, anos após atuar no cinema, procurou a Cinema Makeup School, em Los Angeles, local que ainda frequenta para se manter atualizada. “Isso é muito importante na profissão”.

Para Siva, o trabalho do maquiador em um filme tem que ser invisível e percebido apenas por outros técnicos da área.

Para Siva, o trabalho do maquiador em um filme tem que ser invisível e percebido apenas por outros técnicos da área. Foto: Divulgação

Siva Rama Terra, maquiagem a trabalho da narrativa

Com cerca de 20 filmes no currículo, Siva Rama Terra é uma defensora da profissão de maquiador para o cinema. Como exemplo mais recente de seu trabalho, está o filme ‘Serra Pelada’. Os rostos de Juliano Cazarré, Wagner Moura e Matheus Nachtergaele receberam o pó bronzer pelas mãos dela.

“Serra Pelada não tinha como existir sem maquiagem. Mas fizemos um trabalho tão bom que o diretor passou dois meses vendo imagens atuais achando que eram de arquivo”, conta Terra. Para ela, o trabalho do maquiador em um filme tem que ser invisível e percebido apenas por outros técnicos da área.

“O ator sabe a importância da maquiagem. O diretor e a produção não sabem. É uma geração que têm muito preconceito. Ainda existe um machismo em relação a maquiagem, as pessoas acham que maquiagem é coisa de mocinha”, afirma a maquiadora. “A maquiagem pode estragar uma narrativa. A atriz quer acordar linda depois de uma perseguição policial toda trabalhada nos cílios postiços. Isso pode te jogar para fora da tela. Tudo pode perder a credibilidade. Às vezes a narrativa permite isso, às vezes não. E às vezes isso é permitido por causa do ego da atriz.”

O nome Siva Rama Terra também está nos créditos dos longas ‘O Cheiro do Ralo’, ‘Os desafinados’ e ‘Sudoeste’ - este último é um filme do gênero realismo fantástico em preto e branco, no qual as unhas dos atores tiveram que ser pintadas de verde para aparentarem uma cor normal ao serem exibidas em gamas de cinza. “Tive muita sorte de fazer filmes em que a maquiagem era muito necessária.”

Ela descobriu no meio da faculdade de Artes Plásticas que aquela não era a carreira que queria seguir, não queria ficar em uma sala sozinha elaborando projetos. Apesar de não gostar de Artes Plásticas, porque “não queria ficar em uma sala pensando em projetos sozinha”, ela seguiu com os estudos e direcionou seu trabalhos para as artes visuais. “Quando você faz cinema universitário, a mesma pessoa é responsável pelo figurino, arte, produção e maquiagem.”

Em 2001 se firmou como maquiadora e em 2004 se consolidou na carreira voltada para o cinema trabalhando nos bastidores de “Bom Dia Eternidade”. “O trailer desse longa está no You Tube, mas eu nunca o vi no cinema, porque para nós do cinema o importante é o processo. O que o diretor e a produção vão fazer não importa muito. O principal é o caminho”, conta Terra.