Revolução fashion na Semana de Paris

Jorge Grimberg - O Estado de S.Paulo

Sem diretores criativos na Dior e Lanvin, a moda vanguardista do estilista Demna Gvsalia reina na temporada francesa 

Vetements Outono Inverno 2016: o novo estilo de Paris

Vetements Outono Inverno 2016: o novo estilo de Paris Foto: Divulgação

Em Milão, o estilista Alessandro Michele reinventa a moda de luxo com ousadia e criatividade para a Gucci. Em Paris, o cenário é diferente. A subversão e a contracultura tomam conta das rodas de conversa - e das passarelas inovadoras - na semana de moda que encerra a temporada internacional outono inverno 2016. 

Com rumores de que esta será a última temporada de Hedi Slimane para Saint Laurent e Phoebe Philo para Céline, além da ausência de diretores criativos na Dior e na Lanvin, a falta de estilistas parece ter sido mais importante para  a mídia do que os desfiles em si. Assim, a mudança de cenário no império da moda francesa abre espaço para uma reinvenção de valores e territórios. 

Há algumas temporadas, o diretor criativo do coletivo Vetements, Demna Gvsalia - com esse nome quase impronunciável -, está tomando conta das manchetes internacionais de moda. Por que? Ex-designer senior na Louis Vuitton, Demna comanda um grupo de designers que deixou o seu trabalho em grandes corporações (alguns ainda cumprem dupla jornada, mas seus nomes não são divulgados) para reinventar o mercado de luxo. O foco deles é criar produtos que refletem os reais desejos encontrados nas ruas. O coletivo conta com sócios de diferentes nacionalidades, mas é Gvsalia quem protagoniza o movimento. 

Além de comandar a Vetements, o estilista realizou no último domingo, 6, seu aguardado desfile de estréia para Balenciaga. A reinvenção do terno feminino e das formas foi a questão pivotal da coleção. O desfile propôs volumes curiosos e formas não convencionais para peças que já conhecemos. Essa é a arte de Demna. A mesma que o consagrou no coletivo. 

Vetements, que significa vestuário em francês, está apenas na sua quinta coleção, mas já causou um alvoroço na comunidade de moda. Com uma linguagem muito autoral e inovadora, o grupo foca no produto e não no sonho de consumo, oferecendo peças desejo, como moletons de capuz, botas estilo David Bowie e camisas oversized. Peças de difícil acesso (ninguém sabe bem onde vende) e com preços altos (uma bota pode custar mais de R$ 4.500 em Paris) para um público seleto e formador de opinião. 

Balenciaga Outono Inverno 2016: a primeira coleção do diretor artístico Demna Gvsalia 

Balenciaga Outono Inverno 2016: a primeira coleção do diretor artístico Demna Gvsalia  Foto: Divulgação

Deliciosamente estranho, o estilo que emerge em Paris traz de volta o charme da subcultura ao epicentro da moda. Em tempos onde Dior e Chanel fazem desfiles focados no mercado asiático e o sonho do luxo do século XX tornou-se conquistar as massas, o público formador de opinião estava sentindo uma carência de um movimento atento e original, não tão conectado ao retorno financeiro encabeçado pelos grupos LVMH e Kering. Com Demna Gvsalia e a celebração de uma nova cultura de moda, podemos esperar algumas surpresas para as próximas estações. Nos resta apenas aprender a pronunciar o nome do novo estilista do momento.