Reviver um casamento é fazer a coisa errada

Gina Barreca - O Estado de S.Paulo

Será que estes ritos de passagem ainda sinalizam a maneira como nossa cultura celebra momentos significativos da vida?

A duração e a solidez de um casamento é 'inversamente associada aos gastos' na cerimônia de casamento, aponta estudo

A duração e a solidez de um casamento é 'inversamente associada aos gastos' na cerimônia de casamento, aponta estudo Foto: Shutter Fotos/ Creative Commons

Bailes de estudante, festas de formatura, casamentos: será que estes ritos de passagem ainda sinalizam a maneira como nossa cultura celebra momentos significativos da vida?

Os eventos associados a tais ocasiões não teriam se tornado uma maneira cada vez mais deformada de avaliar, julgar e competir com nossos próximos?

Será que paramos de convidar hóspedes, por exemplo, e começamos a convidar apoiadores?

Ao que parece, tanto os rituais sagrados como os seculares foram reduzidos a uma desculpa para gastar meses no Facebook, StumbleUpon e Pinterest para ver como estranhos estão sendo únicos para que suas ideias originais possam ser surrupiadas.

Podem me chamar de sentimental, mas não acredito que "reviver" e "lua de mel" devam aparecer na mesma frase.

Relacionar "financiamento coletivo" e "chá de bebê" é ainda pior.

Claro, presentes sempre foram associados a festividades, mas ao menos num casamento italiano, a noiva e o noivo tinham de circular por cada mesa e ela estendia sua bolsinha de cetim se eles recebessem dinheiro.

Era mais pessoal. Era tradição. Era extorsão, mas era preciso palestrar com o feliz casal e, de mais a mais, havia um bufê de doces.

Teríamos trocado elogio por avaliação e substituído faturar por festejar?

Não vejo como um sinal de nascente independência adulta recém-formados informarem seus parentes de que preferem dinheiro a presentes. Esta não é a hora de passar o chapéu - ou o capelo. Dizer "obrigado por permanecerem sentados durante toda a cerimônia de formatura sem sair" - sentir mesmo isso. Uma educação não é um programa de jogos na TV. Não se recebe um prêmio em dinheiro por responder perguntas corretamente.

Será que a forma está substituindo a função? Nós ficamos tão focados em conformidade e competição que toda festa vira uma cerimônia completa com tiaras e algumas pobres almas que terminam em lágrimas?

Acabei de ver anunciado um vestido de baile trabalhado a mão que faria qualquer jovem que o usasse parecer uma candidata ao Desfile da Sereia de Coney Island. O vestido custa mais de US$ 700. Por esse preço, daria para enviar a garota a Paris.

Para muitas de nós, bailes de estudantes foram menos Cinderella de Walt Disney e mais Carrie, a Estranha de Stephen King. Quanto menos gastássemos neles, melhor.

Não estou brincando: gastar menos em todo tipo de festa pode garantir um desfecho melhor. Segundo um estudo reportado no ano passado por dois economistas da Universidade Emory, Andrew Francis e Hugo Mialon, a duração e solidez de um casamento é "inversamente associada aos gastos" na cerimônia de casamento.

Quanto menos se gasta, mais tempo se fica junto.

Faz você querer dizer "não" ao vestido, não é?

Eis onde a coisa fica espinhosa: a filha de um amigo noivou recentemente e ele está preocupado sobre como pagar o tipo de casamento com o qual ela sonha desde garotinha.

Esse pai devotado está tão determinado a oferecer a sua única filha o dia de seus sonhos, que está pensando em fazer uma segunda hipoteca da casa da família. A mulher e a filha acham que é uma grande ideia.

O único que não concorda é o futuro genro; a sanidade deste me dá esperanças. Sua relutância em colocar em risco a segurança financeira dos sogros para seus velhos colegas de faculdade se empanturrarem numa boca-livre é um indício de perspectiva e sabedoria.

Afinal, o teste de um casamento não é o evento em si, é a felicidade do casamento que o segue.

Preparação e pressão não garantem a perfeição assim como uma etiqueta de preço alto presa a um evento não garante que os participantes ficarão agradecidos, se divertirão ou oferecerão seus sinceros votos a quem quer que seja o centro da festa.

Eis o que devem fazer os que querem que seus amigos e familiares tenham um dia memorável por sua verdadeira generosidade. Abrir amplamente as portas e dizer: "Celebrem isto conosco! Como fomos afortunados de ter uma dose de sucesso, um gosto de amor, uma chance de usar nossos talentos e cruzar um novo limiar! Vamos erguer a taça e dividir o pão para marcar um dia tão magnífico porque temos o privilégio de fazer parte desta querida comunidade. A alegria autêntica é sempre maior quando é compartilhada. Não há melhor maneira de brindar 'à vida' do que saudar sua vivência."

E não é preciso um vestido caro, um terno alugado ou uma conta no PayPal para fazer isso funcionar.

A autora é professora de inglês na Universidade de Connecticut, pesquisadora do feminismo e já publicou oito livros

Tradução de Celso Paciornik