Relacionamentos: Nietzsche estava errado. O trauma persiste

Por: Barton Goldsmith - O Estado de S.Paulo

Quando você passa por uma experiência terrível, nem sempre sai dela intacto

Foi Nietzsche quem disse: “o que não nos mata, nos torna mais fortes”. Mas na realidade, o que não nos mata pode nos deixar gravemente traumatizados. Quando você vive uma experiência aniquiladora, um evento assustador ou trágico, ela pode deixá-lo com uma grave depressão ou crises de ansiedade ou mesmo um transtorno de estresse pós-traumático. 

Quando você passa por uma experiência terrível, nem sempre sai dela intacto. E não me refiro a uma ida ao dentista. E se perder seu emprego, terminar um relacionamento ou tiver de se mudar porque não pode mais pagar pela casa onde mora? Vítimas de crimes violento podem conviver com um trauma persistente relacionado ao ataque original. Um acidente grave pode deixá-lo mental e fisicamente incapacitado.

A doença que chamamos transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) despertou muita atenção a partir do 11 de setembro e as guerras que se seguiram depois. Normalmente este título era usado para descrever o que ocorria com soldados retornando do campo de batalha ou com os socorristas que são sempre os primeiros a conduzir uma operação de socorro trágica, mas a verdade é que um divórcio muito ruim pode provocar sintomas similares, assim como a perda de um ente querido.

Se você teve uma experiência traumática, a química do seu corpo e a maneira como vê a vida podem se tornar diferentes. Você não verá pessoas, lugares e coisas da maneira como fazia antes. Poderá ter muita dificuldade para encarar alguma coisa de modo positivo e desfrutar a vida e sua família.

Curar de um trauma leva tempo. Você terá de aprender a ser tolerante consigo mesmo e com seus entes queridos. E eles também têm de aprender a se adaptar à maneira como você enfrenta o mundo. Uma das melhores coisas a fazer é sentar-se com as pessoas que ama, falar como se sente e sobre o que cada um deve fazer para tornar a vida melhor para todos os envolvidos. 

Quando jovem, estive envolvido num terrível acidente de carro em que todos morreram menos eu, incluindo a irmã de 12 anos do meu amigo. A lembrança ainda persiste e quando penso no acidente ainda estremeço e quero chorar. É algo que nunca conseguirei superar, mas aprendi a conviver com isso nas últimas décadas. E através deste processo de cura, de aprender a enfrentar e tentar compreender um trauma ou uma tragédia, que você vai melhorando com o tempo.

Quando alguma coisa o afeta de um modo muito drástico, você necessita de aconselhamento e apoio emocional. Talvez de algum medicamento. Não tente ignorar seus sentimentos. A negação não o ajudará nem a qualquer um à sua volta. O que você tem de reconhecer é que não é mais a mesma pessoa. Então deve começar a buscar maneiras de tornar sua vida plena novamente. Buscar ajuda onde puder tem de ser parte do seu modo de vida por algum tempo.

Quando se recuperar, a vida ainda continuará diferente, mas uma das dádivas que a cura de um trauma pode lhe oferecer é uma nova perspectiva de vida, de maneira que muitas das pequenas coisas que costumavam entusiasmá-lo ou o deixavam louco não são mais tão importantes. O que necessitará então, em vez de desperdiçar energia emocional em coisas triviais, será encontrar novas maneiras de aumentar sua paz interior e contribuir para uma maior harmonia no mundo à sua volta.

Tradução de Terezinha Martino 

(Dr. Barton Goldsmith, psicoterapeuta em Westlake Village, Califórnia, é autor de “The Happy Couple: How to Make Happiness a Habit One Little Loving Thing at a Time.