Redes sociais podem ser ponto de partida para melhora do ser humano, diz especialista

Ana Clara Barbosa - O Estado de S.Paulo

Terapeuta familiar explica o porquê de a caridade acontecer no universo online, mas não se repetir no cotidiano

A internet acaba se tornando um universo em que podemos mostrar nossas melhores qualidades e ainda ajudarmos ao próximo

A internet acaba se tornando um universo em que podemos mostrar nossas melhores qualidades e ainda ajudarmos ao próximo Foto: mkhmarketing/Creative Commons

Da organização de panelaços até a reunião de centenas de pessoas na Avenida Paulista em manifestação. O universo online é capaz de promover diversos tipos de protestos, mas como isso reflete na sociedade, de fato?

Heloísa Capelas, terapeuta familiar, acredita que essas práticas são válidas, porque elas podem abrir a porta para os pequenos gestos do dia a dia. A especialista reconhece que, muitas vezes, as pessoas tomam atitudes no universo virtual, mas não as repetem com pessoas próximas, por exemplo. “Eu me solidarizo com o pessoal do Nepal, mas é uma solidariedade numa camada mais superficial, porque com quem eu convivo, eu cobro um outro tipo de comportamento”, afirma. No entanto, Heloísa acredita que esse é um ponto de partida para uma melhora do ser humano.  

Essa solidariedade online pode acontecer porque é mais fácil já que não envolve relações efetivas, necessariamente. Esse ativismo atinge uma camada mais rasa, já que o contato pessoal com as outras pessoas pode nos fazer perceber coisas ruins sobre nós mesmos e tentamos evitar. Por isso, a internet acaba se tornando um universo em que podemos mostrar nossas melhores qualidades e ainda ajudarmos ao próximo. “Nós estamos querendo só mostrar nosso lado bom, mas já fazemos isso no mundo real, a gente já esconde nosso lado feio”, afirma. 

A terapeuta rebate as críticas contra esse comportamento por acreditar que a internet pode nos ajudar a chegar em um processo de auto conhecimento, que resulta na melhora também da nossa relação com os outros. Ela percebe que nós não vamos mudar, necessariamente. Esse processo de auto conhecimento, porém, nos ensina a sermos mais tolerantes, que é o primeiro passo para mudarmos com o próximo. Além disso, as redes nos fazem enxergar o outro de maneira diferente, vendo suas dificuldades também. “Com a tecnologia, nós podemos, em uma escala global, compreender as dificuldades das pessoas”, finaliza.  Por ser uma ferramenta recente, ainda nos atrapalhamos com ela, então ainda estamos aprendendo a usá-la e, assim como tudo na vida, alguns saberão aproveitá-la para o bem, outros, não. A internet mostra que as pessoas estão se comovendo com as causas mundo a fora, que elas estão incomodadas com algumas situações. “É um sinal positivo que a humanidade está se comovendo com pessoas que desconhecidas”, finaliza. 

Os sites de abaixo-assinado são exemplo de que é necessário pensar sobre como os relacionamentos humanos em tempos de tecnologia podem funcionar. O change.org, por exemplo, que atua desde 2012 no Brasil, conta com os mais variados protestos. Susana Garrido, porta-voz do site na América Latina, afirma que, apesar deles não terem valor judicial, esta é uma forma de expandir uma proposta de um jeito rápido. “Nós ajudamos pessoas a contarem o que está acontecendo em suas vidas, por que ela está procurando ajuda e como resolver”, explica. 

Susane acredita que a pressão causada por um número grande de pessoas pode fazer com que as causas se concretizem. A facilidade de acesso também é um fator importante, assim como a capacidade de mudança que o site proporciona. “Qualquer um que tenha um problema e uma ideia para resolver pode criar um abaixo-assinado”, diz ela. Como as pessoas percebem que aquilo faz diferença, outras da sua rede passam a tomar iniciativa também, por verem consequências, isso vai aumentando o número de compartilhamento, de comentários. Tudo isso faz com que percebem que outras se identificam com suas causas.

Para Susana, esses sites são importantes porque podem juntar pessoas por uma causa e, com um alto nível de compartilhamento, é possível atingir estâncias que possibilitam essas mudanças. Para ela, o fato de ser uma plataforma online facilita o acesso de mais pessoas e não implica na menor importância da petição. “Não existe essa diferença entre o real e o virtual. Tudo o que acontece na internet tem a sua realidade”, afirma.