Qual é o dress code?

Jorge Grimberg - O Estado de S.Paulo

Com a divulgação dos looks certos ou errados para frequentar o novo Templo de Salomão, levantamos a questão: qual é a importância do dress code?

Imagem do Facebook da Igreja Universal com a blogueira Thassia Naves

Imagem do Facebook da Igreja Universal com a blogueira Thassia Naves Foto: Reprodução

Recentemente foi publicado no folhetim interno da Igreja Universal do Reino de Deus —Folha Universal— uma matéria que chamou muito a minha atenção. O texto O que vestir para ir ao Templo de Salomão? explica em detalhes o que usar para adentrar a “casa do próprio Deus”. 

O texto me lembrou muito a linguagem encontrada nos blogs de moda brasileiros. Dicas de estilo coerentes, com as tendências atuais e um certo e errado do que é permitido ou não no novo Templo. Entre as tendências apontadas para usar na Igreja: saia midi, rendas e transparências, calças com shapes inusitados e monocromáticos. Entre os itens não apropriados: leggings, chinelos, bolsas grandes, jeans e qualquer roupa colada ao corpo. 

Em uma sociedade com uma nova classe média que não é acostumada a seguir códigos de estilo, o esforço de educar os fiéis da Igreja com o comportamento adequado me pareceu—até—uma boa ideia. Além de dicas, frases de efeito como "entendemos que Deus não olha a aparência de ninguém e que Ele realmente se importa com o seu coração” ou “maquiagem também é bem-vinda, mas não se maquie como se fosse para o São Paulo Fashion Week” dão o tom do comportamento exigido no novo Templo paulistano sem perder as características do discurso da Igreja.

O dress code é simplesmente um código de como se vestir adequadamente para certas ocasiões. Em nosso queridíssimo país tropical, as pessoas, muitas vezes, não têm noção mesmo e devem ser orientadas. Um texto como esse pede, por exemplo, que as pessoas apostem em saias midi (ao invés de curtas) para mostrar respeito aos rituais religiosos. Talvez seja um sinal de que a população brasileira esteja passando por uma—bem-vinda—educação de moda, que aconteceu na Europa há séculos. 

Este ano, passei uma temporada de férias na Costa Basca francesa, na cidade de Biarritz. Um lugar que, mesmo sendo na França, é muito casual. É a capital do surf no país. Eu e duas amigas fomos convidados pelos locais para irmos a uma festa, com pé na areia no fim da tarde. Escolhi vestir uma regata branca e larga do estilista Alexander Wang, jeans preto e um tênis Vans branco. Minhas amigas estavam de vestidos de verão e rasteirinhas. 

Ao chegarmos na festa, o segurança olhou pra mim e perguntou em francês: 

- Você está tentando entrar? 

E eu respondi:

- Sim. 

Aí escutei o seguinte: 

- Do you speak English? (Você fala inglês?)

- Yes. (Sim)

- I am sorry, but with this outfit, you are not coming in. (Desculpe-me, mas com essa roupa, você não irá entrar.)

Eu estava usando uma regata desenvolvida pelo estilista que hoje está a frente da Balenciaga, uma das maisons de moda mais tradicionais da França, mas, mesmo assim, eu estava inadequado para uma festa em plena luz do dia na praia.

Nem discutimos. Saímos e fomos beber no bar ao lado e começamos a refletir sobre a real importância do dress code. 

Na moda masculina, marcas de luxo como Givenchy, Marc Jacobs, Prada e Saint Laurent apresentam uma série de regatas nas suas coleções e desfiles. Novas propostas estão emergindo a cada temporada para o homem se libertar do modelo terno/gravata/sapato/camisa e novas peças se tornam desejo e referência do street style masculino, como bonés, tênis e camisetas. Será que  realmente eu precisava estar de camisa para ir a uma festa na praia? 

De volta pra casa, me deparei com o novo guia de estilo do Templo de Salomão e pensei: Qual é a importância do dress code? 

Acho que no caso do Templo, a educação de moda é bem-vinda. Na França, eu abandonei as regatas e sai de camisa todas as noites até o fim da minha estadia. Ao mesmo tempo, hoje os ícones de moda são vistos e destacados pela sua individualidade  excentricidade, que nem sempre é como manda o figurino. Até no Folha Universal, a importância de quebrar os códigos antigos de moda é ressaltado, mas no fundo todos queremos pertencer e estar adequados em qualquer situação. 

O comportamento de moda está mudando, mas algumas tradições na França se mantêm e no Brasil nascem. Enquanto barreiras vão se quebrando nas passarelas, ainda o comportamento de consumo não acompanha com a mesma velocidade as mudanças propostas pelos estilistas e marcas na Europa. No Brasil, a internet tornou-se o veículo oficial de educação de moda (até da Igreja). Se eu aprendi alguma coisa com essa situação é que os dress codes devem ser respeitados, sim, mas às vezes são extremos. Ah, e jamais eu iria de regata no Templo de Salomão! Amém.