Projeto documenta tudo o que as pessoas tocam em um dia

Marina Espindola - O Estado de S.Paulo

Designer argentina fotografou objetos em que 62 pessoas encostaram em 24 horas para criar um registro do modo de vida contemporâneo

Foto do livro "“Every Thing We Touch: a 24-Hour Inventory of Our Lives”: Designer Paula Zucotti registrou tudo o que uma pessoa usa em um dia.

Foto do livro "“Every Thing We Touch: a 24-Hour Inventory of Our Lives”: Designer Paula Zucotti registrou tudo o que uma pessoa usa em um dia. Foto: DIVULGAÇÃO

Já parou para pensar na quantidade de coisas que você usa em um dia? Pois de acordo com a argentina Paula Zucotti, são em média 140. A designer de produto e coolhunter pediu que 62 pessoas de países e culturas diferentes documentassem tudo em que elas encostassem durante 24 horas e fotografou o resultado em fundo branco. O fruto da experiência é um documento fiel do modo de vida de cada uma delas. Por exemplo Nini, uma artista de Shanghai. “Quando ela me viu fotografando suas coisas pausou, com olhar preocupada, e disse ‘Preciso trabalhar menos e me divertir mais’”, conta Paula, sobre uma de suas personagens favoritas. “Também amo o fato de ela usar um 

liquidificador. À primeira vista, qualquer um pensaria que ela prepara bolos, mas na verdade ela o usa para misturar tintas."

Para a autora do projeto, as imagens funcionam ainda como uma forma de registro histórico. “Nossa interação com objetos é algo que eu sinto necessidade de documentar”, diz ela. "Muitas das coisas que sabemos sobre civilizações passadas são de deduções feitas a partir de suas ferramentas, seus utensílios, suas roupas e sua arte, que nos ensinaram sobre o tipo de trabalho que faziam, o que caçavam, plantavam e comiam. O resultado foi compilado no livro “Every Thing We Touch: a 24-Hour Inventory of Our Lives”, lançado no final do ano passado pela editora Penguin e disponível apenas sob encomenda no Brasil. Na entrevista a seguir, Paula fala sobre a ideia.

Como surgiu o projeto e como foi colocá-lo em prática?

Tirei a primeira foto em outubro de 2013. Começou como um hobby, algo que eu fazia num domingo à tarde se tivesse tempo livre. Mas o projeto se tornou a minha vida durante 6 meses a partir de dezembro de 2014, quando recebi uma proposta da editora Penguin UK para transformá-lo em um livro. Então viajei a lugares diferentes para expandir as histórias e oferecer uma perspectiva global. A ideia veio do meu background como designer de produto, etnografista e coolhunter. Nos últimos 15 anos, viajei o mundo estudando a relação entre pessoas e produtos: tanto os que são utilizados quanto aqueles que nem sabemos que existem ainda. Minha expertise é antecipar cenários futuros e aquilo que vamos precisar e desejar. Nossos smartphones, tablets e laptops, por exemplo, oferecem uma alternativa a uma vasta gama de objetos, incluindo DVD players, livros, mapas, câmeras, calculadoras, diários, calendários, alarmes, rádios, lanternas e dinheiro.

As pessoas entenderam o seu conceito desde o início? 

Recebi muito apoio. Desde o começo imaginei que tinha uma boa ideia em mãos, algo que as pessoas quisessem ver. Os obstáculos a superar ao longo do caminho foram de logística. Demora cerca de 4 horas para preparar cada foto. Também viajei todo o mundo, então precisei criar um sistema que pudesse ser replicado e fosse consistente em termos de estilo e formato. Cada foto foi tirada numa tela branca de 4 x 2,70 metros. Mas foi uma experiência boa para todos os envolvidos. 

Como funcionava? Os participantes mantinham uma lista de tudo que tocavam e reuniam o material depois? 

Eles registraram tudo que encostaram e então nos reuníamos com todos esses objetos. Nesse momento, eles me contavam toda a sua rotina, e às vezes percebíamos que faltavam coisas - como toalhas, garfos, xícaras -, e então voltávamos para buscá-las. Algumas pessoas diziam algo como ‘Usei um pano de prato, mas como estava muito sujo trouxe outros, pode escolher a cor’.

 Você se tornou próxima dos participantes?

Eu me tornei amiga de muitas as pessoas que fotografei. Foi uma ótima experiência para realmente conhecê-las. Conversar sobre objetos e suas rotinas diárias é muito pessoal, revela muito sobre uma pessoa, seja intencionalmente ou não.

Qual transformação o projeto causou em você?

Sim, com certeza. A experiência me fez olhar para minhas próprias coisas de forma diferente. Eu me tornei mais consciente e presente. Adoro coisas, objetos, moda, arte, livros… Então não acho que posso viver sem eles. Só aprecio o que cada uma dessas coisas faz por mim, funcionalmente ou emocionalmente.

Quais são seus projetos futuros?

Quero lançar o documentário sobre o projeto e então começar um segundo, outro livro e documentário concebido como uma história multi-plataforma. Acho que Every Thing We Touch se tornou uma linguagem para mim agora. Então gostaria de usá-la para explorar outros tópicos e pessoas, como fazer um verdadeiro raio-X da vida de políticos, ativistas, esportistas, artistas. O que eu gosto sobre essa ideia é ver como partes secretas da vida de pessoas públicas iriam se manifestar. Também quero fazer um projeto baseado em tópicos, como “indulgência”, “persistência”, etc. Veremos...um projeto baseado em tópicos, como “indulgência”, “persistência”, etc. Veremos...