Profissão: personal stylist

Manu Carvalho - O Estado de S.Paulo

Manu Carvalho conta como deveria ser o trabalho de quem veste os outros

Quem pensa que stylist faz "artista deixar de ser cafona", "passar a ter bom gosto", ou "obedecer regras de moda" não imagina que a gente não veste só corpo e cabeça. Veste uma vida e seus objetivos, limites, sonhos... e também uma agenda. Um bom trabalho de construção de imagem não é simples. É como pensar que preto emagrece e esquecer que um gordo pode ter uma personalidade alegre e vestir melhor peças coloridas, por exemplo.

O produto que eu vendo não é gosto. Meu produto principal é informação. E informação de moda começou com o primeiro cara que cobriu o corpo com uma pele animal ou uma folha de parreira. E não para nunca, é um organismo vivo, pulsante. A gente não pode deixar de olhar e muito menos de pulsar junto. 

Nesse trabalho, o gosto não deve ser levado em conta, já está implícito. Em imagem e na moda, tudo o que se coloca imprime um código - e cada código passa uma sensação, cria uma emoção, impacta de um jeito, individual e coletivamente. E a partir dessas contas de códigos, se passa imagens, se conta histórias. Essas impressões podem ser conduzidas. Cor viva ou cor leve, forma arredondada ou pontuda, modelagem mais fechada ou ou mais aberta, formal ou informal, com textura ou sem, épocas, estilos, tudo fala.

Construção de imagem é como construção de marca. Para um artista, ou para qualquer um de nós, o melhor ponto de partida é o centro de cada um. Quem a pessoa é, como quer se posicionar, quais os objetivos, para onde quer ir ? A partir daí, que ideias e linguagens têm sintonia, o que representa, quais os melhores códigos, quando, onde, por que? É muito mais do que uma cartilha de certo e errado, mais que combinar vestido com sandália e jaqueta com boné. Quanto mais se sabe, mais portas se abrem. E menos tem aquela conversa de "não gosto quando isso é assim" ou, do outro lado, "tá diva, tá deusa". A moda é maior. É uma ferramenta imediata e poderosa de comunicação. 

O personal stylist deve ter um saber completo de moda, história, comportamento, cultura geral, mercado nacional e internacional (a cada coleção, e ainda mais agora na moda contemporânea, os tempos são mais curtos). Ter visão, acesso, raciocínio estratégico e logístico, rapidez e uma boa administração de tempo e verba. Ser uma luz sobre todas as questões e, ao mesmo tempo, uma boa mão pelo universo da moda, que tem uma linguagem própria e onde um bom intérprete, pelo menos no começo, pode ser muito útil. É um trabalho estético, mas também intelectual. Tem também um pouco de aventura, gincana e sucata. Tudo isso para encontrar o que faz sentido para o cliente, sua vida, suas buscas. O bom personal stylist não coloca o ego no trabalho. 

Agora, essa confusão é natural, a profissão do personal stylist (ou consultor de imagem) é nova. Por mais que o artista tenha tido uma ajuda para ir num evento desde que Hollywood começou, no início do século passado, faz menos de 3 décadas que a profissão se desenhou e se estabilizou como é hoje. Foi nos anos 90 que a demanda desse profissional estourou, justamente quando as revistas de celebridade estavam sendo lançadas. O artista foi o primeiro a divulgar esse trabalho, mas esse viés mais pessoal da moda é interessante e produtivo para qualquer um. Hoje a gente encontra informação de consultoria de moda facilmente em todo lugar: nas revistas, na web, na tv e até nas lojas, com consultores in house. 

Mas ainda estamos todos começando e aprendendo todos os dias. Sabemos que temos uma classe quando somos muitos. Um mercado crescente numa cultura onde um dos traços mais fortes é o imediatismo cria anualmente centenas de novos profissionais que olham a profissão superficialmente, se encantam e vão atuar. Artistas à deriva entre presentes das marcas e o que está mais na mão versus uma ação mais planejada, com pensamento institucional, investimento na carreira. Trabalhos sendo discutidos e aprovados por namorados, manicures, papagaios. Argumentos fundamentados sendo vencidos pelo termo da moda falado em alto e bom som e com as sílabas se-pa-ra-das !

O objetivo é tentar ser cada vez mais profissional num mercado que começou tão informal e muitas vezes mantém esse tom. Uma vez ouvi uma frase que achei ótima: "O personal stylist deve gostar mais do pé do que do sapato". Ao mesmo tempo, nosso trabalho é saber tudo sobre o sapato para atender muito bem. Se não for assim, não é um trabalho de moda.