Por que as pessoas estão pagando 12 mil dólares em um par de tênis?

Bee Shapiro - The New York Times

Calçados esportivos estão sendo vendidos a preço de joia em lojas de revenda especializadas em modelos raros

Estoque da Stadium Goods esperando seus compradores. A maioria deles são homens

Estoque da Stadium Goods esperando seus compradores. A maioria deles são homens Foto: Mark Wickens /The New York Times

Entrar na loja de 278 mil m² Stadium Goods no SoHo, em Nova York, significa ficar cercado de fileiras e fileiras de tênis embalados e longe do alcance do público. E, ao olhar um pouco mais de perto, talvez você fique impressionado com os preços. Por exemplo, um par do tênis Nike Jordan 1 criado em parceria com o estilista Virgil Abloh (das grifes Off-White e Louis Vuitton Hommes), que custava originalmente US$ 190 , é vendido lá por US$ 2.750 (e é por isso que ele é guardado em uma redoma de vidro). Mais raro que esse é um par do Adidas PW Human Race NMD TR, desenhado por Pharrell Williams. O preço? US$ 12.350 . 

Claramente essa não é uma loja qualquer. 

O mercado de tênis de luxo está aumentando nos dias de hoje e a Stadium Goods, loja especializada em tênis raros e edições limitadas que tem apenas três anos, se estabeleceu como uma Tiffany's dos calçados. Os amantes de tênis, que existem há décadas, se dedicavam a comprar peças exclusivas em leilões online ou trocas presenciais. Porém, foi nos últimos anos que o mercado de revendas cresceu em níveis estratosféricos. John McPheters, co-fundador da Stadium Goods, acredita que o movimento é por causa dos "homens que estão aprendendo a tratar a moda como um hobbie - como as mulheres sempre o fizeram." O ponto não é sobre utilidade, mas sobre expressar identidade. "Os tênis são o jeito mais flexível e aceitável para estes homens recém obcecados por compras de mostrar suas identidades", define McPheters. 

E a Stadium Goods está claramente na crista desta onda. Em janeiro de 2017, a loja arrecadou 4,6 milhões de dólares dos patrocinadores Forerunner Ventures e Grupo Chernin. No começo deste ano, o conglomerado de marcas de luxo LVMH (dono da Louis Vuitton, Dior e Givenchy), adquiriu um percentual da empresa por um valor não revelado. No dia 2 de maio, a Stadium Goods anunciou um acordo de distribuição com o e-commerce de luxo Farfetch, oferecendo tênis selecionados exclusivamente para os consumidores da loja online. (A Stadium Goods continuará vendendo seus produtos pelo eBay, Amazon e outros serviços.)"Com sua plataforma de tecnologia avançada, que é altamente conceituada no mercado de luxo, acredito que a Farfetch será um ótima parceira para nos ajudar com o alcance global", declarou McPheters em um comunicado. 

Antes de abrir a Stadium Goods, ele trabalhou no marketing da Flight Club, que vende tênis consignados, e mais tarde gerenciou as redes sociais da Nike enquanto era empregado da agência Team Epiphany. Jed Stiller, seu sócio na Stadium Goods, é um investidor em várias baladas em Nova York. Antes da loja de calçados, os dois abriram um aplicativo de vendas, o Swarm Mobile, que foi vendido ao Groupon em 2014. 

A demanda por tênis colecionáveis está particularmente em alta na China, como explica McPheters, adicionando que ele percebeu o potencial de seu empreendimento quando um cliente chinês gastou 10 mil dólares de uma só vez na loja. "Muitas vezes, o sapatos que eles querem nunca chegou a vender no país deles", conta. Ele e Stiller decidiram apostar nesta demanda em 2016, lançando uma página online na plataforma do TMall Alibaba, quando a loja tinha apenas um ano. Desde então, as vendas decolaram. Durante a última promoção Single's Day (uma liquidação de 24 horas que rivaliza com a Black Friday nos Estados Unidos), a Stadium Goods fez 3 milhões de dólares em vendas. Em linhas gerais, a empresa movimentou 100 milhões de dólares pelo mundo todo, apenas com vendas. 

Enquanto as vendas online representam uma boa parte da atuação da Stadium Goods, a empresa também explora e constrói a interação presencial, incluindo um corner recém aberto na multimarcas Nordstrom, em Manhattan.  Os sócios acreditam que o futuro das vendas de calçados será um híbrido do mercado tradicional e da venda de usados. "Somos um microcosmo do que está em alta", aponta Stiller, destacando que, se tratando de tênis, a moda nem sempre é a novidade. "Enquanto muitas lojas dependem do que as marcas estão lançando no momento, 95% dos nossos produtos são peças que não estão mais no mercado." 

É claro que a Stadium Goods não é a única loja que está no jogo.

John McPheters, esquerda, e Jed Stiller, fundadores da Stadium Goods, em sua loja no Soho

John McPheters, esquerda, e Jed Stiller, fundadores da Stadium Goods, em sua loja no Soho Foto: Mark Wickens / The New York Times

A GOAT (sigla para Greatest of All Time, o melhor de todos os tempos, em português), teve o investimento de 97,6 milhões de dólares de pessoas como Alexis Ohanian, Ashton Kutcher e Guy Oseary e de empresas como Accel Partners e Upfront Ventures. A empresa californiana começou em 2015 como uma empresa no estilo "mande-para-ver" - depois que a venda é feita, o vendedor manda o produto para os centros de distribuição da GOAT para verificação, depois o produto é direcionado para o comprador. Com tênis custando de 300 dólares para cima, "a última coisa que você deseja estar gastando seu dinheiro é com falsificações", explica Eddy Lu, co-fundador da GOAT. "Queríamos montar um negócio para resolver este crescente problema." Em fevereiro, a GOAT se fundiu com a Flight Club e a nova empresa está avaliada em 250 milhões de dólares. 

Também existe a StockX, fundada por Josh Luber, um ex-consultor da IBM e fundador do Campless, site de dados de fãs de tênis, e Dan Gilbert, dono do time de basquete Cleveland Cavaliers, que é uma loja de revenda baseada no conceito de que os preços variam com a demanda, como no mercado de ações. Entre os muitos investidores da companhia estão o ator Mark Wahlberg e o rapper Eminem. Com um programa de autenticidade nos moldes da GOAT, a StockX também tem a vantagem da transparência de preços. É pensado para entusiastas de calçados que procuram um Yeezy por um bom preço - por exemplo, comprar o Adidas Yeezy Boost 350 V2 Cream White por 380 dólares (o preço original era 220 dólares) e não 560 dólares - mas também aqueles que vem os tênis como um bom investimento. "Somos a evolução do eBay", explica Luber, acrescentando que a StockX está movimentando 2 milhões de dólares por dia em volume de vendas. 

E, assim como o mercado de ações, os preços mudam em tempo real (GOAT/Flight Club e Stadium Goods oferecem preços fixos). Existe a possibilidade de uma "abertura de capital de tênis", como explica Luber, exemplificando com o lançamento limitado do LeBron James 14 Nike que foi exclusividade da StockX em janeiro. Com 46 pares disponíveis (23 do LeBron 14 e 23 de outro modelo lançado pelo atleta), a venda ficou aberta por três dias, e os pares foram vendidos pela média de 6 mil dólares cada. "Depois disso, permitimos que sete compradores revendessem os tênis sem nem ao mesmo ter tocado neles", conta Luber. "É exatamente como um dia na bolsa de valores." 

"Estas empresas estão movimentando o mercado de revendas, mas ainda sofrem com restrições", explica Matt Powell, analista do setor de esportes do grupo NPD. Um dos problemas é a grandeza do mercado. "É difícil mensurar qual o real tamanho do mercado, porque sempre irão existir as transações entre duas pessoas", analisa Powell. "Não acredito que seja um mercado de 1 bilhão de dólares como estão dizendo por aí. Olhando esses tênis que estão sendo revendidos, mesmo acrescentando um terceiro fator por causa do valor acrescentado, chegou entre 300 e 500 milhões de dólares." Então, comparado com os 38 bilhões de dólares em tênis vendidos em 2017, o mercado de revendas ainda é muito pequeno. 

Outro obstáculo para o crescimento do mercado é o inventário: os maiores revendedores são especializados em edições limitadas. "Se o fabricante ficar mais ganancioso", aumentando a quantidade de produtos,"uma superlotação dos estoques iria travar o mercado", continua Powell. Na verdade, um excesso de Jordans no começo de 2016 acabou afundando as vendas. 

Os revendedores estão cientes de que os tênis só podem os levar até um ponto. "Sim, nosso negócio principal no momento são os calçados, mas somos como um mercado de ações para vários produtos", conta Luber. StockX já vende relógios e roupas de marcas como Supreme e Kith - e possui planos para aumentar a linha de produtos de streetwear com a Fear of God. Para Powell, o mercado de roupas possui o mesmo apelo: o que movimenta as vendas são, mais uma vez, os itens em quantidades limitadas. "Mas a vantagem dos revendedores é que eles possuem uma combinação de produto, conteúdo e conveniência", analisa Joe La Puma, vice presidente sênior da agência Complex, que produz o Sneaker Shopping, um programa no YouTube. 

"A indústria está ficando mais profissional, mas também estou vendo os consumidores ficarem mais decididos sobre o que eles querem", continuou La Puma. "Então, ao invés de comprar tênis, por exemplo, toda semana, eles estão economizando para comprar um que realmente querem." 

E também existe competição vinda de pessoas como Benjamin Kickz, um revendedor autônomo que faz um serviço de concierge para tênis em edição limitada. "Ele é um jovem que entrega pessoalmente Yeezys para mim em Los Angeles", diz La Puma. "Ele é considerado o melhor neste negócio pelas celebridades. Uma vez, ele entregou os Jordan 1 da Off-White para a Halsey e o namorado dela, G-Eazy, quando eles estavam na balada." "Este tipo de prestígio importa neste mundo, e os melhores revendedores o fazem. Os consumidores prestam atenção no que as celebridades estão usando", disse. 

"Especificamente, Kanye West, Travis Scott, A$AP Rocky, Virgil Abloh e Jared Leto influenciam seus próprios círculos", ele contia. "Nem todos os tênis se lançam como super especiais. Existe uma chance de um destes artistas usaram, e aí eles entram na moda."