Por que não é fácil ser pai num mundo de mães

Nevin Martell - O Estado de S.Paulo

Eu não quero ser o que não pertence ou é visto como um intruso no solo sagrado da maternidade

Descobri que ainda há alguma suspeita de homens em ambientes que um dia foram o domínio exclusivo e incontestável das mães

Descobri que ainda há alguma suspeita de homens em ambientes que um dia foram o domínio exclusivo e incontestável das mães Foto: M H Ryle/ Creativer Commons

Embora haja uma mudança sísmica em curso, o mundo da criação de filhos ainda é comandado pelas mães. Assim, depois de me apresentar a uma mãe num ambiente centrado em crianças procuro rápida e 

graciosamente comunicar três coisas.

1) Estou ali com meu filho: "Aquele é o meu filho Zephyr subindo no escorregador."

2) Sou casado. "Minha mulher está no Pilates, por isso estou curtindo um pouco de tempo de qualidade de pai com filho."

3) Minha família é minha maior prioridade. "Indie - é a minha mulher - e eu finalmente tivemos a oportunidade de ter nossa primeira noite de namoro de 2015 na semana passada. Foi ótimo sair, mas sentimos falta da figurinha e para compensar vamos todos ao Museu Nacional de História Natural neste fim de semana."

Vocês podem estar se perguntando por que me imponho esse procedimento tão elaborado. Eu rapidamente passo essas informações para as mães porque não quero que elas pensem que sou um intruso com alguma motivação escusa. Pode parecer exagero, mas mulheres acham poucas coisas mais desconcertantes do que um homem aparentemente descolado numa situação associada a crianças que, ou não tem um pequeno, ou parece estar atrás de paqueras em potencial, ou se ressente do tempo que gasta com o filho.

Descobri que ainda há alguma suspeita de homens em ambientes que um dia foram o domínio exclusivo e incontestável das mães. A bem da justiça, se homens eram flagrados nessas situações no passado, suas intenções eram justamente suspeitas. Compreendo que os pais homens que assumem um papel igual - se não maior - que seus cônjuges na criação de um filho são um fenômeno relativamente novo na história do mundo ocidental. Ainda somos a minoria no campo maior da criação de filhos.

Quando eu era novinho, nos anos 70, era altamente incomum meu pai me levar ao playground sozinho, no fim de semana, e ele raramente conferia, se algum dia conferiu, minhas atividades pós-escolares (para seu crédito, ele me levava regularmente a pescarias, caminhadas pelos bosques e livraria de histórias em quadrinhos). Minha mãe, uma dona de casa em tempo integral, cuidava desses deveres. Meu pai era o único provedor, de modo que não era raro ele passar semanas longe de casa trabalhando. Quando estava em casa, o tempo de que dispunha era geralmente para si próprio.

No curso de poucas décadas, muitos arranjos parentais mudaram - em alguns casos radicalmente. Apesar desses desenvolvimentos na distribuição das estruturas de trabalho e familiares, persistiu uma mentalidade vestigial do antigo paradigma. Para alguns, o fato de que hoje são os pais que buscam seus filhos em creches e escolas, os levam a atividades de todos os tipos e conferem com seus vários cuidadores se tudo está como deveria, é estranho. E assim, aqui estamos nós pais, coestrelando o que um dia foi um show exclusivo das mães.

Nestes ambientes - playgrounds, consultórios de médicos, lojas de artigos infantis, creches - eu não quero ser o que não pertence ou é visto como um intruso no solo sagrado da maternidade. Quero ser visto simplesmente como um dos pais. Tendo encontrado minha justa quota de cuidados nesses ambientes tradicionalmente exclusivos de mães, procuro desarmar imediatamente a tensão.

Em geral, meu tempo é apertado, razão porque introduzo minha trinca de factoides no começo de cada conversa com uma mãe aparentemente ansiosa ou curiosa: tenho um filho, sou casado, minha família é minha maior prioridade.

Por exemplo, quando levo meu filho ao playground, há geralmente mais mães sozinhas do que pais sozinhos com seus filhos. Gosto de conversar com elas enquanto estou empurrando Zephyr no balanço ou o monitorando enquanto ele corre em torno da casa de brinquedo. Acho isso uma boa maneira de pescar dicas sobre a criação de filhos, me regalar com a alegria e hilaridade de ter um pequenino ou me satisfazer com o raro luxo de ter uma conversa com outro adulto que não gire em torno de crianças.

Admito que não gosto de ser visto como um mau sujeito na maioria das situações da vida. Assim, se não consigo quebrar imediatamente o gelo e convencer uma mãe de que não sou um sujeito excêntrico, descobri que passo o restante do tempo no playground deliberadamente as evitando. Sinto como uma falha ser incapaz de me ligar a outro pai ou mãe e lhe assegurar que não mereço o alarme de perigo do estranho disparando em sua cabeça.

Felizmente, há mais tempo para trabalhar em outras situações, por isso não preciso oferecer meu ataque relâmpago de três factoides. Quando comecei a buscar meu filho, então com três meses, na creche, era comum eu chegar e encontrar uma sala cheia de mulheres descuidadamente dando de mamar a seus filhos. Acredito piamente e sou um defensor dessa prática, por isso ela não era desconcertante - em teoria. Na prática, eu me sentia desconfortável como a única pessoa com a camisa abotoada. Era como ir a um restaurante chique de calça jeans e camiseta. Eu simplesmente não me encaixava no ambiente.

Apesar de minha sensação interior de incômodo, eu queria conhecer melhor minhas colegas de creche e saber o que pensavam. Por isso, fiz o melhor que pude para iniciar conversas enquanto mantinha meus olhos respeitosamente focados acima de seus pescoços, por mais acrobacias que os bebês fizessem em seus colos e tentasse atrair minha atenção. 

No início, posso dizer que as mães se sentiam um pouco inseguras por me ter em seu meio. As respostas eram curtas e as sessões de amamentação pareciam ser abreviadas. Eu compreendia perfeitamente sua hesitação, por isso de início mantive minhas interações breves. Saber o nome de cada mãe e cada criança e ficar atento a seus marcos de desenvolvimento foi útil para estabelecer um relacionamento. Foi também o fato de eu estar lá na maioria das noites da semana, uma presença constante na vida de meu filho.

Levou um par de meses, mas finalmente senti que havia escalado o muro invisível entre nós quando descobri que podia me sentar com mães amamentando e conversar sobre questões de criação de filho ou da vida além das de nossos pequenos. Agora eu considero muitas dessas mães minhas queridas amigas. Elas têm sido uma imensa fonte de apoio e conhecimento para mim enquanto amadureço como pai.

Depois de muitas jornadas sozinho com meu filho em ambientes tradicionalmente regidos por mães, fiquei mais relaxado sobre a maneira de me integrar. Espero que meu à vontade torne mais fácil às mães perceberem que sou apenas mais um pai tentando fazer o melhor que pode por seu filho.

Sendo assim, senhoras mães, da próxima vez que virem um pai esperando por seu pequenino ao pé do escorregador, sentado ao seu lado na sala de espera do pediatra ou carregando seus pacotes juntos na creche, faça o esforço extra de deixá-lo saber que é bacana vê-lo ali. Sei que ele apreciará ser considerado bem-vindo no que um dia foi um território exclusivo de vocês.

Tradução de Celso Paciornik