Por que casais gays se entendem melhor que os heteros

Brigid Schulte - O Estado de S.Paulo

Os casais do mesmo sexo foram muito mais propensos a dividir de maneira mais equitativa o trabalho rotineiro demorado de cuidar de filhos - 74% de casais gays ante 38% de casais heteros, diz estudo

Os homens em relacionamentos gays foram mais propensos a dizer que haviam discutido como dividir o trabalho quando começaram a morar juntos

Os homens em relacionamentos gays foram mais propensos a dizer que haviam discutido como dividir o trabalho quando começaram a morar juntos Foto: JJ/ Creative Commons

Quando o assunto é dividir com equidade os afazeres domésticos, casais heterossexuais podem ter muito a aprender com casais gays.

Um novo estudo revela que casais do mesmo sexo tendem a se comunicar melhor, partilhar afazeres domésticos de maneira mais justa e atribuir tarefas com base em preferências pessoais - em vez de gênero, renda, horas trabalhadas e posição de poder na relação.

Os casais heteros, por sua vez, tendem a conversar menos e cair em papéis de gêneros tradicionais, que uma família descreve como "tarefas rosas" e "tarefas azuis".

Nos casais heteros com dupla renda, as mulheres e os que ganham menos dinheiro ou trabalham menos horas tendem a assumir a responsabilidade principal por tarefas estereotipadamente femininas - e mais árduas - como cuidar de filhos, comprar comida, lavar louça, cozinhar e lavar roupa, segundo uma pesquisa com 225 casais gays e heteros com renda dupla que foi divulgada recentemente pela PriceWaterhouseCoopers e o Families and Work Institute (FWI).

O estudo, embora com uma amostragem relativamente pequena, tem achados interessantes.

Os homens, que ganham mais e trabalham mais horas - condições que os pesquisadores dizem que podem significar uma posição de poder - em casais heteros tendem a fazer os trabalhos de pátio e quintal, carro e outros afazeres mais tradicionalmente masculinos que tendem a consumir menos tempo.

Mas em casais do mesmo sexo, renda e horas de trabalho não tiveram o mesmo efeito. E, talvez mais importante, os casais do mesmo sexo foram muito mais propensos a dividir de maneira mais equitativa o trabalho rotineiro demorado de cuidar de filhos - 74% de casais gays ante 38% de casais heteros. E os casais gays foram mais propensos a dividir equitativamente o trabalho imprevisível de cuidar de uma criança doente - 62% contra 32% para casais heteros.

Por que isso é importante? Em casais heteros, as mulheres ainda são consideradas, com frequência, a parte primordial dos pais, responsável não só por organizar, supervisionar e cuidar de filhos, mas também de fazer muitas tarefas domésticas. Dados sobre o uso do tempo diário mostram que as mulheres, mesmo quando têm trabalhos de tempo integral, tendem a gastar aproximadamente o dobro do tempo fazendo trabalhos domésticos ou cuidado de filhos.

"Tem havido muitos apelos para uma maior divisão das responsabilidades no atendimento a filhos, de modo que este não é um problema só da mulher e ela não é a única a lidar com as consequências no trabalho. Mas vemos mais divisão em casais do mesmo sexo", disse Ken Matos, diretor de pesquisa sênior do FWI e autor do estudo. "Assumir responsabilidades principais com o atendimento de filhos interfere no tempo de trabalho. Isso cria tantas interrupções não programadas, por isso é importante que o ônus seja dividido."

O estudo revelou também que os homens em relacionamentos do mesmo sexo ficaram mais satisfeitos com a divisão do trabalho do que as mulheres nas relações heterossexuais. A razão? Casais do mesmo sexo falaram mais do assunto.

Os homens em relacionamentos gays foram mais propensos a dizer que haviam discutido como dividir o trabalho quando começaram a morar juntos. As mulheres em parcerias heterossexuais foram mais inclinadas a dizer que queriam discutir, mas não o fizeram.

"As pessoas que disseram que se calaram tiveram uma satisfação mais baixa com a divisão das responsabilidades domésticas", disse Matos. "De modo que a satisfação pode não ter tanto a ver com o que você faz, mas sim com o sentimento de que pôde dizer o que queria. Você disse o que queria? Ou deixou a coisa evoluir e sentiu que não podia se livrar da situação depois de estabelecida e ficou preso a ela?"

Na pesquisa, 20% das mulheres em casais heteros disseram que não haviam conversado sobre como dividir o trabalho com equidade, mas que gostariam de tê-lo feito. Em casais do mesmo sexo, 15% das mulheres haviam.

"Talvez por não poderem recorrer aos papéis convencionais de gêneros, as pessoas em casais do mesmo sexo estão em melhor posição para ter essas conversas", disse Matos. "Essa é provavelmente a melhor lição a se tirar da pesquisa: o quanto é importante conversar e dizer o que se quer, em vez de ficar em silêncio, não querendo começar uma briga, fazer suposições, e depois deixar as coisas azedarem."

O escritor e palestrante Andrew Solomon disse que ele e seu marido estão conversando constantemente sobre como fazer todas as peças de suas vidas se encaixarem. "Sinto que estamos sempre inventando", disse ele. "Conversamos sobre isso o tempo todo. É um processo em constante evolução."

Solomon é o principal ganha-pão e seu cônjuge assumiu o grosso do atendimento ao filho de seis anos do casal. Em tudo o mais, disse Salomon, eles dividiram as tarefas baseados naquilo em que eram bons. Solomon é organizado, por isso cuida das atividades de escola e acampamento de verão. Seu marido cozinha. Eles dividem a busca na escola e trocam obrigações conforme mudam as demandas de seus cronogramas.

"As pessoas com frequência fazem suposições: somos perguntados, já que sou o que trabalha mais, se eu sou mais o 'pai', e o Johnny é realmente a 'mãe'? Eu acho que nosso vocabulário é pobre para descrever estes papéis", disse Solomon. "Se tem uma coisa que pais do mesmo sexo podem ensinar é que não é que um de nós é realmente a mãe e um é realmente o pai. Esses conceitos são irrelevantes. Nós simplesmente estamos juntos nisso."

Tradução de Celso Paciornik