Por que a moda não morreu - e nem morrerá

Letícia Abraham - O Estado de S.Paulo

"A moda massificada, com as pessoas mais focadas nos produtos e menos interessadas no sentido, demonstra que ela ainda cumpre o papel de retratar o momento que vivemos", escreve a antropóloga e especialista em tendências Letícia Abraham

Foto: Daniel Teixeira/Estadão

Na onda das recentes discussões sobre a moda, seu papel, o que ela tem feito, deixado de fazer e até mesmo a sua morte, gostaria de continuar a reflexão e dividir aqui a minha visão sobre o assunto. Ainda que eu trabalhe em uma das maiores empresas de inteligência criativa e identificação de novos comportamentos, a WGSN, escrevo este artigo sem nenhum viés comercial. Certamente com um viés moral, porque, afinal de contas, acredito no que faço. Escrevo como antropóloga e alguém que se dedica a estudar gente e comportamento de consumo há mais de 10 anos. 

Não acredito na morte da moda. E muito menos que um dia ela irá morrer. O motivo é simples: enxergo a moda - assim como as artes plásticas, a música, a dança, a fotografia, entre tantos outros campos criativos - como um dos lugares de manifestação individual e social mais evidentes que se pode ter. A moda, bem como as outras áreas mencionadas, é apenas um meio, não uma revolução em si. O fato de termos uma moda massificada, com as pessoas mais focadas nos produtos e menos interessadas em seu sentido, não significa que a moda está morta. Pelo contrário, demonstra que ela continua cumprindo o seu papel social de retratar o momento em que vivemos. 

É a moda mostrando a massificação, a superficialidade e a descartabilidade que vivemos hoje. Podemos observar o mesmo padrão em outras esferas sociais, como as próprias relações humanas, que também estão cada vez mais rasas, rápidas e efêmeras. E a tendência nisso tudo? Enquanto houver gente, há tendência. Acredito na tendência como a forma com que as necessidades humanas são respondidas, cada hora de uma maneira diferente, de acordo com os contextos sociais que vivem em constante mudança. E nada mais humano do que o cansaço do que se já tem, o desejo do novo, a vaidade, a cobiça e a conquista. 

E a cada novo mundo - ainda mais pensando no Brasil e nas tantas transformações sociais de grande impacto que passamos nos últimos anos - surgem novas formas de responder aos nossos mais primitivos desejos e necessidades. A tendência é tratada da forma mais ampla de comportamento: novas formas de pensar, viajar, comprar, comer, de se relacionar, locomover....

E cada novo comportamento tende a seguir um fluxo que começa com pessoas inovadoras (estima-se que correspondam entre 2% e 5% da população mundial), que dissemina a ideia para os chamados early adopters (de 5% a 20%), em seguida para os trendsetters (de 20% a 50%), até chegar no mainstream (os outros 50%). E o que fica disso tudo? Uma reflexão urgente para todos nós buscarmos relações, consumos, hábitos, marcas, enfim, uma vida com mais propósito, consciência e menos pressa. E para que a moda possa ser sempre um campo divertido de criatividade, de tradução social e apreciação estética.