Para a moda, o novo álbum de Beyoncé é o anti-Coachella

Vanessa Friedman - O Estado de S.Paulo

Cantora lançou 'Lemonade' no sábado, 23, e chamou a atenção também pelo poder visual de suas músicas

O novo álbum de Beyoncé, "Lemonade", chama a atenção também pelo poder visual de suas músicas

O novo álbum de Beyoncé, "Lemonade", chama a atenção também pelo poder visual de suas músicas Foto: Divulgação

O novo álbum visual de Beyoncé, "Lemonade", lançado no canal HBO no sábado, 23, gerou comentários entusiasmados na internet e foi chamado de muitas coisas, entre elas: uma ode à "solidariedade feminina", um retrato de "empoderamento gótico sulista", "uma odisseia emocional", "uma carta de amor às mulheres negras" e uma série de "afirmações de moda".

Qual dessas é diferente das outras? Se você chutou a última, acertou. Embora a Moda (com M maiúsculo) venha tentando domar Beyoncé desde, bem, sempre, a cantora não é sua criatura, e esse álbum é a prova disso. Ele é o anti-Coachella: o oposto de um evento musical sugado de sentido por marcas e empreendimentos comerciais. De fato, “Lemonade” esmaga tudo isso de forma poderosa.

É verdade que seus 12 vídeos estão repletos de nomes da moda, incluindo Peter Dundas para Roberto Cavalli; Saint Laurent (o vestido e os sapatos em "Denial"); Hood by Air e Yeezy (casaco e blusa em "Don't Hurt Yourself"); Rosie Assoulin; Phelan (usada por Zendaya); e até a brasileira GIG Couture (um macacão de tricô inspirado no legado do designer e arquiteto escocês Charles Rennie Mackintosh, usado em "Sorry").

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Mas, ao mesmo tempo, está cheio de nomes que a maioria das pessoas nunca ouviu: o estilista do Kuwait Yousef a-Jasmi (um body de cristal em "Sorry"); a nova iorquina Zana Bayne; e o libanês Nicolas Jebran. Está cheio de referências históricas e peças vintage. Há vestidos de casamento branco (inclusive o dela próprio), vestidos camisola e bodys de renda com gola alta e ar vitoriano. Também há estampas e tecidos que remetem à África. Todos juntos, criam riqueza e poder visual que vão além de um logo ou look. E conseguem o efeito de colocar o estilo e a estética pessoal acima de um mundo que geralmente é dominado por estilistas e marcas famosas. 

Recentemente, as parcerias entre músicos e estilistas para os guarda-roupas de turnês virou novamente tendência. Neste ano, Adele vai vestir Burberry e Florence Welch vai vestir Gucci, por exemplo. Não seria de estranhar se, para um projeto como "Lemonade", Beyoncé tivesse escolhido trabalhar com um único estilista. (Existe, no mínimo, uma razão financeira por trás disso). Mas se isso tivesse acontecido, tal estilista teria sido para sempre marcado pelo endosso da cantora, e o nome dela estaria para sempre ligado ao do estilista. Um pouco da influência dela seria apagada, assim como um pouco do foco em seu trabalho.

Ao contrário da mais recente edição do festival Coachella, que parece ter gerado mais notícias sobre moda do que música, em "Lemonade" as roupas dão apoio à mensagem, mas elas não são a mensagem. É assim que deveria ser e é assim que sempre foi quando se trata da relação de Beyoncé com a moda. Em suas infinidades, diversidades e imprevisibilidades, as roupas em "Lemonade" enfatizam a ideia contida nas letras e a narrativa do álbum de que todo o poder no mundo pertence a Beyoncé - e somente a ela. Isso inclui o poder de decidir, de declarar seus sentimentos, necessidades e dor, de querer voltar atrás em sua promessa de ir embora ou ficar e - sim, até isso - escolher o que ela quer vestir para expressar isso tudo. (Tudo bem, talvez depois de algumas conversas com seu stylist, Marni Senofonte.)

As roupas servem às mulheres. O que, na verdade, é o que toda a moda deveria fazer. Como resultado, embora o álbum não tenha se inspirado nas passarelas, é possível que tenha um efeito e tanto nelas. Não será uma surpresa se nas próximas temporadas a gente de repente veja muitas blusas com golas vitorianas que se tornam uma afirmação sobre poder e força. Enquanto isso, porém, e sempre bom ser lembrado desse poder. E Beyoncé está aí para nos ajudar a lembrar.