Outras formas de se relacionar

Maria Eduarda Chagas - O Estado de S.Paulo

Adeptos da não monogamia relatam suas histórias

"Se eu sinto amor por mais de um, se posso me dedicar a mais de um, por que me prender a um só?", essa foi uma das perguntas que motivou a estudante Juliany Bernardo de Resende, de 21 anos, a procurar outras formas de relação, para longe da monogamia, já aos 17 anos. 

Hoje, Juliany tem dois namorados, Daniel, de 30 anos, e Pedro, de 27, e é administradora do grupo Poliamor São Paulo, na rede social Facebook, que reúne mais de 2.400 membros. A quem pergunta, ela diz que, sim, os dois são namorados; um é apelidado gentilmente de Mozão, o outro de Mozi e ficaram resolvidos assim.

Juliany se relaciona individualmente com os dois e não tem dias marcados para encontrar cada um. "Quem propuser algo primeiro, ganha o dia e aí combina-se outra coisa com quem chegar depois", explica. 

A estudante Juliany Bernardo de Resende com um dos seus namorados

A estudante Juliany Bernardo de Resende com um dos seus namorados Foto: Arquivo Pessoal

Apesar disso, não há clima de competição: Daniel e Pedro se dão bem "Nós somos muito integrados, vamos beber juntos, partilhamos amigos, temos grupo no whatsapp, eles ficam entre si eventualmente, já exploramos nossa sexualidade juntos", comenta Juliany.

O trio é adepto do poliamor, forma de relacionamento que vem ganhando visibilidade nos últimos anos, ainda mais após a exibição da série Amores Livres, do canal GNT. De acordo com Daniel dos Santos Cardoso, pesquisador da Universidade Lusófona, de Lisboa, em Portugal, o termo poliamor pode ser definido como a possibilidade de ter simultaneamente mais do que uma relação afetiva e/ou sexual e/ou romântica com consentimento informado de todas as pessoas. "A parte do consentimento informado é particularmente importante. Sem consentimento, é traição", explica Cardoso, que está, no momento, em três relacionamentos estáveis - um deles já dura sete anos.

'Não há problema nenhum em pessoas escolherem ser monogâmicas. O problema está na ideia institucionalizada da monogamia, onde esse modelo nos é apresentado como único possível e vem já num pacotinho fechado com mentiras, traições, dissimulações, possessividade e mais um monte de outras coisas danosas que aceitamos sem questionar se aquilo é o melhor pra cada um de nós' - Juliany Resende

Para Cardoso, não existe um modelo único de poliamor. "As relações entre as pessoas funcionam como as pessoas desejarem que elas funcionem", afirma. "Em cada relação, deve existir um espaço de liberdade para que cada pessoa possa exprimir e negociar as suas vontades e necessidades em pé de igualdade com todas as pessoas envolvidas".

Ainda que não haja estatísticas de quantas pessoas praticam o poliamor no Brasil, Antonio Cerdeira Pilão, coordenador do grupo de pesquisa Sexualidades e conjugalidades (não)-monogâmicas da Universidade Federal do Rio de Janeiro, acredita que o aumento da visibilidade do termo, nos últimos anos, contribui para o surgimento de mais adeptos dessa forma de se relacionar. "Abre-se uma possibilidade para que, ao invés de se considerar um erro desejar outra pessoa ou se apaixonar por outra pessoa estando em uma relação, se vivencie isso como uma experiência legítima, que pode ser conversada com o parceiro ou com a parceira".

A três. A igualdade entre os envolvidos na relação é justamente um dos fatores que diferencia o poliamor da bigamia ou da poligamia. Klinger de Souza, de 31 anos, mora com duas mulheres, Paula Gracielly de Athayde, de 31, e Angélica Tedesco, de 24, mas não é um bígamo, já que as duas se relacionam. 

Klinger, Paula e Angélica dormem na mesma cama e planejam formalizar a união estável

Klinger, Paula e Angélica dormem na mesma cama e planejam formalizar a união estável Foto: Arquivo Pessoal

A história começou há nove anos, quando Klinger e Paula se juntaram. Logo no início do relacionamento, Paula contou ter curiosidade de ficar com outras mulheres. Klinger encorajou, mas, em princípio, não queria se envolver, até que, algum tempo depois, começaram a ter relações a três. Em 2009, o envolvimento com uma terceira mulher passou de físico a emocional pela primeira vez. "Antes da Angélica, a gente se relacionou com quatro pessoas. Ela é a primeira que mora com a gente mesmo", conta Klinger. "A gente não conhecia o termo poliamor, fomos levando essas coisas normalmente, sem dar nome".

O trio está junto há dois anos e meio. "Fazemos tudo que um casal de duas pessoas faz, a única diferença é que são três pessoas", diz Klinger. Os três dormem na mesma cama, uma king size, em sua casa no interior de São Paulo, e planejam filhos para o ano que vem. "Paula vai engravidar primeiro, pela idade. Lá para novembro, dezembro, se tudo der certo, a gente já deve estar com o bebê", diz. 

Recentemente, os três criaram uma página no Facebook para dividir a história e têm tido uma boa visibilidade na internet e na mídia. A página já soma mais de 13 mil seguidores. "O objetivo principal foi desmistificar o assunto e diminuir o preconceito", afirma Klinger. Hoje, por pedidos de admiradores, criaram um perfil no Instagram, no YouTube e até aplicativo de celular. Klinger afirma que não há nenhum tipo de retorno financeiro.

Klinger, Paula e Angélica pretendem oficializar a união estável ainda este ano. De acordo com o Instituto Brasileiro de Direito de Família, foram feitos dois registros de União Poliafetiva no Brasil. O primeiro, em 2012, foi realizado em Tupã, interior de São Paulo, entre um homem e duas mulheres. Recentemente, três mulheres oficializaram a união em um cartório no Rio de Janeiro.

'A monogamia compulsória entrega-nos um modelo em que todas as regras já estão definidas e, portanto, não é preciso falar delas. A contribuição que as não monogamias consensuais trazem é a importância fundamental de debater, discutir e negociar a maneira como nos relacionamos uns com os outros, independentemente de sermos monogâmicos, poliamorosos, não interessa' - Daniel Cardoso

Relações livres. Para além do poliamor, o grupo Rede Relações Livres (Rede RLi) defende a autonomia e plena liberdade pessoal nas relações. De acordo com uma das fundadoras, a publicitária Maria Fernanda Geruntho Salaberry, o grupo se propôs a construir uma ideia de relação em que, embora haja vínculo afetivo, não há nenhum tipo de gerência sobre a sexualidade do parceiro. "Não existe um núcleo central a ser mantido, nem satisfação a ser dada para um companheiro", explica. Criada em 2006, em Porto Alegre, a Rede Relações Livres conta atualmente com núcleos em oito Estados do Brasil, inclusive em São Paulo.

A publicitária Maria Fernanda Salaberry é uma das fundadoras da Rede Relações Livres

A publicitária Maria Fernanda Salaberry é uma das fundadoras da Rede Relações Livres Foto: Arquivo Pessoal

Maria Fernanda tem hoje quatro relações: com dois homens e duas mulheres. "São pessoas com quem tenho um convívio, planejamento a longo prazo, em que existe relação sexual e afetiva", diz. Isso não impede que ela fique com outras pessoas quando der vontade. "Não existe uma gerência coletiva das minhas relações".

O fato de um parceiro optar sair com outra pessoa parece não frustrar Maria Fernanda; pelo contrário, ela diz até que melhora a relação. "O incômodo de ver a pessoa saindo com outra é substituído pela felicidade de saber que a pessoa vai estar melhor, vai estar mais empolgada, vai ter coisas novas para contar", afirma, com forte sotaque gaúcho e uma boa dose de convicção.

Mãe de uma menina de 10 anos, fruto de um relacionamento não monogâmico, Maria Fernanda conta que, há alguns anos, antes da RLi, as pessoas tinham mais dificuldade em aceitar a sua não monogamia. "Hoje em dia, tem programa de TV falando sobre isso, tem triângulo na novela", diz. De qualquer forma, acredita ainda haver preconceito, principalmente para as mulheres. 

'O homem é cobrado da monogamia pela parceira. A mulher é cobrada da monogamia pelo parceiro, pela igreja, pelo Estado, pela família, pelos amigos' - Maria Fernanda Salaberry

Foi após conhecer pessoas da RLi, em 2013, que a psicóloga A., de 28 anos, abriu seu relacionamento com L., com quem morava há cinco anos. Hoje, ela namora L. e D. O primeiro companheiro também se apaixonou por outra e, desde o ano passado, os dois não moram mais juntos. A relação foi de casamento a namoro. "Depois de sete anos, não é mais aquele fervor, mas é uma ternura, tem um carinho, uma cumplicidade que esses sete anos de relação construíram", conta A, que diz ser amiga da outra namorada do namorado. 

Apesar de muita gente estranhar essa transição no relacionamento, A. diz que o novo arranjo trouxe um certo bem-estar. "Depois de tantos anos passando 24 horas por dia com a pessoa, resolvendo problemas do dia a dia, há um desgaste. É uma solução mágica. Continuar com uma pessoa que você gosta muito, mas em uma outra rotina é maravilhoso".