Os homens deveriam falar das próprias emoções

Judi Light Hopson, Emma H. Hopson, Ted Hagen - O Estado de S.Paulo

A crença de que meninos devem controlar seus sentimentos pode fazer com que eles não consigam experimentar emoções adequadas

Você costuma dizer a seu filho de 7 anos para não chorar quando ele se machuca? Ou ignora as emoções do seu filho adolescente que sofre horrivelmente por causa do fim do namoro? Talvez alguns se sintam tentados a recomendar a todo indivíduo de sexo masculino, jovem ou velho, que as reações emocionais não são aceitáveis.

Em todas as idades, os homens ouvem dizer que precisam ser fortes e controlar a dor. O reflexo negativo dessa insistência em que homens e meninos devem guardar suas verdadeiras emoções é que, quando precisam fazê-lo, eles não conseguem experimentar as emoções adequadas. 

“Acho que às vezes sinto uma raiva muito intensa, tenho vontade de berrar como uma criancinha”, afirma um homem de 50 anos que chamaremos de Brandon. “Quando eu era criança, meu pai me dava sermões sobre a necessidade de ser durão toda vez que me machucava. Tive de guardar meus sentimentos numa caixinha, e, agora, sempre que devo sentir alguma coisa, fico doente e descontrolado”.

A raiva masculina, que muitas vezes os homens expressam, reflete provavelmente o ápice de emoções guardadas que foram se intensificando

A raiva masculina, que muitas vezes os homens expressam, reflete provavelmente o ápice de emoções guardadas que foram se intensificando Foto: Pixabay

“A questão é que os homens podem ter sentimentos e mesmo assim serem homens” afirma um psicólogo que chamaremos de William. “Enquanto sociedade, nós tememos que os nossos filhos também possam sentir muita dor, muito medo. Então, quando eles precisam proteger a família ou ir para a batalha, simplesmente congelam”.

William diz que nada pode estar mais distante da verdade do que isto. “Eu sei que é necessário ter uma ampla gama de emoções para sermos mentalmente sadios”, insiste. “Quando aprendemos a sentir dor e a reagir de maneira adequada, as emoções nos ajudam a viver com maior clareza e calma”.

William acredita ter razão a este respeito porque, durante anos, aconselhou homens de todos os tipos, inclusive veteranos de guerra. “Esconder as emoções não significa que elas desaparecerão”, diz William. “Todo homem com quem já trabalhei pode voltar a sentir uma dor experimentada 60 anos atrás. Todos nós lembramos do irmão que nos empurrou ou de um colega de escola que atirou uma pedra”.

Um pastor da Igreja, que chamaremos de Mike, afirma que sempre permitiu que seus três filhos discutissem sobre seus sentimentos, sentissem raiva dos irmãos, chorassem quando se machucavam, contassem como se sentiam mal por algum incidente com um professor ou um colega de classe. Mike diz que seus filhos hoje são homens física e emocionalmente fortes, preocupados com os outros, e bem-sucedidos em suas carreiras.

“Todos eles mostram atitudes corajosas quando outras pessoas sofrem bullying, todos prestaram serviço militar”, contou. “Quando eram crianças, eu beijava os joelhos machucados e sofria com eles quando caíam da bicicleta. Honestamente, posso dizer que eles se identificam muito bem também com os sentimentos de suas esposas”.

Mike contou que recentemente um dos seus filhos assistiu a uma situação de violência doméstica “Meu filho tirou um homem de cima da esposa no meio de uma briga. Mas quando a coisa acabou, ele conversou com o homem e o ajudou a desabafar. E até ajudou esta pessoa a entrar num curso de administração da raiva”.

A raiva e a ira masculinas, que muitas vezes os homens exibem na sociedade, refletem provavelmente o ápice de emoções guardadas que foram se intensificando com o tempo. Se dermos um passo atrás e encorajarmos os homens a chorar, a desabafar, a dividir seus sentimentos, provavelmente acabaremos em parte com esta raiva.

 

Judi Light Hopson é diretora executiva do site de administração do estresse USA Wellness Café. Emma Hopson é escritora e enfermeira educadora. Ted Hagen é psicólogo de família.

 

Tradução de Anna Capovilla