"Os desfiles parecem fadados à extinção", diz Grace Coddington

Matthew Schneier - O Estado de S.Paulo

A lendária editora de moda fala sobre o mercado, a paixão por gatos e o lançamento de um novo perfume em parceria com a Comme de Garçons

Grace Coddington, editora de moda da Vogue americana, posa em seu apartamento em Nova York. 

Grace Coddington, editora de moda da Vogue americana, posa em seu apartamento em Nova York.  Foto: Clement Pascal/The New York Times

Blanket, um persa de pelo longo cinzento, saiu de seu lugar favorito na mesa da sala de jantar quando cheguei, e desapareceu. Sua dona, Grace Coddington, diretora de criação da revista Vogue americana, deu de ombros e se acomodou em uma cadeira para discutir seu novo projeto: o primeiro perfume, exibido sobre a mesa, mais parecido com um moedor de pimenta rosa, o frasco longo com a tampa na forma da cabeça de um gato.

Grace é muito conhecida daqueles que fazem parte do ramo da moda – e, de fato, de muitos fora dele também, graças a uma participação no documentário de 2009, "September Issue", sobre o dia a dia na revista, em que roubou a cena, e ao livro de memórias "Grace", que veio a seguir – como uma das forças motrizes da Vogue. Passou mais de 25 anos na revista e, como editora de moda, foi responsável pelas sessões de fotos mais extravagantes. Tão longa foi sua carreira ali e seu reinado, tão inabalável, que o anúncio, feito em janeiro, de que abdicaria de sua posição integral para se tornar diretora de criação para projetos especiais, papel que a permitiria continuar com as fotos para a Vogue, mas também partir para projetos externos, caiu como uma verdadeira bomba. Não demorou a assinar um contrato com uma nova agência, a Great Bowery, cuja missão é criar e buscar oportunidades inexploradas para as estrelas da moda e da arte que representa.

O perfume, Grace by Grace Coddington, é sua primeira iniciativa nesse aspecto, embora ela tenha começando antes das mudanças assumidas por sua criadora. O aroma principal é o de rosas, que Grace associa à infância ("As rosas são uma tradição de família", explica) e agora pode acompanhá-la na terceira idade. Ela tem 74 anos. O produto está sendo produzido pelo setor de perfumaria do império Comme des Garçons, cujo perfumista principal, Christian Astuguevieille, desenvolveu a essência com a própria Grace e a encorajou a borrifá-la no cabelo. Assim, ela se movimenta em um difusor natural, uma nuvem de cabelo crespo cor de cobre.

A Comme des Garçons Parfums já ficou famosa por criar parcerias com ícones extravagantes, como Pharrell Williams e Daphne Guinness, e instituições inesperadas, a exemplo das Galerias Serpentine e Artek, empresa de design fundada por Alvar Aalto. Segundo o presidente da marca, Adrian Joffe, em e-mail enviado de Tóquio, "Grace foi convidada a participar por ser considerada uma verdadeira visionária".

A embalagem do perfume Grace by Grace Coddington, que será lançado em abril, foi inspirado no amor da editora por gatos 

A embalagem do perfume Grace by Grace Coddington, que será lançado em abril, foi inspirado no amor da editora por gatos  Foto: Divulgação

E o fato dessa visão se concentrar em um gato não é surpresa para ninguém que acompanha sua carreira. "Sou obcecada por gatos a ponto de ser chata", admite, impassível. Os persas foram ilustrados em um dos livros de Grace ("The Catwalk Cats"), apareceram em uma de suas parcerias (a série limitada de bolsas Balenciaga de 2012) e volta e meia estão em suas sessões editoriais.

"Já criei frascos de todos os tipos, mas em forma de gato é a primeira vez", confessa Fabien Baron, cuja empresa, a Baron & Baron, é responsável pelo formato do vidro de perfume de Grace. Não é, entretanto, o primeiro frasco de inspiração felina da história, pois algumas das embalagens da linha de Katy Perry têm esse formato.

"Isso me deixou chateada. O da Katy é sensual e bem glamuroso. Este aqui é... espero que seja refinado", comenta Grace, apesar de os dois vidros serem de linhas bem diferentes. O mercado de perfumes, de fato, é mais comum a celebridades como Katy Perry (que já lançou vários) ou Paris Hilton (que já tem mais de uma dúzia). Grace confessa se sentir tímida com a perspectiva de se vender dessa forma.

"A primeira coisa que me veio à mente foi: 'Mas eu não sou J. Lo, como é que pode dar certo?'. Não sou uma celebridade. Foi por acaso que meu nome se tornou conhecido. Vivo negando, mas é verdade. E já que é assim, então, bom, por que não ganhar com isso?", conta ela a respeito da fragrância, sugerida por uma amiga e ex-colega de trabalho.

A novidade estará disponível em dois tamanhos: o de 50 ml, por US$ 110, e o de 100 ml, por US$ 145. Depois do lançamento, em 19 de abril, será vendido não só na Dover Street Market New York, a loja conceitual multimarcas da Comme des Garçons (e nas filiais de Tóquio, Londres e Pequim a seguir), mas também no GraceCoddington.com, seu novo site – o que é uma façanha para a mulher que orgulhosamente alega não saber como usar um computador.

"Este é o meu computador", brinca, mostrando a assistente, Lauren Bellamy, sentada no sofá ali perto. Grace é uma ludista orgulhosa, a última representante de uma geração que fazia esboços durante os desfiles em vez de apelar para o Instagram e prefere o telefone ao e-mail. (O toque de seu celular é o granar de um pato. "Não tem quem não reclame, mas só assim para eu ouvir", explica.)

O que não significa que seja insensível às mudanças que estão ocorrendo na indústria da moda, mencionando seu ritmo cada vez mais intenso como uma das razões por ter deixado a posição em tempo integral na Vogue. "Há tantos estilistas! Talvez até demais. Com certeza, desfiles em excesso. Não consigo ver para onde a coisa está indo – para os sites, certo? Como não sei lidar com eles, imagino que, em breve, não terei mais revistas para olhar."

E prossegue: "Será que os desfiles continuarão a existir? Não sei. Parece que é uma atividade fadada à extinção." Com ou sem mudanças, seu telefone continua grasnando e os convites não param de chegar, inclusive o do projeto atual de adaptar seu livro de memórias para a telona. Ela quer que se concentre em sua juventude no País de Gales, e não no período posterior, já como profissional de moda. "Não quero fazer ou 'O Diabo Veste Prada', nem 'September Issue' porque além de já terem sido realizados, foram muito bem feitos."

Até o filme chegar aos cinemas, os gatos – Blanket e o companheiro, Pumpkin – continuam sendo os astros do desfile de Grace, embora não pareçam muito chegados em perfume. "É bem provável que prefiram correr um quilômetro a ter que cheirá-lo", brinca. Porém, ao fim da entrevista, que durou uma hora, Blanket já meio que ameaçava voltar para a mesa. E até chegou perto do frasco – mas o barulho da máquina fotográfica o assustou e ele se recusou terminantemente a ser clicado ao seu lado.