O uniforme da Nigéria é realmente o mais bonito da Copa? Especialistas comentam

Vanessa Friedman e Rory Smith - The New York Times

A fashionista Vanessa Friedeman e o repórter esportivo Rory Smith elegem quais são suas camisas favoritas

O uniforme da Nigéria esgotou em diversas lojas no dia de seu lançamento

O uniforme da Nigéria esgotou em diversas lojas no dia de seu lançamento Foto: Imagem cedida pela Nike (Shaun Brooks/Action Plus via Getty Images

 

Oi Roy, é a Vanessa

Enquanto estávamos mergulhados no que eu acredito que seja a fashion week dos esportes - o lançamento dos uniformes da Copa do Mundo - fiquei pensando em algumas coisas, e queria sua opinião. 

Primeiro, esta coisa retrô estilo anos 1990 que está rolando em muitos dos times. O que isso significa? Esta década faz parte de um capítulo importante do imaginário futebolístico que eu desconheço?

E, outra coisa: o hype em torno do uniforme da Nigéria, que esgotou mais rápido do que Arjen Robben correndo. Eu admito: eu gosto muito da camisa. Os ziguezagues dão uma sensação de velocidade e ainda assim parecem muito bacanas (uma coisa difícil de se fazer com roupas esportivas sem parecer que você está tentando demais), e eles contrastam bem com a estampa preta das mangas. Mas eles também tem essa vibe 1990 rolando, de acordo com a Nike, que descreveu as peças como "sutil homenagem a camisa da seleção nigeriana de 1994, que também tinha torso verde e as mangas em preto e branco. 

Eles mataram dois coelhos com uma cajadada só: foram o primeiro time da Nigéria a classificar para a Copa do Mundo e lançaram tendência ao mesmo tempo. Eu não vou nem falar do conjunto de moletom. Aquelas flores verdes no tecido preto! Muito Gucci. 

Mas ainda assim: o melhor uniforme? Você concorda? E quais mais estão na sua lista do melhor e pior de 2018?

Aguardo resposta. 

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Oi Vanessa, 

Eu tenho uma confissão a fazer. Este não é o tipo de coisa que eu estou confortável em admitir em público, mas aqui me parece um espaço seguro, então vamos lá: não sei se gosto do uniforme da Nigéria. Sei que ele esgotou em minutos e as pessoas estão fazendo filas de dar voltas no quarteirão para comprar as peças, e tenho certeza que ele ficou lindo naquelas fotos do Instagram, mas me parece um pouco arbitrário: ele traz o frescor de uma novidade, mas é maluco demais. 

Eu também me preocupo com o que pode ser considerado o teste final para qualquer camisa de futebol (eu tomo bronca dos meus editores todas as vezes em que uso esse exemplo): elas podem ficar ótimas no corpo bem torneado de atletas profissionais, mas será que ficará bom no Steve da contabilidade, enquanto ele joga bola com os amigos na quinta a noite? Óbvio que Steve perdeu alguns quilos no ano passado, ele está fazendo aulas de spinning e está falando por aí que não consome mais açúcar refinado, mas ele está pronto para isso? 

(Agora vou ser bem pedante, mas é um pouco de má fé: o icônico uniforme de 1994 da Nigéria tinha uma estampa bem diferente, que, supostamente, relembrava designs nigerianos tradicionais. Esse, pelo que me parece, é um update das roupas usadas no final do ano, depois do torneio.) 

Mas talvez eu esteja sendo muito cínico. Este ano me parece que os uniformes estão bem interessantes. Os da Adidas têm aquele toque retrô: as listras da Argentina foram inspiradas em um modelo de 1993, a primeira camisa da Colômbia é bem anos 1990, assim como o da Alemanha e o da Espanha, que são versões mais modernas das camisas de 1994 (que só estão completas com escândalos políticos). 

Me intriga qual seja o motivo disso. É um exemplo do que a jornalista Hadley Freeman chama de "a regra dos 30" - se referindo ao tempo que leva para as crianças crescerem, chegarem a posições de poder e decidir que as coisas que elas gostavam quando crianças são as melhores de todos os tempos? Ou então, é algo inerente ao futebol: o começo dos anos 1990 parece uma era completamente diferente agora, antes da real globalização e monetização do esporte, quando ele parecia mais inocente e menos corporativo. Nós, como fãs, sentimos um saudosismo desta época? Ou é uma tendência de moda que está se espalhando? 

E, falando de nostalgia, não tenho dúvidas do meu uniforme favorito: não é espetacular, também não é o mais original, mas é clássico e um dos únicos - fora o da Islândia - que remete a história do campeonato, e é de arrepiar todos os fanáticos por futebol que são mais velhos do que eu. Peru. Aquela faixa vermelha cor de sangue ganha de todos. Ou será que é meu sentimentalismo me enganando? 

Rory

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Oi Rory.

Vamos lá. Você realmente acredita que algum tecido de última tecnologia, feito para ser aerodinâmico no campo ficará bem em um pai que joga futebol aos finais de semana e tem uma camada extra de gordura no tronco? 

Além disso, quando se trata de disfarçar, estampas são boas: elas distraem os olhares de saliências e dobraduras. Sei que listras verticais (como as da camisa da Argentina) supostamente emagrecem  (o tom de verde mais escuro nas laterais do uniforme mexicano tem um efeito similar), enquanto listras horizontais criam o efeito oposto, mas acredito que o ziguezague nigeriano pode ser positivo, falando de usabilidade. 

E, diferentemente daquela estampa sem graça de losangos da Bélgica, não grita “nerd retrô”. Embora, para ser justa, o uniforme belga parece mais uma homenagem ao time de 1984 da Nigéria. 

O que me traz de volta a questão: por que os anos 1990? Não estou muito certa sobre o argumento dos designers da Adidas - já que a empresa fez quase todos os seus uniformes com referências à década - estarem lembrando de suas infâncias. Quer dizer, a gente nem sabe qual a idade dele. E os atletas não são velhos o bastante para estarem pedindo isso. Então, o que está pegando? 

Na moda, temos visto muitas voltas de tendências do passado nas passarelas (a última temporada foi praticamente toda sobre ombreiras, botões gigantes e tons em neon), o que normalmente é um reflexo de algo maior do que roupas: na política, entretenimento, ou algo assim. A melhor maneira de explicar isso seria usando o termo alemão zeitgeist - mas, como você bem sabe, não podemos usá-lo. 

Ainda sim, gosto da sua ideia de que o estilo está relacionado com a época em que o esporte não era tão corporativo. Em tempos dos gigantes da tecnologia, as memórias de dias mais humanos são muito atrativas. 

E falando em atrativos: sim, a camisa do Peru é boa, mas me lembra demais concursos de beleza. Estou gostando bastante da Islândia - aquelas mangas pixeladas são um detalhe incrível - do Japão, que tem uma vibe de armadura de Samurai, e de Senegal, com seu leão em verde escuro. 

E o que eu acho que não funcionou: Croácia. Os jogadores de futebol realmente querem se parecer tabuleiros de xadrez? Mesmo que seja o brasão deles? 

Jogo de volta para você. 

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Olá Vanessa, 

Achei interessante que você mencionou Senegal: ninguém ama uma camisa de time com motivo animal mais do que eu - acredito que a mais bonita de todos os tempos, sem dúvidas, seja a do time mexicano Pumas - mas sinto que eles se esforçaram um pouco demais. Para o último campeonato africano das nações, a camisa deles era mais despretensiosa e, assim, pertencia a um nível mais alto. 

Sei que talvez esteja forçando um pouco, já que o seu gosto é bem mais refinado do que o meu, mas o que mais tem apelo comigo é a individualidade. As grandes empresas esportivas têm a tendência de fazer coisas extremamente parecidas (principalmente se tratando de camisas): todas possuem a mesma fórmula em azul, vermelho ou branco, depende do time. E isso se expandiu de certa forma para a Copa do Mundo - a Puma, por exemplo, fez modelos muito semelhantes: as camisas reservas do Uruguai e da Suíça vem rapidamente à minha cabeça. Pelo menos a da Sérvia tem uma bandeira que deixa as coisas mais interessantes. 

São muito mais charmosas as que incorporam - sim, de maneira óbvia - um pouco da cultura ou do emblema nacional. Os pontos de Samurai do Japão são exemplo. O mesmo para a Croácia. Eu diria que não é para o gosto de todo mundo, mas os croatas se identificam e ela é totalmente única (pelo menos pelo que eu saiba). 

E traz memórias também: Em 1998, na primeira Copa da Croácia como país independente, o time chegou a semifinal contrariando todas as expectativas. Muitos dos fãs adultos lembram deste torneio e do time; eles estão incrustados na consciência esportiva (suspeito que se você perguntar a qualquer torcedor com mais de 28 anos o que eles mais associam ao país, existe uma boa chance deles falarem Davor Suker). Não é propositalmente uma homenagem ao passado, já que todos os uniformes são assim, mas dão este efeito. 

E isso é o legal da Copa do Mundo: a cada quatro anos, ela vem nos lembrar dos jogos que assistimos quando crianças, quando tudo parecia bem mais exótico e glamuroso. É por isso, mesmo nessa época em que todo o dinheiro está com os times europeus, ela ainda gera tanta comoção. E certos uniformes expressam isso perfeitamente - eles são um link visual para o passado. O uniforme da Croácia talvez não esteja no nível amarelo canário brasileiro (ou o laranja holandês e o azul italiano, que infelizmente não serão vistos nesta Copa), mas é a mesma ideia. E isso não é a meta de qualquer designer? Fazer pessoas usarem roupas e causar sentimentos em quem as vê?

Atenciosamente, 

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OK, Rory

Aceito seus argumentos e retiro o que disse sobre o uniforme croata, embora acredite que precise de mais conhecimento para apreciar verdadeiramente, mais do que o torcedor médio, ou um apreciador da Copa do Mundo tem. O egípcio, que é uma versão mais discreta do jogo de tabuleiro, funciona melhor para mim. 

No entanto, não é preciso saber muito para concordar com o design preguiçoso das camisas vermelhas e brancas ou verdes. O que, me ocorreu agora, que são as cores da Itália. Coincidência? Você me diz. Honestamente, todas estas camisas meio que se misturam para mim. Talvez ela se destacam (ou se camuflam) no campo melhor do que as outras, portanto, são boas tanto para a visão da torcida quanto para confundir os oponentes, mas, em termos de design, elas me parecem sem graça. 

Ficar fora do senso comum pode ser arriscado, não importa de que tipo de roupa estamos falando. Estampas são assustadoras! Mas também podem ser bem louvadas - o que me traz de volta à Nigéria. 

É possível que, daqui há décadas, se o time for bem, novas empresas de roupas esportivas podem olhar para este uniforme e decidir fazer uma versão repaginada para, digamos, a Copa do Mundo de 2046, que terá ziguezagues em verde (e, visto que essa já é uma homenagem, será uma experiência interessante). Mas eles só o farão porque esta camisa tem os dois fatores que fazem sucesso na memória do vestuário: identidade e realização. 

O que você acha dessa possibilidade? 

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Oi Vanessa. 

Acho a probabilidade alta, a Nigéria indo bem ou não. Eles não passaram da primeira fase em 1994 e mesmo assim foram bem sucedidos o bastante para serem celebrados duas décadas mais tarde. O que prova, talvez, que o time não precisa vencer para se tornar inesquecível: a torcida lembra com muito mais carinho da seleção holandesa de 1974 do que da Alemanha Ocidental, que os derrotou na final. A safra de 1982 do Brasil, que foi mal vistos os altos padrões do País, até hoje é exaltada. Grande parte do planeta se apaixonou pelos colombianos na última Copa, embora eles tenham sido eliminados nas quartas de final.

Isso é o que este evento faz comigo: eu viro um nerd. A Nigéria ilustra que existem muitas maneiras de se tornar memoráveis. Fazem muitos gols: funciona. Assim como ter um jogador astro, um técnico excêntrico, uma torcida apaixonada, ser vítima de uma grande injustiça ou perder por último.  

Mas acho que ter um uniforme lindo também: como você bem disse, a maior parte deles são preguiçosos, um mar de cores sólidas que não se destacam. Algo diferente, original, tende chamar atenção e ficar na memória (coletiva e global). Mesmo antes de serem reveladas as camisas desse ano, eu poderia te falar como é a da Nigéria de 1994, a dos Estados Unidos do mesmo ano, da Dinamarca de 1986 ou a da Jamaica em 1998. Elas podem não ter funcionado tão bem, mas marcaram. Além do dinamarquês, nenhum desses times se destacou (falando de futebol), mas elas resistiram ao tempo, pelo menos em parte, pelo que usavam. Acredito que a Nigéria de 2018 irá seguir o mesmo caminho. 

É com você. 

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Oi Rory.

Então, no final das contas, o que faz um bom uniforme de Copa do Mundo, que o faz ser lembrado fora dos campos, não é tão diferente do que do faz uma boa roupa, mesmo levando em conta a quantidade limitada de peças (duas camisas, shorts e meias) e das exigências técnicas. O mesmo para o que o torna chato. 

Afinal, uma das causas da homogeneização - além de, claro, muitos países terem as mesmas cores nas bandeiras - pode ser o fato de que essencialmente duas marcas os produzem: Adidas, com 12 (Irã, Marrocos, Egito, México, Suécia, Rússia, Japão, Colômbia, Alemanha, Espanha, Argentina e Bélgica), e Nike com 10 (Brasil, Polônia, Arábia Saudita, Austrália, Coréia do Sul, Inglaterra, Portugal, Croácia, França e Nigéria). A Puma fez quatro (Sérvia, Suíça, Senegal e Uruguai), New Balance dois (Panamá e Costa Rica) e Errea (Islândia), Unisport (Tunísia), Hummel (Dinamarca) e Umbro (Peru) ficaram com as que sobraram. 

Como qualquer designer, ou pessoas que acompanham o trabalho deles, poderia te dizer: é difícil ser criativo de verdade tantas vez em uma única ocasião. Então talvez possamos nos considerar sortudos que, pelo menos se tratando de uniformes, nesta Copa do Mundo está ótima. 

Te vejo nas arquibancadas, 

Vanessa.