O preço do heroísmo de Caitlyn Jenner

Rhonda Garelick - O Estado de S.Paulo

Faz meses que sabemos que Bruce Jenner estava se transformando em mulher, e devemos comemorar se isso trouxer felicidade a ela. Mas será que estávamos preparados para esta mulher?

"The Birth of Venus" por Sandro Botticelli

"The Birth of Venus" por Sandro Botticelli Foto: Fine Art Images/Heritage Images/ NYT

Uma nova deusa emergiu como a Vênus de Botticelli erguendo-se do mar. Caitlyn Jenner olha para as lentes de Annie Leibovitz na capa da Vanity Fair de julho, nua a não ser pelo maiô de cetim. Os cabelos castanhos dela pendem sobre ombros brancos como o alabastro. Será que ela pode mesmo ser o avatar da liberdade pessoal e expressão de si como a mídia a apresenta?

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A transição de Caitlyn Jenner é mais do que um assunto particular. Trata-se de um espetáculo comercial em escala imensa, revelando algumas verdades perturbadoras a respeito daquilo que valorizamos e admiramos nas mulheres.

Dentro da revista, Caitlyn posa em vestidos justos, usando um corselet preto e dois vestidos de gala dourados - tipo de roupa preferido pela voluptuosa enteada dela, Kim Kardashian. Ela jaz num sofá, olha para o espelho ou inclina a cabeça para trás, de olhos fechados. Conformando-se à iconografia clássica do estrelato feminino, Caitlyn aparece lânguida e glamurosa, com o corpo imóvel, em exibição, sem desempenhar nenhuma atividade.

Caitlyn tem 65 anos, mas apresenta os "códigos" de uma idade muitas décadas abaixo dessa. Seus traços são delicados e parecidos com os de uma boneca, os lábios são carnudos, a pele não tem rugas. Até o primeiro nome escolhido por ela parece coisa de garota, lembrando mais uma universitária, ou até uma sexta irmã Kardashian, do que uma avó.

Faz meses que sabemos que Bruce Jenner estava se transformando em mulher, e devemos comemorar se isso trouxer felicidade a ela. Mas será que estávamos preparados para esta mulher?

Caitlyn Jenner nas lentes de Annie Leibovitz na capa da Vanity Fair de julho

Caitlyn Jenner nas lentes de Annie Leibovitz na capa da Vanity Fair de julho Foto: Annie Leibovitz’s/ VANNITY FAIR

Qual o significado do fato de o "verdadeiro eu" (nas palavras dela) recém revelado por Caitlyn ser parecido com uma estrela na casa dos 30 anos, semelhante às suas famosas filhas e enteadas? Ela é até comparada a uma "jovem e elegante estrela" no perfil publicado na Vanity Fair. Como os filhos, Caitlyn logo permitirá que sua vida seja retratada em detalhes num programa de reality TV, produzido pela mesma equipe responsável por Keeping Up With the Kardashians - o docudrama dedicado a maquiagem, encontros, separações e, claro, cirurgias plásticas e roupas.

Há muito tempo, Caitlyn era Bruce, um herói, admirado pelas impressionantes habilidades atléticas. Mesmo no programa das Kardashian, Bruce costumava se destacar como voz da razão em meio a um circo de vaidade e consumismo. Mas, como a Caitlyn vista na Vanity Fair, ela se converteu numa commodity consumível - um corpo estranhamente estático, curiosamente jovial e elaboradamente adornado que simplesmente É, mas nada FAZ. Parece menos a libertação do verdadeiro eu e mais um lembrete dos rigorosos requisitos da feminilidade aceitável e desejável.

O fato de Caitlyn ser uma excelente ícone da moda não surpreende. Além de há muito habitar os corredores do status de celebridade hollywoodiana, o físico dela - que continua sendo o corpo magro e forte de um atleta olímpico - de fato se presta (com alguns ajustes) mais ao ideal das modelos femininas do que a maioria dos corpos geneticamente femininos. E, certamente, pouquíssimas mulheres trans seriam capazes de alcançar esse ideal estético, como apontou a atriz e ativista transgênero Laverne Cox numa publicação muito lida no Tumblr.

E quanto aos milhões de mulheres de 65 anos, tanto as que nasceram meninas quanto as trans, que também merecem atenção? Os milhões de mulheres que se tornam invisíveis com a idade e jamais poderiam imitar com sucesso uma Kardashian (coisa que nem gostariam de fazer)? Elas continuam fora dos palcos e longe da consciência, sem que jamais saibamos de suas realizações.

Além disso, as poucas mulheres na faixa etária de Caitlyn que conseguem entrar na arena pública são constantemente repreendidas simplesmente por serem mais velhas - basta ver o debate que indaga se Hillary Clinton seria "velha demais" para a presidência - ou são constrangidas por tentarem parecer mais jovens recorrendo a melhorias cosméticas.

A autora francesa Simone de Beauvoir escreveu que "não se nasce mulher; torna-se mulher". Ela se referia aos incontáveis mimos, códigos de comportamento e atos de autocensura exigidos pela feminilidade, a transformação do eu em mercadoria prestigiada. Ao se tornar uma mulher diante dos nossos olhos, Caitlyn Jenner prova que pouco mudou desde 1949, quando a autora escreveu essas palavras. Para ser admirada pelo olhar do público, para ser vista, uma mulher ainda precisa se adequar a uma lista impressionantemente longa e muitas vezes contraditória de exigências físicas - das quais a mais importante é não envelhecer visivelmente.

Embora a empolgação com o surgimento de Caitlyn possa aumentar a aceitação dos indivíduos transgênero na sociedade, há nesse caso um preço a ser pago: a perpetuação, e até celebração, das escrituras estreitas e desumanas da feminilidade ditadas pelas indústrias da moda e do entretenimento. A verdadeira libertação do amplo espectro do gênero deve pedir de nós mais do que simplesmente substituir uma identidade desconfortável e opressora por outra igualmente limitante.

Rhonda Garelick é professora visitante de literatura comparada na Universidade Princeton, e publicou 'Mademoiselle: Coco Chanel and the Pulse of History'

Tradução de Augusto Calil