O legado de Slimane

Jorge Grimberg - O Estado de S.Paulo

Entenda por que a Harvard Business Review chamou o estilista Hedi Slimane, ex-Saint Laurent, de 'Steve Jobs da Moda'

O estilista Hedi Slimane foi considerado o Steve Jobs da moda pela Harvard Business Review 

O estilista Hedi Slimane foi considerado o Steve Jobs da moda pela Harvard Business Review  Foto: Reprodução/Yves Saint Laurent

"Ele me fez emagrecer só para eu poder comprar seus ternos", disse Karl Lagerfeld sobre Hedi Slimane. O legado do 'recém-aposentado' Slimane é sem dúvida um dos mais relevantes da moda na virada do século.

No início dos anos 2000, Slimane deu vida nova à Dior e criou (ou recriou) o terno slim, que alterou toda a modelagem do vestuário masculino no mundo. Uma década depois, o francês mudou-se para California, passou a investir na carreira de fotógrafo e criou uma nova  estética, em preto e branco, revelando o estilo do jovem californiano, através do seu olhar, sempre flertando com o universo da música e do surf.

Sem a necessidade do desespero frente ao tempo nas redes sociais, Slimane divulgava suas imagens em seu site e livros, aparecendo pouquíssimo. Nunca dava entrevistas e não precisava se preocupar com a urgência e o imediatismo de hoje. Postando só quando tinha algo novo ou quando tinha vontade. 

Em 2012, a convite de Pierre Bergé (parceiro de Yves Saint Laurent por décadas na vida e nos negócios), retornou ao grande circuito da moda para reformular a Saint Laurent. Isso mesmo: reformular. A relação íntima dos dois, reflexo do trabalho de Slimane com Yves Saint Laurent nos anos 90, foi o fator decisivo para que ele aceitasse o cargo, mas desde que tivesse carta branca para tocar a maison como julgasse melhor.

Aí começaram as polêmicas. A grife lendária  francesa teve seu departamento criativo transferido de Paris para Los Angeles, o nome mudou (passou a ser apenas Saint Laurent). Slimane controlava imagens, lojas, desfiles, campanhas. 

No início, a mudança irritou muitos editores, que logo deixaram de ser convidados para seus desfiles. Mas a Saint Laurent de Slimane transformou um mercado em decadência em uma indústria excitante.

 

Hedi pode ser considerado precursor do movimento de vanguarda que acontece em Paris em 2016, em que o fator determinante é a busca por autenticidade e roupas para o dia-a-dia - a preços exorbitantes - que parecem saídas das ruas. Uma das poucas entrevistas que deu, para o jornalista Dirk Standen, foi estranhamente para a desconhecida sessão de moda do portal Yahoo. Até nessa escolha o estilista foi ousado, já que qualquer mídia do mundo sonharia com essa entrevista. 

 

Slimane abriu o coração, conquistando todo o mundo da moda com sua legitimidade simples e linguagem direta. "Minha nova abordagem foi sobre o realismo que estava acontecendo dentro de mim, mas muito distante da linguagem conceitual e imaculada predominante na moda em 2012. Um vestido para transar, sapatos para dançar, um terno de baile, tudo o que faz alguém se sentir bem sobre si mesmo e confiante, sem ir muito profundamente em conceitos ou levar roupas muito a sério".

O Harvard Business Review, esta semana, chamou Slimane de o 'Steve Jobs da Moda' justificando que muito mais do que ser um diretor criativo, o estilista mudou a dinâmica do mercado, gerando bilhões (e não milhões) em receita, depois de anos recluso. Fez isso tornando produtos considerados fast fashion (camisa xadrez, jaqueta jeans e camiseta listrada) em parte de coleções permanentes, com a qualidade elevada ao maior patamar. Também trouxe a nostalgia que sentimos por uma vida mais simples, traduzida em peças de roupa que são tão antigas quanto novas.

Assim como Lagerfeld, posso dizer que Slimane foi o responsável por me fazer usar ternos. Em uma visita a Nova York em 2013, um vendedor insistiu que eu provasse o terno que acabara de chegar da nova Saint Laurent. Meio sem vontade, entrei no provador e experimentei. Ao vestir o blazer, senti a peça me abraçando. Havia seda por dentro, o que dava um sentimento de luxo, conforto e movimento. 

 

Pela primeira vez, consegui me mexer confortavelmente usando um terno. Na hora não comprei e fui para o hotel pensar. Sem dormir, na manhã seguinte, voltei à loja e comprei o terno. Até hoje nunca uma roupa me caiu tão bem.