O Jeans e o volume morto

Michelli Provensi - O Estado de S.Paulo

O umidificador de ar se tornou acessório necessário em São Paulo! Enquanto levo a vida na secura da atmosfera da capital paulista, observo dois movimentos. Número 1: a moda tentando se fazer presente em assuntos e pautas de copa do mundo. Numero 2: depois da temporada de desfiles masculinos recém-apresentada lá fora, a discussão agora gira em torno da ambiguidade fashion.

Vestir-se bem e adequadamente em relação ao clima é preciso - que o diga respirar - tanto faz se você está desfilando por ai ou se está em um bar assistindo Alemanha x Brasil.

E o que o umidificador tem a ver com a ambiguidade atual na moda? Eu cantaria a bola da adaptação. O aquecimento global não se faz esquecer, não temos mais estações do ano definidas e isso atinge o mercado da moda e seu sistema como poucas coisas atualmente.

Adaptar o ar com recursos hídricos para respirar está tão em voga quanto a ideia de que o calendário de desfiles ficou obsoleto em relação ao termo  'estação'. O que se viu nas passarelas masculinas não dá para dizer se foi verão ou inverno.

E se no outro hemisfério a coisa está confusa em termos de clima e guarda-roupa, imagina a dificuldade que é explicar o que se deve trazer na mala para quem vem passar o inverno atual em Ribeirão Preto, como a deleção francesa, que ficou hospedada lá.

E o que vestir quando acabar a Copa e não fizer mais sentido usar todo dia a camisa do time de futebol com seu tecido dry fit? Voltaremos para o que era assunto antes do mundial começar: o baixo índice pluviométrico e o reservatório da Cantareira.

Não se viu muitos volumes nas passarelas, mas se escutou muito nesta crise hídrica histórica em que vivemos sobre o “volume morto”, em inglês “the dead volume”, cairia como um bom nome de banda indie rock, que para a alegria de Hedi Slimane, poderia ter feito a trilha do último desfile Homme de Saint Laurent.

Se o lema para o consumidor internacional é “o desejo manda,” quanto ao que se é desfilado e entra no mercado quase 1 ano depois, por aqui  - nesta estação confusa onde temos verão em julho -  carecemos de nos refugiar em roupas de fibras naturais tal seda e linho para afugentar a secura.

E tragam os camelos em troca dos cavalos para a PM paulistana! Se a umidade cair só meros 2% sentiremos o Lawrence das Arábias que habita em cada um de nós. Peter O’toole, que deu vida ao personagem do clássico de David Lean e morreu ano passado aos 81 anos, passou 9 meses no deserto da Jordânia para rodar o filme.  Exatos 9 meses do mês mais seco do principal manancial paulista nos últimos 84 anos - meados de janeiro - o sistema cantareira pode vir a secar, até onde já se fala de morto.

Em julho muitas revistas fazem seu especial jeans, está aí um material bom para o momento. Se lavar muito o jeans estraga, jeans bom é jeans surrado, nunca sai dos holofotes e sempre se renova. Deixe seus jeans andar sozinho, combine com seda que também não se lava tanto, jaquetas de couro - para quando o inverno se fizer sentir -  e deixe de lado os sintéticos se for entrar no programa de redução de água. Sintético não respira bem. Ele representa o contrário do que precisamos agora.