O ímpeto da meia-idade

David Brooks - O Estado de S.Paulo

O aumento da longevidade vem mudando a própria estrutura da vida

A meia-idade surge como a segunda grande fase de tomar decisões

A meia-idade surge como a segunda grande fase de tomar decisões Foto: Pixabay

As palavras quase se completam: meia-idade ... crise. É o estágio do meio da jornada, quando as pessoas sentem a juventude fugindo, as perspectivas se estreitando e a morte se aproximando. Aí se tocam de que faltou algo. O Corvette vermelho? A estupefação reina. 

Só há um problema com o clichê: não é verdade. 

"De fato, não há quase provas concretas da crise da meia-idade além de pequenos estudos piloto feitos há décadas", diz Barbara Bradley Hagerty em seu novo livro, Life Reimagined (A vida repensada). O grande volume de pesquisas mostra que pode haver uma pausa, ou uma mudança de marcha nos 40 ou 50 anos, mas essa mudança "pode ser libertadora, em vez de terrível".

Barbara Hagerty aborda exemplos de pessoas que fizeram da meia-idade um renascimento. Elas quebraram as rotinas, pois o piloto automático foi desligado. Escolheram metas de felicidade - com o claro sentido de que metas reduzem até o risco de Alzheimer. Com as carreiras esmorecendo, apostaram em relacionamentos futuros.

O quadro que Life Reimagined faz da meia-idade está longe de ser sombrio e paralisante. A meia-idade surge como a segunda grande fase de tomar decisões. Você já está com a identidade formada; sabe quem é; desenvolveu suas capacidades; tem agora a chance de assumir grandes riscos justamente porque seus fundamentos estão sólidos.

O teólogo Karl Barth também descreveu a meia-idade assim. "Com a semeadura feita, é tempo de colher. Você já tomou impulso: é hora de saltar. Concluída a preparação, é a vez da ventura do trabalho pelo trabalho."

A pessoa de meia idade, continua Barth, pode ver a morte ainda distante, mas procura fazer novas e grandes coisas enquanto ainda é tempo. 

O que ele escreveu há décadas é ainda mais verdadeiro hoje. Temos candidatos presidenciais concorrendo pela primeira vez aos 68, 69 e 74 anos. O aumento da longevidade vem mudando a própria estrutura da vida. 

O tempo extra alterou as fases vitais. A mudança mais óbvia é a emergência dos chamados "anos de odisseia". Pessoas entre 20 e 30 anos podem hoje ter um pouco mais de tempo para tentar novas opções de carreira, viver em novas cidades e procurar novos parceiros. 

Contudo, outra mudança profunda e mais oculta é a alteração do perfil da meia-idade. O que era considerado o início da descida é hoje um potencial ponto de virada - o ponto em que você está mais bem equipado para usufruir mais da vida.

É o momento em que pode analisar com um olhar diferente o que foi a vida até agora. Nessa altura, você deve ter acumulado sabedoria, o que, na definição dos psicólogos, significa ver o mundo com mais compaixão, trabalhar simultaneamente com ideias opostas, tolerar ambiguidades e reagir com serenidade ante os pequenos reveses da vida. 

Na meia-idade você já consegue ver, em retrospectiva, os principais motivos que levaram a suas muitas decisões. Começa a entender que seus diferentes compromissos podem ser enfeixados num só significado e propósito. Pode ver os problemas sociais que, graças a seu passado, você é o único equipado para enfrentar. Reuniu luzes suficientes para orientar sua vida rumo a um norte verdadeiro, situado num grande horizonte. 

Lincoln, por exemplo, descobriu na meia-idade que tudo na vida até ali o havia preparado para preservar a União e acabar com a escravidão. A imensa maioria não tem objetivos tão grandiosos, mas muitos conduzem a vida rumo a uma meta, mergulhando fundo nos compromissos antigos ou assumindo novos. 

De qualquer modo, com um pouco de maturidade há menos riscos de a meia-idade ser ofuscada pelo ego, há mais probabilidade de as pessoas saberem o que realmente desejam, de conseguir isso do próprio jeito e, talvez, de preocupar-se menos com o que os outros pensem.

As pessoas deixam de agir como supervisoras e entram em contato direto com aqueles a quem podem ajudar mais diretamente. Aceitam que certos sonhos gloriosos da juventude jamais se realizarão, mas que outros, mais palpáveis, podem ser alcançados. 

Chegam a uma espécie de tranquilidade - não porque tenham decidido nada fazer, mas porque conseguiram focar na pureza de vontade. Já têm suficiente autoconfiança, e impaciência, para dizer não a algumas coisas de modo a poder dizer sim a outras. 

Dessa perspectiva, a meia-idade é inspiradora. Muitas possibilidades da vida estão agora fechadas, mas a limitação é, com frequência, libertadora. As possibilidades restantes podem ser abraçadas com mais decisão - e serem mais profundamente vividas. 

Tradução de Roberto Muniz