O homem italiano retorna à elegância

Guy Trebay - O Estado de S.Paulo

Após anos de vulgaridade sob o governo de Silvio Berlusconi, aos poucos a sociedade famosa por sua estética refinada volta às origens

Carlo Borromeo, um designer industrial, em sua casa em Milão

Carlo Borromeo, um designer industrial, em sua casa em Milão Foto: Alessandro Grassani/The New York Times

Milão – Era a vulgaridade, não a elegância, que governava a Itália quando o primeiro-ministro Silvio Berlusconi liderava o país e simultaneamente promovia seus bacanais "bunga-bunga". Berlusconi foi o inferno dos valores culturais tradicionais italianos; seus longos anos de governo populista desmantelaram as realizações intelectuais idealistas e estéticas que definiam a arquitetura, a arte, o desenho industrial e, não menos importante, a moda italiana durante grande parte do século 20.

Se tudo o que você sabe sobre o país se originou das palhaçadas de seu primeiro-ministro, fica difícil acreditar que La Dolce Vita algum dia existiu. E, afinal de contas, não era essa a premissa do filme de 2013, "A Grande Beleza", inspirado em um lamento felliniano por um mundo já extinto?

O tom desgostoso adotado por Jep Gambardella, o protagonista do filme oscarizado – que circulava em seus ternos de linho pela quase irreconhecível sociedade romana –, tocou o público italiano.

"Tivemos que matar nossos mestres. Tínhamos uma grande herança do passado, e então, em algum ponto do caminho, tivemos que nos livrar dela", disse recentemente em uma entrevista Carlo Borromeo, desenhista industrial milanês, referindo-se ao incomparável legado estético da Itália.

Gianmaurizio Fercioni, um renomado tatuador, no bairro Brera, em Milão

Gianmaurizio Fercioni, um renomado tatuador, no bairro Brera, em Milão Foto: Alessandro Grassani/The New York Times

Porém, o que o jornalista de estilo Angelo Flaccavento recentemente chamou de "lento envenenamento do passado" não é irreversível. Claro, a geração que atingiu a maioridade na época de Berlusconi deve estar presa aos sapatos bicudos e aos jeans gastos. Assim como os americanos nascidos sob a sombra da "casual Friday", que de repente descobriram as maravilhas de um Oxford pespontado, um número crescente de italianos saiu em busca do legado rico e elegante de sua nação.

"Os mais jovens, por exemplo, são superelegantes. Estão descobrindo os antigos códigos, adaptando-os à sua própria maneira", disse Borromeo, que tem trinta e poucos anos.

Para a surpresa de Flaccavento, curador de uma exposição no Museo Marino Marini, em Florença, dedicada ao guarda-roupa pessoal de Nino Cerruti – estilista de moda masculina de 85 anos que simboliza a elegância italiana – a maior resposta veio os jovens.

O trabalho de Gianmaurizio Fercioni destaca, por contraste, o estilo sóbrio inspirado em Coco Chanel e o de gente comum

O trabalho de Gianmaurizio Fercioni destaca, por contraste, o estilo sóbrio inspirado em Coco Chanel e o de gente comum Foto: Alessandro Grassani/The New York Times

"Foi uma reação enorme. Todo mundo se sentiu tocado pela aparência elegante e contemporânea de Cerruti, por sua atualidade e despretensão", disse ele por telefone, de Milão.

Com ênfase em linhas elegantes e cores suaves e nos inúmeros refinamentos possibilitados por uma profunda tradição de alfaiataria, o estilo de Cerruti está a anos-luz de distância do estilo "desenho animado" dos pavões que dominaram a cena nos últimos anos do Pitti Uomo, evento de moda masculina que acontece duas vezes por ano e atrai mais de 1.200 expositores e 30 mil compradores à Florença.

"O Pitti se transformou em um circo. É triste, mas é verdade", disse Flaccavento.

Raffaello Napoleone, diretor da Pitti Imagine, organizadora dos eventos florentinos, disse: "Por muito tempo, as coisas ficaram muito feias" – referindo-se aos anos de Berlusconi. "Aos poucos, isso está se corrigindo."

Cada vez mais um estilo diferente é visto no Pitti e nas capitais europeias da moda: o homem que quer ser o herdeiro de outra variante do gosto italiano. Pense nele como um sujeito de terno adaptado, como os criados por alfaiates napolitanos da década de 1920, cujos clientes que preferiam o estilo inglês os enviavam à Savile Row em missões de espionagem.

Pense nele como aquele cara em uma rua de Milão, cujos sapatos suavemente engraxados evidenciam um nível de manutenção cuidadosa que não visa as redes sociais. Pense nele como um homem como Borromeo, que prefere jaquetas e coletes a casacos e troca a gravata pelo cachecol, e quem tem o que parece ser uma habilidade exclusivamente italiana de usar calças com cores que apenas Gianni Agnelli, herdeiro da Fiat e conhecido playboy, poderia usar.

Guglielmo Miani, diretor executivo da empresa de alfaiataria Larusmiani, no bar Camparino, em Milã

Guglielmo Miani, diretor executivo da empresa de alfaiataria Larusmiani, no bar Camparino, em Milã Foto: Alessandro Grassani/The New York Times

Agnelli é um nome útil nesse contexto, pois sua imagem geralmente vem à mente quando o assunto são os grandes estilistas italianos. No entanto, como seu neto, Lapo Elkann, que notoriamente herdou e ainda usa peças do guarda-roupa do avô, Agnelli foi uma criação da máquina moderna da publicidade, assim como as figurinhas carimbadas do Instagram – como Nick Wooster –, podem vir a ser.

E o estilo pelo qual Agnelli é mais conhecido – botas Tod desamarradas, relógio de pulso usado por cima do punho da camisa, gravata para fora do pulôver – também era muito estudado para ser considerado verdadeiramente elegante, no fim das contas.

Se elegância é recusa, como diz a famosa frase, há muito a ser dito sobre o grupo de homens que inclui o estilista Stefano Pilati, que, desde que entrou na Ermenegildo Zegna, em 2013, mergulhou de cabeça nas tradições da marca e na história dos trajes de sua terra natal a cada temporada; ou aqueles que se vestem casualmente, como Borromeo, o desenhista industrial; ou Gianmaurizio Fercioni, famoso tatuador milanês cujo trabalho destaca, por contraste, o estilo sóbrio inspirado no "Duque de Kent, no Duque de Windsor e em Coco Chanel"; ou gente como Flaccavento, que, segundo ele, aprendeu a se vestir através da observação atenta dos homens da geração do seu avô em uma pequena cidade da Sicília.

"A elegância italiana é definida pela capacidade de misturar pequenos gestos, usar roupas simples, não chamativas, e que mostram respeito por materiais, texturas e cortes", disse Antonio Rummo, herdeiro de uma famosa indústria de massas.