O glamour nostálgico de Cris Barros

Helena Tarozzo - O Estado de S.Paulo

Longe dos holofotes da SPFW, a estilista reforça sua identidade com coleção inspirada no Rio de Janeiro

A estilista Cris Barros no atelier de sua marca no Itaim, em São Paulo

A estilista Cris Barros no atelier de sua marca no Itaim, em São Paulo Foto: Werther Santana/Estadão

Chique sem excessos. Não há melhor expressão que essa para definir a estilista Cris Barros. Dona de um estilo despretensioso e cool, ela conquistou uma legião de seguidoras que compartilham de seu lifestyle e elegância. Seu corte de cabelo tem um ar de parisiense despreocupada e a maquiagem leve - ou a ausência dela - combina perfeitamente com o sorriso cativante e a gentileza de Cris. Simplicidade e esmero andam lado a lado em suas criações, assim como um requinte sui generis que ela leva a tudo que faz.

Contra a corrente, ela prefere fazer desfiles pequenos para convidados e imprensa, ao invés de mega-shows na São Paulo Fashion Week. Para a temporada de Verão 2015, por exemplo, meses depois que outras marcas apresentaram suas coleções na semana de moda, ela fez um petit comitê na Casa Jereissati, em São Paulo, e encantou a todos com as delicadas produções da sua coleção intitulada “Saudade”, inspirada em sua infância no Rio de Janeiro. A seguir, Cris fala ao Estado sobre o novo trabalho.

De onde vem a opção por fazer pocket desfiles e não entrar na São Paulo Fashion Week?

Gosto de ter essa liberdade e fazer as coleções e a campanha no meu timing. Nas últimas, acabamos fazendo catálogos e lookbooks, mas essa queria apresentar de uma forma mais descompromissada e acabamos escolhendo fazer na Casa Jereissati, que é linda. É muito bom não ser presa ao calendário e ir fazendo tudo ao meu tempo.

Você se inspirou no Rio de Janeiro da sua infância e o tema da coleção é “Saudade”. Quais foram suas principais lembranças para criar?

Tudo partiu de uma foto minha, em que eu devia ter uns 4 ou 5 anos, e vestia uma saia longa e um top cropped num dia na praia.  Como minha avó e minha mãe são cariocas, ia muito ao Rio no final de semana e também para passar as férias de verão. Com as minhas idas ao Rio no ano passado por causa da abertura da nossa loja lá, passei a ir com mais frequência e conviver mais com a minha tia, irmã da minha mãe. E, numa dessas idas, ficamos vendo umas fotos antigas de família que me despertaram um sentimento nostálgico. Lembro de ir tomar sorvete depois da praia com a minha avó e passear no calçadão do Leblon, de minha mãe vestindo saias longas, que eu admirava tanto... A gente tende a idealizar um pouco as memórias, mas foram essas coisas que me despertaram a vontade de fazer essa coleção.

Em suas coleções vemos uma sensualidade nada óbvia e nessa não foi diferente.

Sim, nessa trouxe uma sensualidade usando tecidos leves e fazendo decotes estratégicos, que a deixam implícita.  Me veio a lembrança das festas, do calor abafado de verão, a falta de pudor... Lembro da minha mãe usando vestidos sem sutiã e ter um corpo que era mais natural do que o que vemos  hoje.

Fale um pouco sobre as cores e os materiais, você optou por um contraste entre tons suaves e outros mais vivos...

Quis fazer a coleção aconchegante, bem de volta às raízes mesmo. Então tem materiais mais naturais, muito algodão, que foi usado de outras formas, de um jeito mais rústico e também fizemos uma renda guipure de algodão quadriculado. Tem também o linho, a seda, que são a cara do verão. As estampas foram outra coisa que exploramos bastante, com poás grandes e gráficos e listras; na cartela de cores aposto em tons mais esmaecidos, areia, off-white, creme, tons bem frescos e alguns mais vivos como o fúcsia e o turquesa.

A paulista e a carioca são muito diferentes?

Acho que a paulista mudou muito, ela sempre foi mais séria, mas agora está começando a ousar mais e se divertir com a roupa. Acho que vou um pouco de encontro com uma moda e a outra, para que tudo tenha uma mistura e seja aceito também nas outras cidades que vendo fora do eixo Rio-São Paulo.

Acha que nos tempos da sua infância a moda tinha mais glamour?

A década de 70 foi uma época em que as pessoas ousavam sem medo, tanto que é referência para mim e para muita gente até hoje. Depois disso, nos anos 80, acho que a moda foi ficando muito igual. Agora, voltou a ficar diferente com as redes socias, mas ao invés de voltarmos a esse glamour, acho que a moda passou a ter mais individualidade e as pessoas se permitem brincar mais com os estilos.