O fim da Geração Kardashian

Jorge Grimberg - O Estado de S.Paulo

Do desafio com balde de gelo às selfies descontroladas. Será que chegamos ao limite da autopromoção?

Reprodução do Instagram @kimkardashian: paparazzi de si mesmo

Reprodução do Instagram @kimkardashian: paparazzi de si mesmo Foto: Reprodução/Instagram

Normalmente, todo comportamento em excesso gera uma tendência contrária. Por exemplo, se todas as meninas saírem com a barriga de fora, os formadores de opinião logo perdem o interesse e começam a usar blusas mais compridas - no caso até o joelho - como já está acontecendo nos meios underground em Londres e Nova York. Assim sempre caminhou a humanidade. Quando algo cai no gosto popular, os grupos dos ditadores de tendências mudam de direção e, aos poucos, arrastam todos com eles. Mas o que acontece quando o piloto some e a massa se torna a grande formadora de opinião? O que acontece quando cada cidadão tem uma revista online própria (@Instagram) sem limites de publicações diárias? (#OMG!!)

Eu chamo esse fenômeno de Geração Kardashian, graças à musa Kim (@kimkardashian), que é a principal referência deste movimento. Com mais de 17 milhões de seguidores no Instagram, os dias dela de sol e luxo são reportados diariamente em selfies e fotos de puro deleite ao sol (#tanning), que são as minhas favoritas. Dona de proporções descomunais, Kim é o símbolo da nossa era e ocupa o lugar no imaginário que já foi de outras estrelas. Nos anos 50, tivemos Marilyn Monroe, em um mundo pós guerra onde a sensualidade começou a transparecer. Na década seguinte, Jackie O. foi referência quando a família tornou-se o foco central da sociedade. Já nos anos 90, foi a vez de Madonna (@madonna) representar a geração, em um momento em que a expressão pessoal e sexual tornou-se importante. Nesse início de século, Lady Gaga (@ladygaga) atingiu o ápice da fama representando as minorias e libertando os jovens na busca de suas próprias identidades. 

Kim é a representante oficial do que é valorizado hoje. Ela não tem uma ocupação real, além de seu reality show. Ela não canta, dança ou atua. Simplesmente posta as melhores selfies da internet, ama moda, toma muito sol e é muito gostosa. O comportamento dela é copiado por milhões de pessoas do mundo inteiro, que usam as mesmas redes sociais que Kim. Essa geração confunde likes com sentimentos. Quanto mais likes, mais querida a pessoa se sente e, ao invés de buscar conexões reais, passa a viver na busca pela foto perfeita. 

A Geração Kardashian exclui logo de cara os cidadãos que não estão adequados à vida na frente das câmeras. Ao invés de serem perseguidos por paparazzis, os usuários criam um reality show pessoal, registrando cada momento com muito luxo, glamour e filtros. 

Essa semana, com a febre do ‘desafio do balde de gelo’, milhares (se não milhões) de pessoas comuns sentiram-se conectadas ao estrelato. Foram os verdadeiros 15 segundos de fama (e não 15 minutos como previu Andy Warhol, já que o Instagram só publica 15 segundos mesmo) de pessoas comuns. Essa situação possibilitou a conexão de qualquer indivíduo com seus ídolos. Os membros da Geração Kardashian utilizaram o mesmo roteiro que as celebridades norte-americanas, além da mesma rede social para publicar. Nos vídeos, um discurso confiante e agressivo. No desafio do balde do gelo, você pode mostrar o seu corpo. E ao mesmo tempo sua voz. E ainda assim fazer caridade, ser cool e conectar-se com seus amigos. É a fórmula de sucesso perfeita para a exposição que a Geração Kardashian tanto ama. 

Além da febre do balde, agosto é mês de férias na Europa, e a Geração Kardashian fica tão transparente quanto as águas do Mediterrâneo. As pseudo-celebridades viajam o mundo para tirar fotos de si mesmas. Não que eu seja contra ou muito crítico. Eu mesmo tiro e publico. Afinal, eu quero pertencer. Mas, durante as férias, foi essencial desligar o celular e principalmente as redes sociais por alguns dias e me conectar com as pessoas à minha volta e com a natureza. 

Ao me desconectar, surgiu a seguinte reflexão: Será que a privacidade voltará a moda? Será que seremos mais Kate Middleton e menos Kim?

Ano passado, a estilista Phoebe Philo, da marca francesa Céline, deu uma entrevista para Vogue America dizendo: “Meu sonho é dar um Google no meu nome e não aparecer nada”. Para mim, ela é um exemplo de como eu gostaria de ser. Eu ainda não estou lá, mas sigo me questionando para quem e para que eu posto fotos na internet.

Fora do Brasil, vemos sinais de que um movimento inverso ao Kardashian está emergindo. Em Nova York, festas como Mister Sunday, no Brooklyn, proíbem o uso de celulares na pista de dança para que as pessoas dancem de verdade. Na rede de hotéis/clube Soho House, tirar fotos é proibido nos espaços públicos. O clima é uma delícia. Por aqui, esse movimento toma força no mundo dos esportes. Novas categorias como Cross Fit e similares já estabelecem novas conexões em comunidades. Sem celulares, os participantes se unem em desafios e na superação de barreiras.

Eu confesso: amo a Kim. Mas é hora de começar a se despedir da Geração Kardashian.