O fato de você comer algo doce pode levá-lo a um encontro romântico

Marta Zaraska - O Estado de S.Paulo

Não somente nossas emoções influenciam nossa percepção gustativa, como o que experimentamos pode alterar a maneira como sentimos, descobriram os cientistas

Estudos sugerem que experimentar uma bebida doce em vez de água pode nos fazer sentir mais românticos e mais propensos a um encontro

Estudos sugerem que experimentar uma bebida doce em vez de água pode nos fazer sentir mais românticos e mais propensos a um encontro Foto: Martin Cooper/ Creative Commons

Comeu alguma coisa amarga? Você poderá ser um tanto crítico. Está sentindo o amor ao seu redor? Talvez ache até a água mais doce. Não somente nossas emoções influenciam nossa percepção gustativa, como o que experimentamos pode alterar a maneira como sentimos, descobriram os cientistas.

"A língua pode ser a janela da psique", afirma Nancy Dess, professora de psicologia do Occidental College de Los Angeles, que aponta para o número crescente de estudos que relacionam a percepção gustativa com as emoções e até mesmo com os tipos de personalidade.

Alguns dos recentes estudos sugerem que experimentar uma bebida doce em vez de água pode nos fazer sentir mais românticos e mais propensos a um encontro, que as pessoas particularmente sensíveis ao amargo, também podem sentir mais facilmente aversão por alguma coisa, e que tais pessoas ficam mais emocionais - zangadas , tristes ou temerosas - depois de assistir a um vídeo que induz a raiva do que outras pessoas.

Dess lembra de uma cobaia incomum que do seu laboratório. Ao contrário dos seus semelhantes, este ratinho não gostava do sabor doce-amargo da sacarina, o adoçante artificial amplamente usado em laboratório para atrair os ratinhos.

Ela desconfiava de que as preferências gustativas de uma cobaia poderiam ser importantes para a pesquisa, e por isso ela a reproduziu com outro ratinho que também não gostava muito de sacarina em comparação à média. Depois de dezenas de gerações, ela obteve uma linha de ratos que não gostavam do gosto amargo da sacarina a ponto de beber quantidades muito reduzidas da substância, apesar do seu gosto doce intenso. Com os anos e após várias experiências, Dess e seus colegas concluíram que estes ratos eram particularmente "emocionais": eram mais agitados do que os ratinhos comuns quando se assustavam com um ruído forte, e mais ansiosos quando privados de alimento.

Num estudo publicado em 2012 na revistaPLOS One, Dess e a sua equipe mostraram não só que os ratos sensíveis ao gosto amargo se estressavam mais facilmente, como também, quando competiam com outros pelo acesso à comida, permitiam que os outros os empurrassem de lado. Em linguagem científica, eles eram socialmente subordinados. Na linguagem comum, eram "bobalhões'.

Bobalhão sensível ao amargo. E não é apenas nas cobaias que a preferência pelo gosto amargo pode revelar a personalidade. O fato aparentemente se aplica também aos seres humanos. Cerca de 30% das pessoas podem detectar o gosto amargo numa substância um tanto repugnante - seu nome científico é 6-n-propylthiouracil - mesmo em concentrações muito baixas, e em geral estas pessoas acham o gosto amargo nos alimentos mais forte e menos agradável do que outras. Esta sensibilidade em geral é de origem genética, segundo as pesquisas, e está relacionada ao número de estruturas em formato de cogumelos que se encontram sobre a língua, as chamam papilas fungiformes, sobre as quais se localizam as papilas gustativas. Basicamente, quanto mais papilas fungiformes possuímos, mais sensíveis somos ao gosto amargo.

Numa experiência realizada em 2014, psicólogos alemães e americanos mostraram que, assim como os ratos sensíveis ao amargo, pessoas sensíveis ao amargo tendem a ser agitadas, o que significa que elas reagem com mais intensidade do que outras quando expostas a um ruído forte.

No decorrer da evolução, as áreas do cérebro responsáveis por lidar com os gostos amargos podem ter sido cooptadas por emoções mais intensas

No decorrer da evolução, as áreas do cérebro responsáveis por lidar com os gostos amargos podem ter sido cooptadas por emoções mais intensas Foto: Danielle Elder/ Creative Commons

Na natureza, o amargor nos diz que uma comida contém toxinas, e até mesmo animais como ostras rejeitam alimentos de gosto amargo. "O gosto amargo é um sinal de perigo. Por isso, é bastante lógico que as pessoas dotadas de uma sensibilidade maior de origem genética ao gosto amargo também tenham maior sensibilidade a outros sinais de perigo em outras áreas da vida, como a área social", explica um dos autores do estudo, Michael Macht, professor de psicologia da Universidade de Würzburg, na Alemanha.

Segundo Dess, no decorrer da evolução, as áreas do cérebro responsáveis por lidar com os gostos amargos podem ter sido cooptadas por emoções mais intensas.

"O gosto era uma maneira que os organismos primitivos tinham de detectar nutrientes e evitar as toxinas", ela afirma. "Um animal que estava atento aos riscos, os evitaria, enquanto outro animal estaria mais preocupado em explorar as oportunidades. Estas pressões primitivas sobre o gosto foram uma decorrência de mudanças no funcionamento dos sistemas nervosos - inclusive na regulação das emoções".

É por isso que a sensibilidade ao amargor - como ser capaz de detectá-lo em concentrações menores - pode fornecer indicações sobre a personalidade não apenas agitada ou emocional. Um estudo publicado na revista Appetite em janeiro, sugere, por exemplo, que há uma relação entre gostar do amargo e traços antissociais da personalidade.

No estudo, cerca de mil americanos responderam a questionários padrão sobre personalidade e preferência de gosto. As pessoas que gostavam de alimentos com uma nota amarga - como toranja, água tônica, café e rabanetes - admitiam mais provavelmente que gostavam de atormentar pessoas ou a manipular os outros para conseguir o que queriam. "E estes efeitos não são tão reduzidos", diz a psicóloga austríaca, Christina Sagioglou, autora principal do estudo.

Além disso, os gostos podem afetar as reações aos acontecimentos cotidianos, independentemente da nossa personalidade, segundo algumas pesquisas.

Imagine que você ouviu falar de um político que aceita propinas ou de um estudante que rouba livros da biblioteca: Você julgaria estas pessoas com rigor? Segundo um estudo de 2011, depender do que você acabou de degustar: voluntários que acabaram de tomar um gole de um tônico à base de ervas particularmente amargo julgaram variadas transgressões morais de maneira muito mais grave do que as pessoas que beberam exclusivamente água.

"As conclusões sugerem que os julgamentos que envolviam moralidade, como as deliberações de um júri, opiniões sobre questões sociopolíticas, podem refletir potencialmente e ser influenciados por aquilo que os indivíduos comem e bebem", disse uma das autoras do estudo, Natalie Kacinik, professora de psicologia na City University de Nova York, num e-mail.

Em 2014, Sagioglou e uma colega realizaram várias experiências nas quais mostraram que o gosto pelo amargo leva à agressão.

Um exemplo: Depois de saborear suco de toranja ou de água, os estudantes tiveram de avaliar como se sentiriam em determinada circunstância - se alguém chutasse repetidamente sua cadeira no cinema. Os resultados mostraram que os que tomaram o suco amargo reagiriam com maior hostilidade e irritação - imaginando ameaçar o espectador incômodo se não parasse - enquanto os que tomaram água simplesmente ignorariam o comportamento incômodo.

A relação com o amor. E o que acontece no que diz respeito à doçura e ao humor? Uma experiência de 2013 concluiu que pensar no amor pode fazer com que até a água adquira um gosto mais doce. Um estudo de 2015 sugeriu que o contrário também é verdadeiro: Homens que estavam felizes porque seu time de hockey acabara de ganhar um jogo, classificaram um sorvete de limão taiti mais doce e menos ácido do que os que haviam torcido por um time que perdera.

Existe uma boa explicação para entendermos porque sentimentos de felicidade e o doce podem se coadunar.

Nossas emoções e as sensações gustativas se relacionam por meio de hormônios e neurotransmissores como serotonina, noradrenalina e glucocorticóides. Um estudo realizado em ratos no ano passado mostrou que os receptores de glucocorticoides - os hormônios fundamentais do estresse - se localizam nas papilas gustativas que percebem o umami, o quinto gosto, e o doce. Se glucocorticoides inundarem o corpo, eles poderão inibir o funcionamento destas papilas gustativas; daí, o embotamento dos prazeres culinários. 

Por outro lado, um estudo de 2006 concluiu que se for liberada a serotonina (chamada também de "a substância química da felicidade"), nos tornamos mais sensíveis ao gosto doce e podemos detectá-lo em concentrações até mesmo 27% menores do que antes da liberação da serotonina.

Os resultados de alguns destes estudos sobre o gosto podem parecer especulativos, mas Dess acredita que quando forem realizadas outras pesquisas, "poderemos fazer conjeturas mais aleatórias sobre como as pessoas interagirão com seus colaboradores, como elas reagirão a diferentes tipos de intervenções terapêuticas, até que ponto de mostrarão colaborativas ou empáticas" - apenas considerando o universo dos gostos.

No meio tempo, o que já sabemos sugere que devemos continuar comprando chocolates no Dia dos Namorados para que a namorada fique mais doce (e mais romântica) e talvez deixe o café e a toranja porque você não quer ser julgado com rigor excessivo.

Tradução de Anna Capovilla