O drama de envelhecer

Guilherme Mattar - O Estado de S.Paulo

Medo excessivo de perder a jovialidade com o passar do tempo pode virar doença: a gerontofobia

Ficar preocupado com o envelhecimento é natural, e até saudável. Para algumas pessoas, porém, o receio pode se transformar em angústia profunda, impedindo-as de aproveitar cada aniversário. Este pavor, proliferado pelo culto à jovialidade do mundo atual, tem nome: gerontofobia.

Renée Zellweger chamou atenção por aparecer irreconhecível em evento de moda nos EUA, com mudanças no maxilar, nos olhos, na testa e na boca

Renée Zellweger chamou atenção por aparecer irreconhecível em evento de moda nos EUA, com mudanças no maxilar, nos olhos, na testa e na boca Foto: Mario Anzuoni/Reuters

Mas como saber se o incômodo pelo passar dos anos virou, de fato, uma doença? O sinal clássico é o exagero nos cuidados com o corpo. “A pessoa fica o tempo inteiro olhando para o espelho, vendo que tem umas ruguinhas, pensando ‘nossa, já estou com 30 anos e ainda não fiz nada’”, explica a psicóloga Maura de Albanesi, em entrevista ao programa Rota Saudável, da Rádio Estadão. “Ela começa a achar que a vida só é bonita se ela for jovem. Aí, começa a buscar não só plásticas, mas também entra em uma melancolia profunda”, comenta a especialista.

A sociedade, hedonista, colabora para a existência do problema. “Mesmo quem tem 70 anos deve ter 70 anos ‘jovem’. Tudo nos incita a pensar que só estaremos bem-sucedidos se permanecermos juvenis, com o pensamento de ‘antes eu era feliz e hoje não sou mais’”, reforça Maura.

Quando se fala em manter a saúde no passar das décadas, o foco costuma ficar no físico. O mental, contudo, é fundamental para que a fobia não se instale - sobretudo em momentos-chave, como a passagem dos 39 aos 40 anos às mulheres sem filhos. “Nessa época, a sensação de ‘estou velha’ aumenta. É preciso não cair em armadilha. Se ela tem 40 anos e não teve nenhuma criança, deve lembrar que isso foi uma escolha, que não priorizou isso na vida”, diz a psicóloga.

Encare a idade numa boa. Envelhecer com bom humor é essencial. É o que relata o estudo Lower prevalence of psychiatric conditions when negative age stereotypes are resisted (“Menor permanência de transtornos psiquiátricos, quando estereótipos negativos da idade sofrem resistência”, na tradução livre), publicado em julho por pesquisadores da Universidade Yale, nos Estados Unidos. A análise abrangeu mais de 2 mil pessoas e constatou que idosos diminuem a propensão a sofrerem stress pós-traumático em 17%, e a possibilidade de apresentarem algum tipo de ansiedade cai 31%.

A pesquisa separou o grupo em dois: os que veem positivamente o passar do tempo, e os negativistas. Na primeira parte, 2% possuíam males como stress pós-traumático e 4% estavam com ansiedade. Na segunda, os porcentuais saltaram para 19% e 35%, respectivamente.

Pensamentos suicidas também afetam menos os otimistas (5%) do que os pessimistas (30%), conforme a pesquisa.

Na opinião do psiquiatra Daniel de Barros, outro ouvido pelo programa Rota Saudável, quando a cabeça está em paz com o túnel do tempo, o corpo agradece. “Lógico que, com a idade, há problemas. O corpo fica mais cansado, os órgãos já não funcionam tão bem... mas ela traz experiência, traz sabedoria. Se a gente focar nas coisas positivas, como se faz nas culturas orientais, isso melhora nossa qualidade de vida”, acredita.