'Ninguém mais tem estilo para se vestir ou para fotografar'

Helena Tarozzo - O Estado de S.Paulo

Polêmico, expulso pela sexta vez do Instagram e muito crítico, o célebre fotógrafo Luiz Tripolli comemora seus 50 anos de carreira e comenta sobre a falta de personalidade da fotografia brasileira

Retrato de Luiz Tripoli por Drica Lobo

Retrato de Luiz Tripoli por Drica Lobo Foto: Drica Lobo

“Não há celebridades nessas fotografias. São pessoas, isso sim, muito talentosas”, diz Luiz Tripolli, apontando para a parede à frente. Nos encaravam Raul Cortez, Ana Paula Arósio, Federico Fellini, Sabrina Sato, Pelé, entre outras figuras emblemáticas. Todos com olhares profundos, retratados em branco e preto, ao lado de mulheres extremamente sensuais, sem nenhum traço de vulgaridade. “Essas fotos são históricas”, completa ele, contemplativo, enquanto termina mais uma xícara de espresso e acende outro cigarro. Vestido todo de preto, à la Johnny Cash, num conjunto de camisa e colete de alfaiataria, calça e sapatos escuros, ele parece ter vindo de um filme da nouvelle vague. 

Seus óculos marrom escuro, de armação redonda e hastes retangulares, já são praticamente extensão de seu corpo - ele usa o mesmo modelo há anos, mesmo que tenha que colar alguma parte com Super-Bonder. Os cabelos penteados para trás, o jeito enfático de falar, tudo isso faz Tripolli parecer uma caricatura de si mesmo. E ele sabe disso. 

Aos 68 anos, este que se consagrou como um dos fotógrafos mais aclamados do país, parece estar satisfeito. Em 2014 ele completa 50 anos de carreira, planeja uma exposição histórica no MuBE e comemora o sucesso do seu espaço cultural, Café dos Prazeres, inaugurado em setembro, nos Jardins, em São Paulo. É na casa de shows onde estão pendurados esses retratos icônicos, alguns dos quais responsáveis por mudar paradigmas da fotografia brasileira. Ali, ele exibe seus melhores cliques aos frequentadores que vão ouvir jazz, tomar vinhos (escolhidos por ele) e preservar a chama da boêmia paulistana. 

O espaço é um universo à parte. “Tudo na cidade ficou chato e ruim. Os lugares passaram a fechar cada vez mais cedo e quem os frequenta não tem assunto para conversar”, conta o ex-dono do antológico Café Photo, que criou nos anos 1980 aos moldes de um cabaré francês. “Não tinha mais um lugar agradável para ir, ficar até tarde tomando vinho e ouvindo boa música. Então resolvi abrir o meu.” Nas madrugadas, ele encontra amigos das antigas, filhos de amigos, gente que por acaso encontrou o lugar que fica bem escondido, quase vizinho da lendária Tabacaria Ranieri. Ali, ele é o dono do pedaço. 

Tripolli registrou uma época em que o meio editorial andava a pleno vigor e permitia ousadias vanguardistas - muito mais ousadas, vale frisar, do que qualquer efeito no Photoshop. Na moda, ele fez seu nome ao lado de editoras como Costanza Pascolato e Regina Guerreiro, que comandavam com mãos visionárias revistas como Vogue e Elle.“Tinha visto um ensaio dele na Capricho e achei que tinha estilo. Ele usava luzes dramáticas, revolucionárias para a época”, conta Costanza. No primeiro trabalho em que fizeram juntos, ela era produtora de moda da extinta revista Cláudia Moda, ele um jovem fotógrafo de 23 anos, cheio de vontade de experimentar novos efeitos. “Todos ficaram chocados no estúdio. Ele colocava Pink Floyd altíssimo e tomava vinho durante os cliques. E quando revelamos veio a surpresa, tudo estava tão bom!”. 

Antes disso, seus trabalhos em revistas masculinas, como a pioneira Fair Play, a Homem, que viria a ser a Playboy,  já tinham um certo reconhecimento. Clicou beldades globais em poses nada convencionais e cheias de volúpia. Christiane Torloni, Vera Fischer, Déborah Secco encabeçam a lista das mais comentadas e relembradas. “Todos dizem que eu tinha muita sorte de estar entre essas mulheres e achavam que nos bastidores era a maior sacanagem. Mas a grande verdade é que sempre respeitei todas, muito mais do que fazem hoje. As revistas e a televisão vulgarizaram a mulher, a tratam como um pedaço de carne.”

Atualmente sua relação com a fotografia de moda e de nus é estrita. Sem papas na língua, ele reclama da estética plastificada que tomou essa geração. “Ninguém mais tem estilo para se vestir ou para fotografar. A moda tinha uma decência e uma sofisticação inteligente”, diz ele. Avesso e inconformado com a frivolidade do mundo moderno, ele não esconde a nostalgia de tempos em que havia mais personalidade. “Os novos talentos chegam às redações com o portfólio e depois chega o diretor com ‘uma referência’ gringa e manda copiar”, reflete ele, que costumava fotografar prostitutas nas praias cariocas com 16 anos para testar qual era a melhor luz.

Em 2010,  fez um ensaio polêmico chamado “Fuck the Fashion” para a Top Magazine, onde ataca a moda atual com uma linguagem fetichista, como a de Helmut Newton, e usa uma estética que faz com que a modelo, mascarada e sem roupa em quase todas as fotos, remeta à essa moda obcecada por magreza e status. De índole rebelde e transgressora, Tripolli sempre foi aclamado por seu olhar abusado. Espirituoso, ele não nega suas origens mundanas e nem sua predileção pela nostalgia. “Não tenha medo de voltar no tempo para buscar coisas boas”, afirma.

Com um iPhone nas mãos, ele prova que também sabe usar a nova tecnológica. À sua maneira, claro - tanto que foi expulso seis vezes do Instagram (agora para nunca mais voltar), por publicar fotos de conteúdo sensual. Para ele, quem tira “selfie” é uma aberração. Mais para Jean Michel Basquiat do que para Andy Warhol, artistas com os quais pode se esbarrar nos anos em que viveu em Nova York, sua atmosfera gira em torno de quem faz arte pela arte - e não por apenas por 15 minutos de fama. Nos trabalhos de fotografia atuais, por exemplo, se dá ao luxo de aceitar somente pedidos exclusivos nos quais tem carta branca, como a série da Mercedes-Benz que fotografa anualmente desde 2009.

Tripolli chegou ao ponto em que muitos desejam estar um dia. É casado com a sua quinta mulher, tem cinco filhos e fala o que quiser do jeito que bem entender. Fotografou muita gente bacana, com sua luz requintada. Para o futuro, ainda quer escrever um livro e rodar um filme. Toca uma galeria de arte com seu nome, onde expõe as suas fotos e de alguns colegas de profissão. É uma vida rica, que se construiu em cima de imagens reais e fantasiosas. Por meio de câmeras que falam muito mais  do que qualquer palavra.