'Não há necessidade de haver duas semanas de moda no Brasil'

Mariana Belley - O Estado de S.Paulo

À frente da comissão de profissionais que discute os rumos da moda carioca, o estilista fala sobre a necessidade de mudar o formato do Fashion Rio, ainda sem data marcada este ano

Foto: Divulgação

A edição inverno 2015 do Fashion Rio não aconteceu. Isso fez com que marcas como Sacada, Victor Dzenk e TNG migrassem para a São Paulo Fashion Week, o que despertou questionamentos sobre o fim da semana de moda carioca. Boato. O Fashion Rio não vai acabar, garante Oskar Metsavaht, estilista da Osklen e agora coordenador do Fórum Empresarial de Moda da Federação das Indústrias do Rio, a Firjan, um comitê criado para fortalecer a moda local. "O Rio tem potencial para se tornar um dos grandes polos do Brasil e até do mundo. Precisamos encontrar nossa identidade como indústria da moda. Está na hora de repensar o que somos para consolidar nossa posição', afirma Oskar, em entrevista ao Estado.  

Até o momento, ainda há uma indefinição sobre quando e como o Fashion Rio será apresentado novamente. Sabe-se apenas que o evento não será realizado na temporada de verão 2016, marcada para abril. "Ainda não temos uma data confirmada para a próxima edição", diz Oskar. Ele afirma ainda que não vê necessidade de haver duas semanas de moda no País e defende que o Rio de Janeiro foque apenas na moda praia. É o que você confere na entrevista a seguir.

Você é Coordenador do Fórum Empresarial de Moda da Firjan. Como e por que nasceu esse Comitê?

O Comitê foi criado para repensar o futuro e todas as áreas da indústria da moda no Rio. No ano passado, o presidente da Firjan, Eduardo Eugênio Gouvêa Vieira, me convidou para ser o Coordenador do Grupo de Moda da Firjan e reunimos representantes de todos os setores da indústria. Eu apresentei as minhas ideias e visão para o nosso setor e criamos cinco grupos. O primeiro deles discute a identidade e o futuro e foi criado para repensar o evento Fashion Rio e os assuntos relacionados à identidade e à experiência RJ. Esse grupo é composto por mim, Andrea Marques, Lenny Niemeyer, Jacqueline de Biase, Sharon Azulay e Alessa.

Como recebeu o convite da Firjan?

Acho que fui convidado pelo meu trabalho na Osklen, que é uma marca autoral e bem-sucedida comercialmente, e pela experiência que tenho em diferentes mercados, no Brasil todo e em países com culturas diferentes, como Japão, Estados Unidos, Itália e Argentina. Me senti muito prestigiado e aceitei, apesar da agenda extensa de compromissos que tenho hoje. No momento, a Osklen está em fase de construção de seu projeto de expansão internacional e também estou bastante dedicado aos meus projetos paralelos de arte. Mas aceitei participar por acreditar no potencial da moda carioca.

Qual o potencial da moda carioca?

O Rio tem potencial para se tornar um dos grandes polos de moda do Brasil e até do mundo de certa maneira. Precisamos encontrar e fortalecer nossa identidade como indústria da moda. Está na hora de repensar o que somos para consolidar nossa posição. E quando digo moda carioca não estou regionalizando. Vejo o Rio como um centro cultural de um estilo de vida que representa o modo brasileiro como um todo. Sob uma perspectiva de fora do Brasil. Também não acho que exista uma moda paulista, ou mineira ou francesa ou americana, etc. Moda é a expressão de seu criador ou de uma marca independente de onde é seu ateliê. Porém, claro, que acaba existindo uma representatividade. Mas falamos muito mais em relação, pelo o que representa a Firjan, à cadeia da indústria da Moda do Estado do Rio, sua geração de empregos e indústrias de vários portes. Como aproveitar sua expertise e tornar esta cadeia mais eficiente a exemplo de países que conseguiram se organizar e aproveitar ao máximo sua cultura para divulgar e fortalecer suas marcas. Além disso, claro, vejo um Fashion Rio que receba marcas e criadores autorais de todo o país, que aproveitem esta plataforma para expressar seu trabalho.  

Quais mudanças o Fashion Rio sofrerá?

Ainda estamos discutindo o formato do Fashion Rio, que continuará existindo. Ainda não temos data confirmada da próxima edição, mas estamos todos de acordo que a semana de moda deverá valorizar o design autoral e a identidade cultural do Rio.

Você já declarou que o Fashion Rio tem potencial para ser o maior acontecimento de moda criativa do mundo. Como você está trabalhando para alcançar esse status?

Disse que o Rio tem a possibilidade de se tornar o principal polo de Moda Praia do mundo e não ser a segunda semana de moda do país. Essa é a minha opinião há anos. Sendo o Rio uma das C40 (Creative Cities), estando posicionado entre as cidades mais criativas do mundo, com eventos de expressão em áreas como o cinema, artes plásticas e o design, podemos, ao menos, conceituar um projeto mais amplo que envolva todas estas áreas em um único evento. Algo diferente, talvez inédito. Ao menos, isso nos serve como reflexão para buscar um novo caminho, um novo formato. Como disse, tudo esta em fase de discussão.

E quanto às marcas que desfilavam no Rio e se apresentaram na SPFW, como a Victor Dzenk? Elas voltarão para o Rio?

A próxima edição do Fashion Rio ainda não foi definida. E não vejo o porquê de uma marca ou o próprio Victor, como você citou, não voltar a se apresentar no Rio ou mesmo permanecer em São Paulo. Isto só depende da vontade de cada estilista e do Paulo Borges. Não entendo essa competição, ou melhor, rixa, entre as duas cidades. Acho que devem ser duas plataformas diferentes de expressão e, assim, o estilista ou a marca avaliarem qual a melhor opção para a sua estratégia.

Em todo o mundo, há 1 semana de moda forte por país. Para você, quais os benefícios e malefícios de haver duas semanas de moda no Brasil?

Sou completamente contra haver duas semanas de moda no Brasil. Não há necessidade. O Rio não deve disputar com São Paulo a semana de moda. O SPFW já é um sucesso, uma plataforma para a expressão de criadores do Brasil todo. Sempre falei que o Rio deveria deixar de apresentar as coleções principais de Inverno e Verão para apresentar somente Moda Praia. Com isso, o Fashion Rio poderia se tornar a primeira semana de moda do mundo em Moda Praia, que é o nosso maior reconhecimento cultural no mundo inteiro. 

Sua grife, a Osklen, participaria de ambas?

A Osklen já desfilou no ano passado a coleção Osklen Praia no Fashion Rio. Mas segue apresentando normalmente a coleção principal nas semanas de São Paulo e Nova York.