Mulheres e cervejeiras

Maria Eduarda Chagas - O Estado de S.Paulo

Gênero feminino ganha espaço na produção e no consumo de cerveja

“Não sou homem, não sou velha e não tenho barriga”. É assim que Kathia Zanatta, mestre cervejeira e sócia-diretora do Instituto da Cerveja Brasil, começa alguns de seus eventos voltados para consumidores de cerveja. Formada em Engenharia de Alimentos, ela foge do estereótipo da profissão. Aos 32 anos, Kathia acumula no currículo passagens pela Paulaner, na Alemanha, pela Schincariol e foi a primeira brasileira a fazer o curso de sommelier na Doemens Akademie, na Alemanha.

Ainda minoria no mercado cervejeiro, as mulheres têm conquistado espaço aos poucos, seja na área de produção, ou, mais comumente, na de sommèliere. No Instituto da Cerveja Brasil, por exemplo, o número de mulheres que buscam curso profissionalizante cresceu de 18% para 25% nos últimos cinco anos.

Para a carioca Ligia Marcondes, de 32 anos, professora do curso Mestre Cervejeiro do Senai, em Vassouras, as mulheres ainda buscam menos a área de produção por desinteresse ou porque não deixam. Este ano, em sua turma de 30 alunos, há três mulheres. “A quantidade de alunas varia muito, mas é sempre muito menos da metade. Já tive turma com oito alunas e outras com uma”.

Formada em Química, Lígia diz que se encantou pela cerveja após um estágio na Ambev. “A produção é muito interessante. A bebida me agrada também, pelo fato de ser amarga, ter várias nuances, cores diferentes”, afirma.   

Percurso totalmente diferente é o de Beatriz Ruiz, embaixadora e sommelière da Ambev. Beatriz cursou Letras e trabalhou com marketing até resolver fazer um curso de sommelier de cerveja na Associação Brasileira de Sommeliers, em 2012. Hoje, aos 28 anos, coordena uma equipe nacional de sommeliers. “Cerveja junta as pessoas, é uma bebida despretensiosa, significa diversão, alegria. Tem mais a ver comigo”, justifica. Veja o que dizem algumas cervejeiras que têm se destacado na profissão:

Alfredo Ferreira/Divulgação
Ver Galeria 6

6 imagens

‘Cerveja de mulherzinha’. Quantas vezes essa expressão já rondou mesas de bar? A ideia de que cervejas mais leves e adocicadas são mais associadas com o gênero feminino é um mito. Segundo Amanda Reitenbach, doutoranda em Engenharia de Alimentos na Alemanha, não existe diferença no paladar entre os gêneros.

Para a pesquisadora, pode haver, sim, uma tendência de mulheres preferirem cervejas mais leves, porque, desde cedo, homens são mais instigados a provarem comidas mais amargas. “Preferências gustativas são criadas pela exposição”, diz. “Homem, desde cedo, é incentivado a provar cerveja e a comer coisas com aromas mais fortes e mais amargos”.

Estranhamento com o sabor amargo, no entanto, seria vivenciado pela maioria das pessoas a princípio. “Provavelmente, o primeiro gole de cerveja foi estranho para todo mundo, mas aí você vai provando e o sabor entra na memória sensorial”, afirma Amanda. Assim, com o tempo, mulheres também devem ir se acostumando com o sabor.

Beatriz Ruiz, embaixadora e sommelière da Ambev, também trabalha para mudar esse conceito de que existe um tipo de cerveja mais apreciada por mulheres. Fã principalmente de cervejas ácidas, Beatriz acredita que sua preferência por cada tipo de cerveja varia de acordo com o dia e com o seu humor. “Mulher pode gostar de cerveja mais amarga e mais doce. Oriento minha equipe a tentar mudar essa visão de ‘cerveja de mulherzinha’. É um machismo isso”, comenta. Beatriz acredita, no entanto, que, pouco a pouco, essa visão está mudando.

Doce ou amarga, fato é que as mulheres têm recorrido cada vez mais à ‘loira’. De acordo com dados de uma pesquisa da Euromonitor, a parcela de mulheres que afirma consumir cerveja fora de casa com alguma frequência subiu de 54% para 65% entre 2011 e 2013. Além disso, um estudo da Nielsen destacou que 35% dos consumidores de cerveja são mulheres.

Com o intuito de questionar esse estereótipo de que mulher não gosta de cerveja, o movimento We All Love Beer divulgou um vídeo que pergunta por que mulheres não tem voz nos bares. Com mais de 3,4 milhões de visualizações no YouTube, o vídeo mostra casais em bares nos EUA, em que mulheres pedem cerveja e os homens pedem outra bebida. Quando o garçom retorna, confunde os pedidos. Confira:

Outra prova de que as mulheres também podem ser cervejeiras é o surgimento de confrarias femininas dedicadas à bebida. A mineira Confece, criada em 2007, foi a primeira a surgir no Brasil. O grupo conta com dez integrantes, com idades de 28 a 50 anos. “A princípio não nos conhecíamos, hoje temos uma camaradagem boa. Temos um grande prazer de nos encontrar para estudar cerveja”, conta Jaqueline de Oliveira Silva, de 50 anos, sócia da Academia Sommelier de Cerveja, única da confraria a trabalhar com a bebida.

O grupo se reúne mensalmente e já chegou a produzir duas cervejas artesanais: a Aurora e a Conceição. Hoje a produção está interrompida por falta de tempo. Todo mês de março, a confraria, que tem de médicas a advogadas, faz uma festa para interessados em cerveja. O evento, já conhecido do mercado cervejeiro, este ano atraiu mais de 60 rótulos diferentes da bebida.

Confece se reúne mensalmente desde março de 2007 em Belo Horizonte

Confece se reúne mensalmente desde março de 2007 em Belo Horizonte Foto: Arquivo Pessoal

Em São Paulo, a confraria Maltemoiselles existe há quatro anos e é formada por sete mulheres, que têm de 27 a 40 anos. “A gente se reúne uma vez por mês para beber cerveja, fazer cerveja”, diz Aline Araújo, de 27 anos, sommelière de cerveja. Aline e Júlia Reis, sócia da Sinnatrah Cervejaria Escola, são as únicas do grupo que fizeram do hobbie uma profissão.

As Maltemoiselles brincam com receitas da bebida e usam ingredientes que vão da pimenta à erva-mate, mas a produção é só para amigos. “A gente comprou um equipamento de 30 litros e, de vez em quando, cria os próprios rótulos. Os nomes sempre homenageiam alguma mulher”, conta Júlia. A última criação, dedicada à Xuxa, ganhou o nome de Ilariale.