Moda vegana

Mariana Belley - O Estado de S.Paulo

Como o consumo "livre de crueldade animal" influencia marcas que dizem não ao couro e levantam bandeiras que defendem a causa animal

Camiseta da ONG Move Institute

Camiseta da ONG Move Institute Foto: Reprodução/Move Institute

Para falarmos de moda vegan ou vegana, é preciso, antes de tudo, entender o que é veganismo. O veganismo é uma ideologia baseada nos Direitos dos Animais, criado pela UNESCO, motivada por convicções éticas que defendem os animais de qualquer tipo de  exploração e abuso. Diferente dos vegetarianos, cujo seus adeptos não comem carne, mas consomem alimentos com derivados, os veganos, além de não comerem carne, não consomem nada de origem animal. Na moda, o couro, a seda e a lã, por exemplo, são matérias-primas que os veganos não compram. 

É difícil falarmos de moda vegana sem mencionar Stella McCartney. A estilista britânica é exemplo de que moda e sustentabilidade podem andar lado a lado, sim. Apesar de ser vegetariana, a designer não possui em sua loja nada que seja feito de seda ou couro, por exemplo. Stella opta sempre pelo couro fake. Expoente da moda de luxo, queridinha das celebridades, suas criações são sempre presença garantida nos red carpets. Além das linhas de roupas, ela desenvolve linhas de bolsas, calçados e lingeries, que ganham o mesmo acabamento e designer de qualidade. Elegância e minimalismo são suas marcas registradas. Tudo feito sem matéria-prima animal. 

Aqui no Brasil, algumas marcas também seguem essa ideologia. É o caso da Insecta Shoes, marca vegana de calçados. A grife foi criada pelas designers Barbara Mattivy e Pamella Magpali. Ao invés do couro, material comum em sapatos estilo oxford, uma das apostas da marca, os sapatos criados pela dupla são feitos do reaproveitamento de roupas usadas. Barbara explica: 'Elas são dubladas e "coladas" com um tecido mais firme, para dar resistência, e cortadas no formato do sapato. Já a sola é de borracha triturada reciclada.' Estampados com flores ou formas geométricas, os calçados tipo Oxford ou botas são cheio de informação de moda. 'Optamos por produzir sapatos vegan e ecológicos no intuito de fazer nossa parte para salvar o meio ambiente. Acreditamos que os animais não precisam sofrer mais maus tratos, existe couro até de cachorro na indústria hoje em dia. A gente não sabe mais o que compra, o que consome', alerta Barbara.

Calçado Insecta Shoes

Calçado Insecta Shoes Foto: Reprodução/Insecta Shoe

Já a Canna, marca de acessórios como bolsas, carteiras e malas, só trabalha com o couro sintético. "Diferente dos sintéticos mais comuns por aí, ele não é feito na China, mas no Brasil. Com produção ecológica, a fábrica recicla partes da matéria-prima e reutiliza quase 100% da água do processo. E é um produto de qualidade superior, que inclusive chega a custar mais caro que o próprio couro", explica Fernanda Cannalonga, proprietária da marca.

Vegetariana há mais de 10 anos, Fernanda conta que começou a pensar na marca porque sentia falta de produtos bonitos que não tivessem em sua composição matéria-prima de origem animal. "Não conseguia encontrar acessórios com design interessante que não fossem feitos de couro ou em países com práticas trabalhistas questionáveis (China, Vietnã, etc)". Fernanda ainda alerta para o fato de que utilizar matérias primas que não sejam de origem animal, ainda revela uma preocupação ambiental e social. "Uma bolsa de material sintético da China, por exemplo, pode não ter nenhuma matéria prima de origem animal, mas as más condições de trabalho e o impacto ambiental da produção e do transporte daquele produto até o Brasil têm de ser considerados. No fim, está tudo interligado", diz. 

Bolsas de couro sintético da Canna

Bolsas de couro sintético da Canna Foto: Reprodução/Canna

Essa afirmação de Fernanda vai ao encontro com um trecho de um relatório da ONU que Adriana Pierin, responsável pela ONG Move Institute, costuma usar em defesa do uso de matéria-prima vegana. “Produtos animais causam mais dano que produzir minerais de construção como areia e cimento, plásticos e metais. Biomassa e plantações para animais causam tanto dano quanto queimar combustíveis fósseis.” 

O Move Institute é uma Organização não governamental de proteção animal que surgiu com a intenção de trazer à sociedade a reflexão da relação homem/animal que, de acordo com a Adriana, precisa ser revista e repensada. Dessa necessidade, nasceu a Loja Move. 'O site Loja Move foi criado com o objetivo de financiar nossos projetos de conscientização. Todas as peças fazem parte de alguma campanha. Elas estão alinhadas ao que acreditamos ser uma nova forma de consumir, onde os animais não sejam vistos como matéria-prima.'

São camisetas, parkas, bolsas, carteiras, artigos de decoração como almofadas e porta retratos, peças de cozinha como xícaras, pano de prato. Além dos tecidos serem 100% naturais, como o algodão e a sarja, e a estamparia e os bordados serem feitos artesanalmente, todas as peças vendidas pela ONG trazem desenhos delicados, mas com mensagens firmes: 'no fur', 'liberte', 'we hate zoo' e 'adopt do not buy'.