Moda pode ser arte, mas de museu?

Robin Givhan - The Washington Post

Três eventos apresentam argumentos favoráveis: a moda é bonita; tem significado cultural; é uma explosão de experimentação criativa

Exposição "Isaac Mizrahi: An Unruli History" (Issac Mizrahi: uma história sem regras)

Exposição "Isaac Mizrahi: An Unruli History" (Issac Mizrahi: uma história sem regras) Foto: Will Ragozzino/SocialShutterbug.com

Uma enxurrada de cores. Um arco-íris de matizes. Uma ode ao rosa... O que mais impacta na exposição de Isaac Mizrahi, no Jewish Museum, até 7 de agosto, é a efusiva adoção pelo estilista das cores laranja, verde-grama, verde-azulado e, claro, rosa. Antes que cheguem às roupas, aos desenhos ou aos vídeos detalhando o sucesso de Mizrahi, de quem a maioria vai se lembrar pelo documentário Unzipped, os visitantes são apresentados à quase fanática obsessão do designer em fixar na lã, seda e algodão todos os tons possíveis do arco-íris. Amostras de seus tecidos, que ele guarda cuidadosamente em pequenas caixas, estão afixadas nas paredes da galeria de entrada da exposição. A sensação deve ser parecida com a de se entrar num caleidoscópio do tamanho de um quarto. A inevitável resposta é mais emocional que intelectual – cores fazem sorrir. Mas será que isso é motivo bastante para um museu montar a "Isaac Mizrahi: An Unruli History" (Issac Mizrahi: uma história sem regras)? Faz do trabalho de Mizrahi uma arte?

A mostra de Mizrahi coincide com um novo documentário sobre uma exposição de moda arrasadora e o preparo de uma próxima instalação com o tema roupas. Os três eventos apresentam argumentos favoráveis à adoção da moda pelos museus: a moda é bonita; tem significado cultural; é uma explosão de experimentação criativa. 

Mas é arte? A resposta é “talvez”. E não importa. 

Mizrahi iniciou sua carreira de modista em 1987, quando lançou a marca com seu nome e começou a encantar o público com uma avalanche de inovações que só agora, tantos anos depois, evidenciam quanto ele era presciente. Mesclou suas criações extravagantes, detalhistas, de alto nível, às camisetas e suéteres populares que criou para a Target. Hoje é comum estilistas sofisticados criarem coleções específicas para o mercado de massa. Mas quando Mizrahi fez isso a prática era vista como perigosa, podendo esvaziar a coleção principal do estilista e tirá-lo do exclusivo círculo da moda. Mizrahi, porém, ampliou esse círculo. 

Antes de Miguel Adrover fazer vestidos de panos de colchões descartados e da Vetements estabelecer que camisetas com o logo da DHL eram chiques, Mizrahi já se inspirava em desenhos de painéis protetores de elevadores de carga para fazer vestidos de noite de seda. Ele também enfrentou o politicamente correto com seu vestido inspirado em totens indígenas – uma celebração pós-moderna e artesanal do multiculturalismo que hoje certamente provocaria gritos de indignação. 

A exposição tem ainda vestidos de baile de um brilhante “azul-lenhador” e o vestido “baby-bjorn” – traje de noite em cetim vermelho que vem com um dispositivo “canguru” de carregar bebê. Alguns trajes são apenas cômicos, outros elegantemente pragmáticos. Na maior parte, a exposição celebra o prazer das roupas, e isso basta para justificar o percurso através das várias galerias pontuadas por charmosos esboços de Mizrahi e fragmentos de seu trabalho tirados de filmes e da televisão. 

Talvez isso baste. Se o "Puppy " de Jeff Koons – um cão terrier gigante feito de flores que evoca mais a alegria que a seriedade – pôde aterrissar no Museu Guggenheim, de Bilbao, não haveria razão para que a obra de Mizrahi não ganhasse status de museu. 

O tema de "The First Monday in May" (Primeira segunda-feira de maio) é a mostra anual do The Costume Institute (Instituto da Moda) do Metropolitan Museum of Art (MET). Há acessórios estonteantemente belos, mas a essência do filme, que estreou na semana passada, é o trabalho físico e a força mental exigidos para montar "China: Through the Looking Glass" (A China vista de binóculos), que estabeleceu um novo padrão no número de visitantes de uma das exposições de moda do museu. O coração do filme é o curador Andrew Bolton, que, amorosa e obsessivamente, cuida das roupas e navega através das armadilhas culturais e políticas do museu. O filme, intelectualmente convincente, explora a desconfortável relação do museu com a moda. Mas, em vez da obsessiva discussão sobre se moda é arte, prefere focar no poder da moda para unir duas culturas díspares – a China e o Ocidente. 

Bolton vai novamente posicionar a moda num contexto mais amplo com a próxima exposição"Manus x Machina: Fashion in the Age of Technology" (A mão contra a máquina: a moda na era da tecnologia), que será aberta ao público nesta quinta-feira, 5. A mostra explora a tensão entre acessórios feitos à mão e industrializados. Quais são os melhores? 

Museus passaram a adorar exposições de moda. Elas chamam multidões, atraídas pela beleza das roupas e por sua carga emocional. Afinal, não apenas admiramos e discutimos moda: nós a usamos. "Manus x Machina" vai testar como o público reage a uma mostra que questiona a importância do toque humano na confecção de roupas que, por sua vez, nos ajudam a nos definir. 

A moda pode – ou não – ser arte. Mas isso talvez seja também uma caracterização limitada demais.

Tradução de Roberto Muniz