Moda em tempos de guerra

Vanessa Friedman - O Estado de S.Paulo

Em Israel - e em quase todo país que é tradicionalmente considerado uma zona de perigo -, a moda floresce

Peças do estilista Rowan Shaaban para Shenkar 2014

Peças do estilista Rowan Shaaban para Shenkar 2014 Foto: Rafi Daloya via The New York Times

Há duas semanas, enquanto a maior parte da turma da moda marchava para o Palais de Chaillot para assistir ao desfile de alta costura de Armani Privé - pensando, talvez, se o (restaurante) Caviar Kaspia não teria uma mesa livre ou se Emma Watson apareceria em mais uma primeira fila - Leah Perez, a diretora do programa de moda na Faculdade de Engenharia e Design Shenkar, a famosa escola superior de moda em Israel, estava participando de um tipo diferente de desfile, especulando sobre tipos muito diferentes de questões. 

“Era perto das seis e meia da tarde e nós estávamos começando o primeiro de dois desfiles de formandos”, disse ela. “Havia cerca de 700 pessoas na plateia: pais, professores, jornalistas e celebridades, como a atriz Keren Mor e o arquiteto Amir Mann. A música era muito alta, como geralmente é num desfile, por isso não poderíamos ouvir mais nada. E aí, de repente, todos começaram a receber mensagens de texto em seus celulares dizendo que as sirenes estavam soando e os foguetes estavam vindo na direção de Tel-Aviv. Estávamos num grande espaço de exposição sem nenhum abrigo antibombas. Isso me obrigou a decidir se devíamos evacuar o local ou não.”

Ela decidiu que não. “Os alunos mereciam que seus trabalhos fossem vistos”, disse. “E a vida continua, pouco importava o que estivesse acontecendo lá fora. Quase ninguém saiu. Havia uma espécie de eletricidade no ar e uma sensação de que estávamos desafiando a situação. Mas depois eu não consegui dormir. Ficava pensando naquelas pessoas pelas quais fora responsável …”

A ideia de que a moda vale este tipo de risco - que a moda teria alguma importância numa zona de conflito em meio a questões de vida e morte e diplomacia geopolítica - pode chocar a maioria das pessoas como anômala e possivelmente até absurda.

Aliás, antes mesmo do conflito atual na Faixa de Gaza começar, quando contei a amigos que ia a Israel para explorar seu mundo da moda, a resposta foi testas franzidas e uma espécie de grunhido querendo dizer “será que eles não tem coisas mais sérias em que pensar do que roupas?”

“Sei que parece ridículo”, disse Perez. “Eu estava na escola durante a Guerra do Yom Kippur, que foi terrível. E nós estávamos estudando sobre a mulher de Picasso. E eu disse ao instrutor, ´Realmente, quem se importa com a mulher de Picasso?` Mas isto se torna uma declaração sobre a crença de que o bom e o belo prevalecerão. Senão, qual é a opção? Sucumbir ao ódio e à feiura?”

Esta não é uma pergunta retórica e nem uma questão apenas israelense. As palavras de Perez são emblemáticas de uma verdade inesperada: em quase todo país que é tradicionalmente considerado uma zona de perigo, a moda floresce.

Há moda no Afeganistão, a Ucrânia realizou sua Fashion Week em Kiev em março durante o auge da turbulência política sobre a ocupação russa. A Zâmbia, um dos 30 países mais pobres do mundo, teve uma Fashion Week. No ano passado, a Colômbia realizou uma grande comemoração em homenagem ao 25º aniversário da inexModa, a mostra de sua indústria têxtil e de moda, que incluiu um desfile do estilista Haider Ackermann realizado na presença da primeira-dama da Colômbia, vários embaixadores e o prefeito de Medellín, num esforço para mudar a narrativa nacional do tráfico de drogas e seu tributo de mortes para o comércio de moda.

Bordados em seda na coleção de Maskit

Bordados em seda na coleção de Maskit Foto: Rina Castelnuovo/The New York Times

Em Israel, o programa de moda de Perez mais que dobrou de tamanho, passando de cerca de 25 por classe em 1994, quando ela assumiu, para 41 formados este ano, com 60 na classe inicial. Apesar de a Shenkar ser tradicionalmente a faculdade de moda mais conhecida, duas escolas concorrentes, a Academia de Artes e Design Bezalei em Jerusalém, e a Academia de Design e Educação de Haifa da WIZO, também estão gozando de crescente popularidade. E três anos atrás, a Fashion Week de Tel-Aviv foi reiniciada após um intervalo de 30 anos, a despeito do fato de que de todos os jovens designers que se formaram em escolas de design israelenses foram para o exterior para estágios e depois retornaram para introduzir suas próprias linhas, somente a metade, se tanto, ainda está no ramo uma década depois.

Isto se deve, em parte, à tentativa de ser empresário num mercado minúsculo, onde as marcas de moda elegantes são preteridas em favor de nomes tradicionais do mercado de massa, incluindo das importantes companhias israelenses, Castro e Renuar. Mas mesmo além dos problemas óbvios, há questões específicas em Israel que agem contra a introdução de grifes de moda: a morte da indústria têxtil local, que foi uma das maiores do mundo; a ascensão de marcas estrangeiras baratas como H&M; e uma falta de estrutura formal. (Não há showrooms, e as lojas aceitam a maioria das roupas em consignação, significando com isso que se não venderem, o designer fica responsável pelo estoque excedente; e a inexistência de um organismo governante central como o Conselho de Estilistas de Moda dos Estados Unidos ou a Camera Nazionale della Moda na Itália.)

Para não mencionar um apoio público morno comparado, por exemplo, com o setor de tecnologia, e o fato de que, como disse Assaf Shem-tov, uma jovem estilista que fundou a marca Colle'cte com seu marido, Tal Drori, “Acho que boa parte do dinheiro vai para o Exército”.

Mas, apesar de haver histórias de sucesso da moda israelense fora de Israel - Alber Elbaz, o muito festejado diretor de criação da Lanvin, que se formou na Shenkar; a Gottex, a marca de roupas de banho fundada em Tel-Aviv em 1956; os estilistas de Nova York, Elie Tahari e Yygal Azrouël; Kobi Halperin, outro ex-aluno de Shenkar que é diretor de criação na Kenneth Cole - a maioria dos formados na Shenkar continua a sonhar em trabalhar em sua pátria e não em capitais da moda como Paris ou Milão.

Naim L. Qasim, por exemplo, um jovem estilista árabe que se formou na Shenkar em 2001, trabalhou em Nova York, Istambul e Itália antes de voltar em 2007 para “trazer minha visão para a minha comunidade”. Ele opera um ateliê na comunidade árabe de Tira, ao lado de sua irmã, que faz vestidos exclusivos para ocasiões especiais. Nadav Rosenberg, que estagiou por algum tempo na David Koma, em Londres, depois de se formar na Shenkar em 2010, abriu sua etiqueta Northern Star, que tem uma estética urbana leve, gráfica, em 2012. Rosenberg só recentemente conseguiu sair da casa de seus pais, que era também seu estúdio, para abrir um espaço de vida/trabalho/butique em Tel-Aviv.

Em razão das dificuldades, é difícil deixar de perguntar por quê? “A moda conecta todas as pessoas”, disse Tal Drori, que estagiou na Azzedine Alaïa, em Paris, e na Donna Karan, em Nova York, antes de voltar para começar a Colle'cte. “Ela pode ser uma ponte transpondo cor e religião.”

No entanto, apesar de isto soar vagamente político e embora existam subcorrentes políticas em algumas marcas de moda israelenses - Dorin Frankfurt, por exemplo, uma espécie de Ann Taylor israelense, estabeleceu seu negócio em 1975 sobre a premissa de que todas as etiquetas digam “desenhado e fabricado em Tel-Aviv” e possui sua própria fábrica local especificamente criada para contratar trabalhadores de todas as identidades culturais - há uma notável falta de panfletarismo aberto nos jovens estilistas.

Há exceções. Um estudante de calçados na turma de formandos da Shenkar criou, como projeto de conclusão de curso, sapatos com a palavra árabe “liberdade” esculpida em três dimensões nas solas, de modo que quem os usar deixará uma trilha inconfundível. Mas, em geral, as próprias roupas não tratam de conflitos, choques culturais ou qualquer tópico que um observador de fora poderia esperar. “É estranho, eu acho”, disse Orit Freilich, um palestrante em Shenkar. “Eu às vezes pergunto a meus alunos, ´Vocês não querem fazer alguma coisa sobre a situação que os cerca?` Mas eles dizem não. Querem sonhar com alguma outra coisa.”

Sharon Tal, que dirige a marca Maskit em Tel Aviv ao lado do marido, em frente ao retrato de Ruth Dayan, fundadora da grife

Sharon Tal, que dirige a marca Maskit em Tel Aviv ao lado do marido, em frente ao retrato de Ruth Dayan, fundadora da grife Foto: Rina Castelnuovo/The New York Times

Isto é exemplificado por uma empresa renascida chamada Maskit, aliás a primeira (e possivelmente única) empresa de moda de luxo de Israel, que foi criada em 1954 por Ruth Dayan, a ex-mulher do militar e estadista israelense Moshe Dayan, para usar técnicas de bordado palestinas, libanesas e judaicas em roupas de luxo contemporâneas, criando com isso empregos para imigrantes e aumentando a herança cultural da região. Apesar de bem-sucedida nos anos 60 (Audrey Hepburn vestiu seu famoso casaco casulo), ela fechou em 1994. No ano passado, o casal Nir e Sharon Tal, que haviam trabalhado, respectivamente, na Deloitte e na Alexander McQueen, a recompraram com o investidor Stef Wertheimer (um dos homens mais ricos de Israel e o fundador da Iscar, uma fabricante de ferramentas industriais que foi vendida recentemente a Warren Buffet) com a finalidade de criar uma “marca de luxo local”.

Apesar de estarem no caminho de adotar a diplomacia da moda da Maskit no que trata dos bordados, os Tal parecem mais focados na criação de um modelo de negócios para outros candidatos a estilistas: um contexto para a próxima geração imaginar um caminho para uma carreira dentro de Israel. Para isso eles terão de melhorar sua assinatura estética (por enquanto, as roupas são em grande parte reinvenções bonitas de estilos passados), mas a própria existência de seus objetivos reflete a oportunidade de um futuro alternativo que está no coração do fascínio da moda. Onde quer que ela esteja.

Esboços originais da Maskit. A marca foi fundada por Ruth Dayan, ex-esposa do general Moshe Dayan, em 1954, e, hoje, está sob direção de Sharon Tal e seu marido, Nir Tal

Esboços originais da Maskit. A marca foi fundada por Ruth Dayan, ex-esposa do general Moshe Dayan, em 1954, e, hoje, está sob direção de Sharon Tal e seu marido, Nir Tal Foto: Rina Castelnuovo/The New York Times

“Você sabe que foi pura coincidência, mas a canção que encerrou a festa de formatura foi de um dos poetas e cantores mais amados de Israel, Arik Einstein”, disse Perez. A música tocou logo antes de ela anunciar que o coquetel de depois da festa fora cancelado e que todos deveriam voltar para suas casas para se proteger. “Todos estavam em lágrimas”, ela recordou, mas não porque se sentissem arrasadas pelo que estava ocorrendo em sua volta, ou pelo alívio da tensão, mas porque a canção refletia o ponto mais essencial do exercício. “O título é ´Você e Eu Mudaremos o Mundo`”, disse. Em outras palavras: esperança. Em Israel, e em outros países em situação limite.

Tradução de Celso Paciornik