Militância, escapismo e performance embalam dia 1 da Casa de Criadores

Sergio Amaral - Especial para O Estado de S. Paulo

Weider Silveiro, Jorge Feitosa, Marcelo Von Trapp e Felipe Fanaia desfilaram na segunda

O 'finalle' alto astral do desfile de Felipe Fanaia, que celebrou a diversidade LGBT na passarela

O 'finalle' alto astral do desfile de Felipe Fanaia, que celebrou a diversidade LGBT na passarela Foto: Marcelo Soubhia/Fotosite

Mais importante celeiro de novos talentos da moda nacional (sejam eles estilistas, modelos, maquiadores, produtores ou stylists), a Casa de Criadores chega a sua 44ª edição com o mesmo vigor de seus primórdios. Ao menos é o que sugerem as apresentações desta segunda, 26, primeiro dia do evento, um mix de moda, militância e performance: uma combinação para tempos de uma moda que vá além da roupa, que represente posturas e valores - políticos, sociais etc. Confira a seguir o que rolou no primeiro dia do evento.

 

Megamix

Looks do estilista Weider Silveiro, que se inspirou no artista performático Leigh Bowery

Looks do estilista Weider Silveiro, que se inspirou no artista performático Leigh Bowery Foto: Marcelo Soubhia/Fotosite

Inspirado no visual do artista australiano Leigh Bowery, que fez fama e causou espanto na moda e na noite inglesa com looks e performances absurdos, o estilista Weider Silveiro deu o pontapé no evento com uma coleção assumidamente escapista. “Estava precisando fugir do momento político, econômico e social”, conta ele, que na última temporada tratou de população LBGT de rua. Um veterano entre os participantes da Casa de Criadores, Weider tem uma coisa às vezes rara nessa temporada: habilidade em conjugar imagens impactantes com design bem feito e executado. Nessa estação, trouxe diferentes tipos de xadrez, florais e camuflados num mesmo look (e até na mesma peça), misturando alfaiataria, sportswear e couture, nos vestidos com efeito mil folhas, feitos  com muitas camadas de babados bordados.

 

Raízes

O estreante Jorge Feitosa mostrou roupas feitas com retalhos e sobras de tecidos

O estreante Jorge Feitosa mostrou roupas feitas com retalhos e sobras de tecidos Foto: Marcelo Soubhia/Fotosite

Um estreante no evento, o pernambucano Jorge Feitosa olhou para a feira de moda popular Sulanca, de Santa Cruz do Capibaribe, no agreste do estado. Ali, nos anos 70, retalhos de tecidos vindos de São Paulo eram usados para a confecção de roupas novas. Era sustentável sem querer ser, mas a fama do design de lá não era das melhores - uma coisa que hoje mudou. Na sua reinvenção desse fundamento, uma espécie de “redenção de Santa Cruz”, Jorge parte do mesmo princípio para construir camisas, bermudas e jaquetas masculinas com recortes geométricos e aplicações que lembram origamis.

 

O estilista está presente

Minimalismo e performance na apresentação de estreia de Marcelo Von Trapp

Minimalismo e performance na apresentação de estreia de Marcelo Von Trapp Foto: Marcelo Soubhia/Fotosite

Outro novato do evento, mas não no mercado, o estilista Marcelo Von Trapp fez uma ótima estreia. Depois de passar por empresas, como Renner, Melissa e Le Lis Noir, investe em criações próprias focadas em peças de alfaiataria de vocação minimal, chiques e bem executadas. Fez uma apresentação performática, numa atmosfera que evocava Marina Abramovic e os quatro elementos, com os modelos carregando cristais, recipientes com água e uma ciranda de espelhos, entre outros objetos. “Vivemos tempos muito ruins e precisamos nos reconectar com esses elementos, com o simples”, explica. Nesse guarda-roupa classicão de Von Trapp entram camisas e ternos alongados, vestidos diáfanos, calças amplas em lã, além de coletes  e bermudas utilitários.

 

Arco-íris

Ursinhos Carinhos e militarismo, duas referências da coleção mostrada por Felipe Fanaia

Ursinhos Carinhos e militarismo, duas referências da coleção mostrada por Felipe Fanaia Foto: Marcelo Soubhia/Fotosite

Encerrando em alto astral, Felipe Fanaia fez de seu desfile uma espécie de manifesto pelo respeito à diversidade sexual e à cultura LGBT. Teve a funkeira trans Mulher Pepita abrindo a apresentação ao som da épica trilha de Guerra nas Estrelas e encerramento com uma bandeira do arco-íris carregada pelo casting de modelos. Casting aliás que desfilava fazendo dancinhas e poses de afronta em clima divertido. A coleção em si brinca com o contraste entre cores e um imaginário vibrantes e alegres, vindos do arco-íris e do mundo dos Ursinhos Carinhosos, e uniformes militares, com trenchs e macacões de aviação com manchas tipo tie-dye em versão ampla, com cintura e ombros deslocados.