Mark Zuckerberg está pronto para a paternidade?

Elisa Albert - O Estado de S.Paulo

São raros os encontros pessoais hoje em dia que não incluam a comiseração silenciosa sobre alguém ou o insuportável comportamento online de outra pessoa

O fundador e CEO do Facebook, Mark Zuckerberg, com sua mulher, a médica Priscilla Chan, e a filha Max

O fundador e CEO do Facebook, Mark Zuckerberg, com sua mulher, a médica Priscilla Chan, e a filha Max Foto: AP

Num café de Manhattan, eu me sento perto de uma mãe e sua filha pequena, que toma um chá. A filha olha para fora, pela janela. A mãe tira fotografias de seus próprios sapatos, tendo como fundo um piso maravilhoso, mas sua filha simplesmente a ignora. A mãe arruma artisticamente a xícara de chá da filha para fazer uma foto. Ela tira a fotografia da filha. A luz é perfeita. Observo a mãe estudar a imagem, colocar hashtags e postá-la. Ela analisa sua página. A filha olha fixamente para fora da janela. 

São raros os encontros pessoais hoje em dia que não incluam a comiseração silenciosa sobre alguém ou o insuportável comportamento online de outra pessoa. Ainda não temos nenhuma terminologia aceitável para o fenômeno que afeta um pessoa perfeitamente decente que é notoriamente chata online. É mais fácil as coisas irem mal do que o contrário. Alguns erros têm ligação com a carreira e a autopromoção. Em outros casos, as pessoas não reconhecem as sutilezas, são viciadas e buscam audiência constante. 

Algumas são politicamente monótonas e repetitivas. Outras, ainda, possivelmente em maior número, exibem implacavelmente seus rebentos.

Eu não sou abstêmia das redes sociais, mas sou cautelosa a respeito de minhas próprias tendências de me tornar dependente. Três coisas que aconteceram comigo nas primeiras semanas de 2009 foram responsáveis por minha transformação: eu adquiri meu primeiro smartphone, entrei no Facebook e dei à luz um filho. Atordoada, encantada, desprovida de sarcasmo, eu compartilhei ativamente as atividades do meu filho. Meus dias eram gastos com os cuidados com ele, ou seja, com os olhos fixos no bebê e no smartphone: o desastre perfeito.

Supersticiosa por natureza, não demorou muito para que eu me sentisse incomodada - seu olhar puro, seus sorrisos particulares, sua vulnerabilidade perfeita. Pessoas que eu mal conhecia realmente mereciam ser cúmplices desses momentos? O mau olhado me assustou: não demonstre suas bênçãos desenfreadamente para não despertar ciúme. A intimidade é para ser conquistada, não oferecida. E, de qualquer forma, as atividades da vida online começaram a ficar cada vez mais cansativas.

Ainda assim, eu fiz o que todo mundo faz. Eu tenho uma criança abençoada e sou dedicada a ela. Quer vê-la? Faça parte da minha vida! Venha, olhe para ele! Participe!

Segundo a empresa, uma média de um bilhão de pessoas usaram o Facebook em cada um dos dias de setembro. A página do CEO, Mark Zuckerberg, está no momento cheia de fotos de mulher e de sua recém-nascida filha, Max. Ele foi parar nas manchetes quando usou a rede social para anunciar sua gravidez, divulgando também que ela havia sofrido vários abortos naturais.

Aplausos! Um triunfo sobre a vergonha e o silêncio que geralmente acompanham esta parte comum do processo reprodutivo. Foi um momento profundamente interativo. Mas também uma lembrança engenhosa sobre como Zuckerberg prefere que usemos seu site. Ele estava nos lembrando como isso é feito. Quais são suas tristezas e vitórias de hoje? Não é importante que o atual de seu ex saiba? Abasteça o algoritmo secreto com suas intimidades e deixe a catarse fluir. Aqui está a revolução da comunidade e nós somos os revolucionários.

Quando meu filho tinha cerca de 3 anos, eu comecei a pedir permissão a ele para divulgar o que fazia na rede..

"Posso colocar isso no Facebook?"

"O que é Facebook?"

"É uma enorme empresa de internet que permite que você demonstre suas ideias, vídeos e fotografias como num quadro de avisos que todos podem ver e todos que conhecem você podem ver tudo o que você faz."

"Não", disse ele imediatamente. "Não quero estar nisso."

Pessoas próximas achavam engraçado quando eu tirava uma fotografia e ele vinha em minha direção, com o dedo mexendo de um lado para o outro dizendo: "Não coloque isso no Facebook!"

De vez em quando, ele aprovava que eu postasse algo e poucas vezes eu compartilhei coisas sem pedir permissão, porque eu havia tido um dia ruim e queria algumas curtidas. O equilíbrio é algo complicado, como em tudo na vida.

É saudável querer compartilhar o que acontece com nossos filhos com nossa comunidade, sentir que outras pessoas os amam, os conhecem e se importam com eles. Mas esta noção de comunidade é instável.

"Eu posto demais?", pergunto aos meus amigos. Você me fala, não fala, se eu passar da conta? Trata-se do equivalente pós-moderno de confinar nas pessoas para dizerem se o zíper da sua calça está aberto.

Uma pessoa que eu não conheço publicou a foto de seu filho, no jardim de infância, nu no banheiro. "Mistura de felicidade e tristeza. O último dia de fraldas do meu bebê." Um parente ao lado da fotografia de sua filha, perfeitamente penteada, declara: "Tudo para ela. Somente ela. Sempre ela. De todas as formas, ela." Outra pessoa acompanha a foto de uma adolescente e pede: "Pare de crescer (o que quer dizer, morra?)!" O que está sendo mostrado, afinal? 

Eu gosto de ver as crianças do Facebook crescerem com o passar dos anos. Elas não vão me reconhecer na rua, mas eu sei que elas ganharam um dólar da fada do dente e eu sei como elas brigam com suas irmãs e que usaram um pacote de macarrão, sem permissão, para um projeto de arte.

Eu sei das palavras que elas usam erroneamente e a hora em que vão dormir e as histórias que inventam, além de seus talentos , expectativas e medos. Eu quero bem a elas mas, na verdade eu não as conheço, então é um pouco estranho saber tanto sobre elas. O Facebook transformou a forma como muitos de nós vive a paternidade e a maternidade, a nossa e a dos outros.

E agora, mais de dez anos depois de o site ter nascido, no dormitório de uma faculdade, estou curiosa para ver como Zuckerberg vai agir. Vamos nos sentir imediatamente familiarizados com seu bebê?

Eu tenho alguns amigos de verdade e alguns milhares de amigos virtuais.

Minha estratégia em relação à rede social é muito simples: trabalhar duro, mesmo nos dias de solidão mais profunda, não confundir os dois. 

"Não é um segredo", costumava dizer minha mãe sobre algumas coisas, "mas é particular". Eu prefiro "honestidade é uma virtude, mas candura é um defeito".

Vamos lembrar bem: esta suposta utopia é, na verdade, a respeito de visualizações de anúncios publicitários. É sobre nossa confiança numa empresa que passa uma sensação de "conexidade". É uma praça barulhenta de cidade do interior e nós somos os camponeses que jogam conversa fora, embora, em vez de bens e mantimentos, o que está à venda somos nós mesmos.

O rei pode, ocasionalmente, passar pela cidade, supostamente para conferir certa dignidade a nossas vidas miseráveis. "Vejam, ele não é tão diferente! Ele está conosco! Nós fazemos diferença!" Mas não se engane, o rei vive em outro lugar.

Embora possamos encontrar grande quantidade de bom entretenimento a qualquer hora do dia, a apinhada praça de cidade do interior sempre foi um lugar sórdido para revelações, ostentação, exibicionismo, despudor e demonstração de nossas dádivas. Isso, amigos do Facebook, é a razão de ser da rede social.

Tradução: Priscila Arone