Mais do que suas mães, hoje as jovens planejam fazer uma pausa na carreira

Claire Cain Miller - O Estado de S.Paulo

Diversas pesquisas mostram que mulheres jovens formadas e que trabalham estão mais propensas a achar que sua carreira e suas prioridades familiares mudarão com o tempo

As pesquisas também revelaram que para as mulheres mais jovens na economia atual é mais difícil para uma mãe trabalhar

As pesquisas também revelaram que para as mulheres mais jovens na economia atual é mais difícil para uma mãe trabalhar Foto: Dell Inc./ Creative Commons

Ainda na faculdade, anos antes de planejar ter filhos, Yi Gu começou a montar uma estratégia pensando em ter uma carreira flexível de modo a se adaptar às suas responsabilidades familiares.

Ela sabia que isto não seria possível nos seus dois primeiros empregos: em um banco, onde trabalhava longas horas, e em uma consultora, em que tinha de viajar constantemente. Para ela, ambos os empregos eram uma preparação para um trabalho mais flexível, que assumiu no ano passado aos 31 anos de idade, na área de estratégia de uma grande empresa farmacêutica. Logo depois ela engravidou.

"A definição de equilíbrio entre trabalho e vida pessoal vem mudando", disse ela. "Quando saí da faculdade de administração não estava casada e não tinha filhos, e qualquer trabalho menos de 80 horas por semana para mim estava equilibrado. Depois trabalhando numa consultoria ou viajava ou arranjava tempo durante a semana para ver os amigos. Hoje, com um filho, essa definição mudou novamente".

A geração mais jovem de mulheres que trabalham, entre 18 e começo dos 30 anos - define sucesso na carreira de modo diferente e menos linear do que as jovens de gerações anteriores. Diversas pesquisas mostram que mulheres jovens formadas e que trabalham estão mais propensas a achar que sua carreira e suas prioridades familiares mudarão com o tempo.

As pesquisas deixaram claro que duas gerações depois de as mulheres entrarem no mundo empresarial em grande número, trabalhar ainda é difícil para elas. Hoje, mesmo no caso daquelas com grandes ambições, existe uma maior possibilidade de elas reduzirem o ritmo de trabalho em certas ocasiões ou partirem em busca de empregos com mais flexibilidade de horário.

É uma geração que planeja. Seu enfoque é menos o tudo ou nada - ou seja, galgar posições na carreira ou largar tudo e ficar em casa com os filhos - e mais flexibilidade.

Em pesquisas realizadas pelo grupo Center for Talent Innovation com jovens da geração do milênio, profissionais formadas em faculdade, essas jovens mulheres disseram ter visto seus pais se debatendo entre uma atividade em tempo integral ou deixar completamente de trabalhar e gostariam de uma alternativa diferente. "É como se tivessem aprendido com as gerações anteriores e viram os inconvenientes de ambas as alternativas", disse Laura Sherbin, diretora de pesquisa do centro. "As jovens do milênio estão em busca de algo mais equilibrado".

Segundo uma pesquisa realizada pela Harvard Business School, 37% das jovens da geração do milênio, 42% já casadas, planejam interromper sua carreira para se dedicar à família. Isto em comparação com 28% das mulheres da geração X e 17% das baby-boomers ( geração dos anos 50).

As pesquisas também revelaram que para as mulheres mais jovens na economia atual é mais difícil para uma mãe trabalhar. Na pesquisa da Harvard School, um número de mulheres menor do que as de uma geração anterior disse esperar que conseguiria combinar trabalho e família ou ter uma carreira igual à do marido.

Para metade das mulheres com menos de 30 anos, seu gênero era uma desvantagem no trabalho - proporção igual à das baby boomers que sentiam a mesma coisa. As mulheres mostraram-se menos propensas a dizer que estavam satisfeitas com suas carreiras.

Segundo um estudo feito com jovens com curso na Wharton School, universidade da Pensilvânia, 78% das formadas em 1992 disseram que planejaram ter filhos, proporção que caiu para 42% em 2012. Em alguns casos elas nem mesmo pretendiam ter filhos e em outros achavam que nem poderiam por falta de apoio organizacional, disse Stewart Friedman, diretor do projeto de integração entre trabalho e vida da Wharton.

Uma noção que vai além do estreito mundo das alunas da escola de administração. Segundo um estudo mais amplo realizado pelo Pew Research Center, 58% das mães da geração do milênio que trabalham disseram que, como mães, é mais difícil avançar na carreira, em comparação com 38% de mulheres mais velhas.

"No caso das mulheres da geração de 50 predominava a ideia de parcerias igualitárias e a possibilidade de construir uma carreira fulgurante, mas ela perdeu força entre as mulheres da geração X e mais ainda entre as jovens da geração do milênio", disse Colleen Ammerman, diretora assistente da iniciativa de gênero da universidade de Harvard. 

As jovens formadas na Harvard Business School constituem um grupo de elite que costuma seguir uma carreira ambiciosa. E elas têm mais possibilidade de auferir um bom salário, suficiente para um dos parceiros não necessitar trabalhar. As jovens não reduziram suas ambições como diz Sheryl Sandberg em "Lean In". Seus objetivos de carreira e suas realizações nos anos imediatamente após o fim do curso são idênticos aos dos homens. Até certo ponto, afirmam, elas planejam antes de tomar algumas decisões potencialmente difíceis.

"Do mesmo modo que as estratégias adotadas pelas companhias, muitas formandas da Harvard Business School criam estratégias para a sua vida", disse Cheryl Han, 33 anos, formada pela HBS e cofundadora e diretora executiva da Keaton Row, uma startup de moda. 

O enfoque delas é diferente daquele adotado pelas mulheres que abriram caminho para a sua geração entrar nos escalões mais altos de uma empresa. As baby-boomers foram as primeiras a assumir cargos de carreira num grande número e eram menos propensas a interromper sua carreira ou a afirmar que esperavam ter sucesso em combinar trabalho e a vida familiar.

As mulheres mais jovens afirmam ter aprendido com a experiência da geração mais velha e estão determinadas a evitar os inconvenientes. Estão muito mais dispostas a afirmar que mulheres em cargos de liderança são vitais para o seu próprio sucesso, em termos de levar adiante uma carreira e descobrir como incorporar as responsabilidades familiares.

"Elas estão prevendo que de algum modo terão de reduzir sua atividade ou integrar sua carreira e sua vida", disse Caroline Ghosn, diretora executiva da Levo, rede profissional online concentrada nas mulheres da geração do milênio. "Esta realidade é algo que as pessoas se mostram muito mais transparentes e abertas a respeito".

Aos 30 anos, quase metade das mulheres que participaram do estudo da Harvard que eram casadas disseram ter optado por um emprego com mais flexibilidade, 26% diminuíram o ritmo de trabalho e 9% recusaram uma promoção por causa das responsabilidades familiares. 

As expectativas das mulheres diminuíram: 66% das jovens da geração do milênio afirmam esperar que sua carreira seja igual à dos seus consortes, em comparação com 79% das baby-boomers que pensavam da mesma maneira. Três quartos das jovens esperam conseguir combinar a carreira com a vida em família, mas observou-se uma queda significativa em comparação com os 86% de baby-boomers que disseram o mesmo.

O comportamento dos homens também começa a mudar. Isso pode levar a uma maior divisão das responsabilidades, embora a mudança ainda seja lenta. Por exemplo, 13% dos homens da geração do milênio disseram que interromperiam sua carreira em favor dos filhos. Uma porcentagem maior do que os 4% de jovens da geração anterior e os 3% dos baby-boomers - mas um porcentual muito menor do que os 37% de mulheres que se mostram dispostas a interromper a carreira para cuidar dos filhos.

Tradução por Terezinha Martino