Luxo que vem da África e pela África

Vanessa Friedman - O Estado de S.Paulo

Com um modelo de negócios baseado em criar produtos sofisticados com mão de obra e matéria prima locais (e pagar um preço justo por isso), nasce a Okapi, a primeira marca de luxo made in África

Campanha da marca de luxo africana Okapi

Campanha da marca de luxo africana Okapi Foto: Reprodução

Quando a recessão se abateu sobre a Europa e os consumidores de produtos de luxo começaram a abandonar as grifes, partindo em busca do “autêntico” e do “raro”, Hanneli Rupert, artista sul-africana que vive em Londres, começou a observar então “muitas influências africanas na moda”. E se perguntou: “Por que a África do Sul não pode se beneficiar com sua própria expertise nesse campo? E se houver uma maneira de mostrar as habilidades locais, o que poderá também gerar empregos?”. Sua resposta foi a Okapi, linha de produtos de couro que se tornaria a primeira marca de luxo Made in Africa, colocando o continente como uma fonte de manufatura de luxo e promovendo a criação de emprego. Uma grande ambição para uma marca relativamente pequena.

Os primeiros produtos surgiram em 2009 - imagine um cruzamento de bolsas Saint Laurent Mombasa e Balenciaga, feitas de couro de antílope africano na província do Cabo Ocidental, adornadas com amuletos de chifre de gazela africana em metal precioso, a preços que variam de US$ 150 (no caso de um carteira para cartões) até US$ 1.300 (por uma bolsa de crocodilo). Mas a Okapi até agora era um segredo local, com seus produtos vendidos somente na Merchants on Long, loja de multimarcas de Hanneli Rupert na Cidade do Cabo, e no website da Okapi. Mas no próximo trimestre a linha fará sua estreia global, graças ao Net-a-Porter, que será sua primeira loja internacional.

A pergunta é: as pessoas comprarão o produto? A ideia de que luxo, que pode ser considerado o símbolo da autossatisfação extravagante, pode ser usado para produzir uma mudança econômica real é uma proposta complicada que com frequência se defronta com o ceticismo. E isto pode ser uma verdade no caso de Hanneli Rupert, 29 anos, filha de Johann Rupert, o bilionário chairman do Richemont, um dos maiores grupos no setor de luxo do mundo, cujas holdings incluem Cartier, Van Cleef, Chloé e Jaeger-LeCoultre.

“Observei um certo sarcasmo com relação à ideia, o que é provavelmente algo inevitável”, admite Hanneli, mas ela também diz que “vimos também muito orgulho, que surge da frustração sobre como a África hoje é representada e como isso pode mudar." E como o seu modelo de negócio inteiro foi criado em torno de produtos e mão de obra locais, junto com uma produção externa, sua credibilidade foi fortalecida. “Nós realmente amamos o etos da marca, amamos o aspecto de sustentabilidade e a ideia de dar um retorno para a comunidade”, disse Alison Loehnis, presidente da Net-a-Porter. “E achamos que nossos consumidores responderão a isso." De fato, a Okapi é a mais nova participante de um nicho da moda que vem crescendo, composto de marcas que identificaram a explosão do luxo e seu apelo internacional como uma oportunidade não apenas de vender produtos caros, mas aproveitar o desejo das pessoas de objetos de alto valor - difíceis de encontrar e cada vez mais especiais - como uma alavanca para mudanças.

Entre elas está a Maiyet, marca de roupas e acessórios femininos lançada por Paul van Zyl, fundador do International Center for Transitional Justice, dedicado ao uso da moda para criar empresas em regiões desamparadas do mundo, do Paquistão à Etiópia; Carmina Campus, uma linha de móveis e acessórios fundada por Ilaria Venturini Fendi (sim é parte da família Fendi) que trabalha com material reciclado (e através de um projeto em conjunto com o International Trade Center tem colaborado também com artesãos africanos); e a Suno, que busca seus têxteis no Peru e Quênia, entre outros locais mais distantes.

Todos compartilham a mesma estratégia (nas palavras de Carmina Campus, “não é caridade, é trabalho"), e também insistem que, como diz Hanneli Rupert, “tudo tem realmente a ver com a excelência do produto. O resto é secundário”.

“É verdade, você pode se espantar, mas pergunte a qualquer artesão com uma habilidade incrível se ele gostaria de receber US$ 70 por um metro da sua seda, que é o que pagamos no setor de produtos de luxo, ou US$ 7, e o que os US$ 70 podem contribuir em termos de transformar a vida daqueles trabalhadores e a resposta é muito clara. Por que isso é correto apenas quando se trata de artesãos franceses e italianos e discutível no caso de artesãos africanos? Este é o problema de fato", diz Paul Zyl.