Luxo em tempos de paz

Hermés Galvão - O Estado de S.Paulo

Na Gucci, Roberto Paz comemora 35 anos de carreira como um dos nomes brasileiros mais poderosos no mercado de luxo

Roberto Paz: o todo-poderoso da Gucci pna América Latina

Roberto Paz: o todo-poderoso da Gucci pna América Latina Foto: Tiago Queiroz

Top model e relações públicas exportamos como ninguém, mas por trás de tudo, da cena e do glamour, no back office de cada dia, o Brasil tem pouco ou quase nada a declarar. Exceção à regra, o piauiense Roberto Paz, carreira nada meteórica e conquistada passo a passo desde 1979, quando trocou o país por Paris para estudar direito internacional na Sorbonne, talvez seja, se não o maior, sem dúvida o brasileiro com trajetória mais longa (e estável) na moda internacional.

Longe da fila A, alheio à badalação, o executivo que hoje comanda a Gucci na América Latina está na linha de frente das super marcas desde quando o termo luxo ainda fazia sentido - e luxo era artigo de luxo. Da porta da loja para fora, um presidente de marca não quer dizer muita coisa. Mas longe dos olhos do consumidor, visto por dentro, nas internas das grandes companhias, é ele a espinha dorsal do negócio, quem parte em busca de novos mercados, decide o ponto, o que vai vender, quem entra e quem sai do time. Tem que ter antena, faro, ir direto ao o alvo. Geralmente os presidentes das grandes grifes acertam. E quando erram, não ficam para contar história.

A dele tem 35 anos, ininterruptos, de sucesso e amor à carreira que abraçou logo que chegou à capital francesa. "Frequentei a universidade por um ano e meio, tranquei a matrícula para passear, mas até hoje não voltei desta belle promenade", brinca. "Descobri ao chegar na cidade que o meu amor era o mercado de luxo fashion". Roberto começou como vendedor da Kenzo, onde ficou por sete anos; ocupou várias posições até chegar ao posto de embaixador de retail. Inaugurou lojas e formou equipes em Nova York, Londres e Dusseldorf, na Alemanha. "Tenho um carinho e agradecimento muito grande pela marca Kenzo. Até hoje nossos encontros são momentos de recordações e gargalhadas de uma época muito intensa e única, o início dos anos 80."

Em 1986, Paz foi levado por Valentino para dirigir sua loja masculina na Avenue Montaigne. Lá permaneceu mais cinco anos até ser convidado pela Hermés para assumir o departamento masculino das lojas de Paris. "Trabalhar com Jean Louis Dumas era o sonho de qualquer pessoa. Foi um momento absolutamente importante no meu percurso e uma escola de qualidade que não me esqueço mais", recorda. Em 1998 veio o chamado da Gucci, precisamente de seu grande mentor criativo da época, Tom Ford. "Só sairia da Hermés se fosse para lá. Desde o primeiro momento, a primeira entrevista, me identifiquei de imediato com a marca, cultura, pessoas, produto, trabalho, tudo." Como diretor geral das lojas da França e Bélgica - e depois de toda a Europa -, Roberto viveu entre Paris e Florença por oito anos até ser convocado para fazer parte da nova equipe Yves Saint Laurent, também como diretor de retail para Europa.

Em 2009, Paz retornou para Gucci no mesmo cargo, agora responsável pelo varejo nos Estados Unidos. Morou em Nova York até o ano passado, quando, então, mudou-se para São Paulo, onde responde por toda a operação da marca italiana na América Latina. "Confesso que ainda me sinto um pouco perdido e às vezes impressionado pelos noticiários", diz. "O maior desafio que temos  no Brasil é a burocracia. Existe a facilidade de criar e inventar como únicos no mundo. Mas tinha esquecido do "reconhecer firma"! Para tudo que assinamos ou fazemos temos que ir até o cartório. Tenho o sentimento que temos mais energia para complicações que para soluções. Por que fazer rápido e fácil se podemos complicar e polemizar?"

De olho no futuro, mesmo com todos os obstáculos que já impediram outras marcas de chegar com a fome da Gucci no Brasil, Roberto planeja a abertura de mais uma loja no país, dessa vez em Recife. Até o fim do ano serão 6 pontos no país, sendo 4 inauguradas sob a chancela do homem que, despido de seu terno sempre impecável, acha um luxo caminhar sozinho pelo Sena comendo crepe de Nutella comprado na esquina. Em Paris.