Lollapalooza: Como a moda se tornou um dos pilares do festival?

Julia Queiroz* - O Estado de S. Paulo

Música sempre influenciou tendências fashionistas e no evento não é diferente; Lollapalooza 2022 começou nesta sexta-feira, 25, em São Paulo

Lollapalooza 2022 acontece entre esta sexta-feira, 25 e domingo, 27, no Autódromo de Interlagos, na Zona Sul de São Paulo.

Lollapalooza 2022 acontece entre esta sexta-feira, 25 e domingo, 27, no Autódromo de Interlagos, na Zona Sul de São Paulo. Foto: Taba Benedicto/Estadão

"Música, arte, gastronomia, moda e muito mais”. É assim que o site do Lollapalooza Brasil descreve suas principais características e se apresenta ao público interessado na experiência do festival. Realizado tradicionalmente no início do ano na cidade de São Paulo, o evento se consolidou como um dos principais espetáculos culturais do País. Neste ano, ele aconteceu entre 25 e 27 de março, com atrações como Doja Cat, Miley Cyrus e Pabllo Vittar

A primeira edição brasileira ocorreu em 2012, no Jockey Club, na Zona Oeste da capital paulista. Em 2014, os shows foram transferidos para o Autódromo de Interlagos, onde ocorrem anualmente até hoje - com exceção de 2020 e 2021, anos em que o evento não pôde acontecer por conta da pandemia de covid-19. Em 2022, contudo, o festival está de volta e um de seus elementos também retornou com grande destaque: a moda

“A ideia de gênero musical carrega também valores, ideias e uma estética que muitas vezes se transpõe no jeito de se vestir”, explica Fernando Hage, professor e coordenador do curso de moda da Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP).

Esse conceito esteve presente na cultura rock e grunge, até chegar no rave e no pop. Nesse sentido, um evento como Lollapalooza, que une artistas de diversos ritmos musicais, gera uma confluência de identidades e estilos.

 

 

União entre moda e música não é de hoje

 

Fernando afirmou que a presença da moda nos festivais é muito anterior ao Lollapalooza: “Os festivais de música são esse espaço de afirmação, de identidade e de diferentes tribos que a gente vai ver surgindo principalmente na segunda metade do século 20”.

“A relação entre música e moda é uma constante que vemos em muitos momentos da história”, afirma Hage. Por serem formas de linguagem, esses universos estão conectados em diversos momentos e, segundo ele, ”vão estar sempre conversando com os desejos e expressões da sociedade". O especialista recorda momentos da história em que as tendências fashionistas estavam intrinsecamente ligadas aos ritmos mais presentes na época, como as saias rodadas dos anos 60, que remetiam ao Twist & Shout, dos Beatles

 

Essa relação se fortalece até hoje, como comenta o jornalista de moda e produtor de conteúdo digital Rener Oliveira: “A moda e a música sempre andaram de mãos dadas. Não existe uma coisa sem a outra. Quando olhamos para a onda mais ‘mainstream’, vemos artistas como a Lady Gaga, por exemplo. Ela criou uma carreira através da moda, usava esse artifício para comunicar que era uma cantora”. Gaga ficou conhecida no início da carreira por seu visual e trajes extravagantes.

 

E quem participa?

 

Se, por um lado, o Lollapalooza aproxima a moda de um grande público, por outro, Ana Cristina Ribeiro, que é estudante de marketing digital e influenciadora, lembra que o festival ainda é pouco acessível. Nas redes sociais, ela cria conteúdos sobre moda, beleza e autoestima para seus mais de 120 mil seguidores. 

Em 2022, os ingressos que davam acesso aos três dias de show chegaram a custar mais de R$3.000. “Quando você coloca um festival com um valor maior do que um salário mínimo no Brasil, você já muda totalmente o ponto de vista de como você fala sobre o evento, sobre moda e sobre esse movimento cultural”, opina.

A elitização do evento também se reflete nas marcas usadas pelo público. Segundo Oliveira, o público consome muita a ideia de “moda de luxo”, quando é possível ser fashionista de formas mais próximas: “Você não precisa ir com as roupas mais ‘hypadas’ do momento, com aquilo que todo mundo está falando. Você pode aprimorar o que você tem, por exemplo, e investir no seu guarda-roupa de uma forma mais inteligente”. A ideia é compartilhada por Ana, que é adepta do conceito de moda consciente e acredita que brechós e marcas menores podem ser boas alternativas.

Fernando Hage aponta que apesar do festival não ser aberto e acessível para um público de menor poder aquisitivo, ele é muito importante por ser pautado em ideais como liberdade e expressividade: “Estamos falando de um espaço que é muito livre para que as pessoas possam expressar o seu jeito de vestir ou a sua idolatria pelo artista que vai estar no palco. Sem dúvida, há uma mistura que faz com que os diferentes públicos tenham contato com diferentes universos e estilos, todos dentro de uma ideia de celebração”, diz. 

“A moda sempre foi esse lugar de escapismo. A gente busca nela várias questões que a nossa ‘vida normal’ não nos possibilita”, completa Rener Oliveira. 

 

 

Tendências de 2022

 

Quando o gramado se torna uma passarela, é comum que as maiores tendências de 2022 apareçam no festival. Para Oliveira, o evento foi marcado pela presença da moda agênero, marcada pela quebra de estereótipos binários no vestuário.  “Vemos a estética mais feminina entrando no masculino, o que pode incomodar muitas pessoas, mas a moda é isso: o incômodo”, diz.

Ana Cristina aposta na transparência. Ela diz que peças marcadas por essa característica estão muito presentes, além de elementos do street style, como bonés e calças wide leg, e maquiagem com pedras, em alta por conta da série Euphoria, da HBO.

 

 

O professor Fernando Hage também acredita na presença do estilo de rua, tanto no público como nos artistas. Segundo ele, os buckets hats, chapéus que vem de referências dos anos 90, roupas com fendas, recortes e aspecto esportista estarão no festival.

 

Para o professor, o Lollapalooza tem potencial, até mesmo, para criar novas tendências: “Tem um público que vai pelo conforto, mas também tem outro que quer ousar, ser criativo, e que sabe que está em um lugar mais libertária, onde pode exercer essa criatividade”.

 

*Estagiária sob supervisão de Charlise Morais