Liberdade para os ternos masculinos

Matthew Schneier - O Estado de S.Paulo

Confortáveis e mais flexíveis, eles marcam o início de uma revolução no guarda-roupa dos homens

As grifes Brooks Brother e Zegna estão flexibilizando as regras do vestuário masculino, como mostram os bailarinos do New York City Ballet

As grifes Brooks Brother e Zegna estão flexibilizando as regras do vestuário masculino, como mostram os bailarinos do New York City Ballet Foto: Bon Duke/NYT

O vestuário formal masculino sempre teve regras rígidas: seu terno deve ser sua prisão, de preferência nas cores preta, azul marinho ou cinza. Seus pés devem doer em sapatos reluzentes. Somente o seu guarda-roupa de fim de semana pode ser confortável. Mas em meio a um verdadeiro boom da moda para os homens, algo interessante vem ocorrendo: as regras (e mesmo os ternos) ficaram mais flexíveis. “O guarda-roupa masculino evoluiu enormemente”, afirma Tomas Maier, estilista alemão da Bottega Veneta, marca de luxo de Milão, e de sua própria linha homônima, mais casual. “Muitos homens não precisam adotar os códigos existentes, pois não são advogados nem trabalham em Wall Street. Inclusive eu."

Nas últimas duas décadas, depois de, nos anos 80, Armani lançar um estilo mais folgado de roupa, os ternos se mantiveram rígidos e escuros, e a única mudança no look formal foi a introdução dos mocassins. A historiadora Anne Hollander inicia seu livro “Sex and Suits” ("Sexo e Ternos", em tradução livre), de 1994, com uma desabafo: “Como outras coisas simples e excelentes sem as quais não podemos ficar, os ternos adquiriram ultimamente uma perfeição irritante". Esse momento de calmaria terminou com a chegada de Thom Browne, no início dos anos 2000, que, com seu temperamento rebelde e um alfaiate chamado Rocco Ciccarelli, sacudiu o vestuário masculino com ternos de calças superjustas com barras curtas e paletós apertadíssimos. Seus colegas estilistas rapidamente seguiram o exemplo. 

O modelo slim não desapareceu e uma rápida visita a muitas lojas deixa isso bem claro. Tampouco o terno clássico saiu de cena. Porém, uma opção mais cômoda veio se juntar a eles. A nova liberdade no campo do vestuário masculino é ter ternos e não ternos, e também ternos que se encontram em um território nebuloso, entre opções de paletós com dois botões confeccionados com tecido esportivo, ou, o que nunca se imaginou antes: variedades de cores. Mesmo para uma geração jovem menos habituada do que seus antepassados a usar ternos, eles despertam uma espécie de atração etérea. “Temos três festas de gala no ano. Então, talvez três vezes ao ano”, responde o dançarino do New York City Ballet, Joshua Thew, 27 anos, quando perguntado com que frequência usa um terno. Assim como seu colega Zachary Catazaro, Joshua lança mão de modelos mais casuais para ir aos eventos. 

“Há uma grande mudança na atenção ao vestuário masculino”, diz Tom Kalenderian, vice-presidente executivo da área de roupas masculinas na Barney´s de Nova York, que trabalha há 35 anos no setor. Segundo ele, terminologias como 'metrossexual' já não se aplicam mais nos dias de hoje. "Há cinco anos, estaríamos tentando nos desculpar pelo fato de um homem quer comprar uma bolsa”, diz. Os números falam por si sós. De acordo com um estudo recente realizado pela empresa de consultoria Bain & Co, o mercado de roupas prontas para homens gerou US$ 28 bilhões em 2014 e superou o das mulheres, com uma taxa de crescimento anual de 5% desde 2010.

Alguns exemplos disso estão em Manhattan. Dois templos da moda masculina, a Barney´s e a Goodman´s, recentemente passaram por reformas. Nas duas lojas o número de marcas aumentou, assim como a diversidade das coleções. “Antigamente você ia ao departamento de sapatos masculinos e encontrava uma profusão de sapatos marrons e pretos pontiagudos e de amarrar”, lembra Joshua Schulman, presidente da Bergdorf Goodman. “Hoje existe muita variedade e inovação, tanto quanto nas peças femininas”.

O designer Tomas Maier, da Bottega Veneta, concorda. “Hoje encontramos um campo muito mais aberto e interessante para a confeccão as roupas", afirma. Ele fala como um sobrevivente de uma era austera. “Um homem não podia usar uma Birkenstock em Paris quando vivi lá, em meados dos anos 70. As pessoas o parariam na rua e o insultariam." Atualmente, segundo Kalenderian, da Barney's, a a regra é só uma: "você tem de estar impecável”.

Tradução de Terezinha Martino