Lanvin, Dior e a Era dos excessos

Jorge Grimberg - O Estado de S.Paulo

Em Paris, a velocidade das mudanças coloca o mundo da moda em alerta. E nós com isso?

Pôster de Donatella Versace dentro da loja da Givenchy, em Nova York: ironia na corrida da moda 

Pôster de Donatella Versace dentro da loja da Givenchy, em Nova York: ironia na corrida da moda  Foto: New York Times

Ao mesmo tempo em que alguns diretores criativos em Paris, como Riccardo Tisci, da Givenchy, e Olivier Rousteing, da Balmain, causam rebuliço nas redes sociais com seu estilo de vida repleto de excessos, provocando inveja e admiração, os criadores mais sensíveis, como Raf Simons e Albez Elbaz, abandonam os seus cargos na Dior e Lanvin, respectivamente, promovendo um caos no sistema de moda ultra-rápido em que estamos vivendo. Para completar, os nova-iorquinos Marc Jacobs e Alexander Wang abandonaram recentemente seus trabalhos em grandes grifes para focar em viver mais e cuidar apenas de suas marcas, em vez manter dois trabalhos e a vida agitada em dois continentes. 

Afinal, o quanto é demais? Desenvolver até dez coleções por ano em cidades diferentes, ser melhor amigo de celebridades - e sustentar essas amizades em aniversários, eventos e compromissos profissionais - , fotografar campanhas e comparecer a eventos em cidades que vão de Shangai a Los Angeles, fazer selfies com Kim Kardashian, além de ser humano e dormir, namorar, fazer exercícios, comer bem, etc. Como é possível viver uma vida dessas e ainda registrar tudo nas redes sociais? Bem-vindo à era dos excessos. 

“Ter muitos seguidores no Instagram é o mesmo que ser rico no Banco Imobiliário”, diz algum ilustre desconhecido com mais de 200 mil seguidores na rede social. Mas como será que essa regra se aplica ao jogo da moda? Com certa admiração da minha parte, alguns profissionais estão pulando fora e mudando de vida. 

E o que nós, brasileiros, temos a ver com isso? 

Enquanto isso, aqui no Brasil, as marcas lutam para manter as portas abertas e sustentar algum desfile durante o ano ou, nem isso. Uma jornalista internacional me perguntou na último São Paulo Fashion Week: "Você não fica incomodado com o fato de apenas vinte e poucas marcas desfilarem na principal semana de moda do País?". Realmente, eu não havia pensado nisso e, sim, me incomoda.

Até algumas temporadas atrás, tínhamos aproximadamente quarenta desfiles, além do Fashion Rio. Porém, a indústria da moda não acompanhou o novo ritmo global, e o Brasil, mais uma vez, ficou para trás. A maioria dos nossos criadores reclama. Não temos materiais de qualidade no mercado e as leis de importação e exportação dão um nó na cabeça de qualquer um. 

 

Na maioria das entrevistas, quando pergunto sobre expansão internacional, a resposta é sempre a mesma: “preferi investir no mercado local”. E fazem muito bem. Um País tão grande e frágil quanto o Brasil exige a dedicação de um leão para um empresário de moda divulgar produtos para diferentes regiões. Agora, imagine exportar! É missão para poucos. Para a maioria, exportar acaba sendo apenas uma grande frustração. 

Em Paris é diferente. Raf Simons está cansado. Alber Elbaz está cansado. A indústria é patrocinada por grandes grupos financeiros que querem crescer muito a cada ano, abrindo lojas sem parar, solicitando mais coleções e, literalmente, tirando o couro dos profissionais. Alta-costura virou fast fashion com preços exorbitantes. 

Quem está se sobressaindo é quem abraça os novos tempos e consegue se destacar, sem transparecer o tal do cansaço. Deu no New York Times que, quando entramos na nova loja da Givenchy, na Madison Avenue, em Nova York, damos de cara com um pôster gigante da Donatella Versace. Ironia? Genialidade eu diria. É uma forma de Riccardo Tisci, o mestre do equilíbrio entre ser um diretor criativo de sucesso e ter sua vida exposta, mostrar para a gente que pode até estampar a concorrente na vitrine que não tem problema. Realmente 'Paris is burning'! 

E aos brasileiros que criticam a nosso fashion week e ficam discutindo nas redes sociais sobre o estado emocional de Raf Simons, vamos dar uma força para a nossa indústria? Aqui, está para nascer ainda um diretor criativo cansado dos excessos. Nossos estilistas estão lutando para existir. Então, antes de falar de Paris, temos muito trabalho aqui para limpar a casa. No Brasil, o excesso mesmo só acontece no Instagram.