Jovens modelos: conto de fadas ou pesadelo?

Vanessa Friedman - O Estado de S.Paulo

Uma temporada após as mulheres maduras serem celebradas em campanhas publicitárias e editoriais, o pêndulo da moda oscila drasticamente na direção oposta ao valorizar garotas mais novas

A modelo israelense Sofia Mechetner, 14, abriu o desfile de alta costura da Dior no mês passado.

A modelo israelense Sofia Mechetner, 14, abriu o desfile de alta costura da Dior no mês passado. Foto: Caroline Blumberg/European Pressphoto Agency

“Não é um conto de fadas, é um clichê”, afirma Sara Ziff, fundadora da Model Alliance, sobre a nova história que faz sucesso no mundo da moda, a de uma israelense de 14 anos que foi para Paris tentar a carreira de modelo, conheceu o estilista Raf Simons numa loja da Dior e acabou abrindo o desfile de alta costura da grife, no mês passado. “Mais uma vez usam garotinhas para vender roupa a mulheres adultas.” Uma estação depois de as mulheres mais maduras serem amplamente celebradas em campanhas publicitárias como a da Céline (com Joan Didion) e da Saint Laurent (com Joni Mitchell), e de numerosas reportagens sobre a valorização de ex-modelos antigas, o pêndulo da moda oscilou drasticamente na direção oposta.

Além da nova descoberta de Dior, Sofia Mechetner, a Chanel anunciou que o rosto de sua campanha de óculos de sol será Lily-Rose Depp, 16 anos, filha de Johnny Depp e Vanessa Paradis. E Kaia Gerber, filha de Cindy Crawford, estrela um editorial na edição de setembro do "Fashion Book", a revista de Carine Roitfeld. Em uma foto, ela aparece de Versace, usando botas de plataforma em pelica até a coxa; em outra, está com uma maquiagem com olhos de gato, um vestido Prada e uma carinha amuada. Kaia tem 13 anos. Estamos voltando aos dias em que Brooke Shields declarava, aos 15 anos, na década de 80: “Você quer saber o que há entre mim e minhas calças Calvin? Nada”. Décadas mais tarde, não estará na hora de avançarmos um pouco mais?

Se as reivindicações cada vez mais insistentes em favor da diversidade na passarela deviam nos ter ensinado algo, seria que as consumidoras querem \ver modelos que se assemelham a elas - a todas elas. E a maioria das consumidoras da moda para adultos, por mais chocante que possa parecer, são mulheres adultas de fato. A bem da verdade, certas coisas mudaram ao longo dos anos. Inquestionavelmente, na indústria da moda hoje há uma maior consciência, sem falar na legislação, dada a necessidade de proteger as meninas que não têm idade para trabalhar num mundo de gente grande (no entanto, um fato revelador é que as modelos quase sempre sejam chamadas de “meninas” pela própria indústria; elas não são chamadas de “mulheres”). 

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Há três anos, todas as 21 revistas Vogue internacionais assinaram e publicaram um acordo prometendo não contratar modelos com menos de 16 anos (embora este propósito seja vez por outra desrespeitado, como no caso de Kaia Gerber, que recentemente apareceu na edição italiana). Em 2007, o Conselho de Designers de Moda dos Estados Unidos e o British Fashion Council emitiram diretrizes sobre saúde que recomendavam energicamente (no caso do grupo americano) e exigiam (o British Council) às grifes que usassem modelos com pelo menos 16 anos nos desfiles de moda.

Em 2013, depois do lobby da CFDA e da Model Alliance, o Legislativo do Estado de Nova York aprovou uma lei que dizia que todas as modelos abaixo dos 18 anos devem ser tratadas como crianças artistas, com a respectiva regulamentação, desde o horário de trabalho reduzido à necessidade de confiar sua remuneração a um tutor, à supervisão e à realização de exames médicos (além da obrigação das marcas terem uma autorização do Departamento do Trabalho do Estado, como acontece com as modelos adultas).

Ivan Bart, presidente da IMG Models, que representa a Kaia Gerber, não permite que profissionais com menos de 16 anos de idade trabalhem na passarela. Segundo um porta-voz da Dior, sua manequim de 14 anos, Sophia Mechetner, esteve acompanhada todas as vezes, voltou a Israel para continuar os estudos e sua futura relação com a marca ainda deverá ser determinada. Além disso, fala-se cada vez mais das próprias modelos, iniciativa que tenta acabar com manequins sem nome, a fim de que passem a ser consideradas personalidades. Sophia Mechtner está sendo “vendida”, como afirmou Michelle Tan, a editora da revista Seventeen, como “uma modelo que representa a ousadia dos adolescentes”. Michelle afirma ainda que Kaia Gerber é um “membro da realeza de Hollywood: ela representa a próxima geração”, e quanto à fábula de Lily-Rose Depp explica que foi o “Tio Karl que a introduziu no mundo da moda”. O Tio Karl é Karl Lagerfeld, que certa vez empregou a mãe da jovem Depp como musa.

Lily-Rose Depp, 16, é o rosto da coleção de eyewear da Chanel.

Lily-Rose Depp, 16, é o rosto da coleção de eyewear da Chanel. Foto: Dimitrios Kambouris/Getty Images

Apesar de se contarem tantas histórias de pais que sempre acompanham as filhas, e do fato dessas meninas muito novas serem a exceção e não a regra, a percepção do público em relação a elas permanece um problema. “Quando você maquia uma criança e põe saltos altos em seus pés, a implicação é que ela se torna um objeto sexual, e muito frequentemente, é desse modo que essas imagens são entendidas”, diz Sara Ziff. Olhar um anúncio de Chanel numa revista não significa vasculhar a vida da modelo. Ver um vídeo de um desfile online não é o mesmo que ver o nome e a biografia da modelo. Você está vendo uma menina, como Sophia, usando um vestido de noite de estilo vitoriano ligeiramente transparente. Ver uma foto numa revista não é ver a realidade. É ver o mundo criado pelo estilista e pelo fotógrafo. E é aí que está o problema. 

Embora a moda procure esmerar-se no que faz, a idade de uma modelo não é tão óbvia quanto sua raça. Passei mais de dez anos observando modelos desfilarem na passarela, e até eu tenho dificuldade para distinguir a diferença entre meninas de 14, 16 e 18 anos perfeitamente vestidas e maquiadas. A moda é essencialmente uma indústria baseada na ilusão, na premissa de que, se você usar esta roupa, parecerá mais bonita/alegre/magra/alta/poderosa do que você é na realidade. O aspecto negativo está em fingir que estas garotas são mais velhas, sábias e sedutoras do que deveriam ser na sua idade - e que qualquer pessoa que compre as roupas com as quais elas desfilam poderá se parecer com as modelos, o que evidentemente não pode ser, porque ela não é uma pré-adolescente, uma vez que o tempo físico é destorcido quando garotas têm corpos de crianças, mas altura de adultas.

Kaia Gerber, 13, estrelou um editorial no CR Fashion Book, comandado pela ex-editora chefe da Vogue Paris, Carine Roitfeld.

Kaia Gerber, 13, estrelou um editorial no CR Fashion Book, comandado pela ex-editora chefe da Vogue Paris, Carine Roitfeld. Foto: Michael Buckner/Getty Images for Teen Vogue

Ao contrário das colegas que as antecederam, celebradas exatamente por terem a idade que têm e portanto serem consideradas musas inspiradoras, essas meninas são celebradas porque não parecem absolutamente ter a idade que na realidade têm. Independentemente do quanto nos importamos com elas, a dissociação entre realidade e imagem é chocante. As próprias modelos, inclusive as mais bem sucedidas, trouxeram a público tal questão. "As meninas são tratadas como adultas e não sabem como lidar com isso”, disse a veterana Coco Rocha em entrevista a Anderson Cooper, em 2011. Na opinião de Coco, 15 anos são “muito poucos” para a profissão.

Kate Moss, falando sobre sua carreira em entrevista à Vanity Fair em 2012 observou: “Hoje vejo uma menina de 16 anos e acho que pedir que ela tire a roupa parece realmente estranho. Ocorre que então a marca diz: ‘Se você não fizer, não vamos contratá-la de novo’. Se fosse eu, me fecharia no banheiro e choraria, e depois sairia e faria o que a marca pede. Eu nunca me senti confortável diante dessa situação”. Então o que tanto atrai? O imperativo do novo, supostamente, embora você também possa ser nova aos 21 anos. A pressão, talvez, quem sabe das próprias meninas. “As adolescentes são mesmo ambiciosas hoje em dia”, acredita Michelle, da Seventeen. “Não se pode culpar Sofia por isso, embora eu talvez preferisse que ela tivesse esperado mais um pouco. É um reflexo do momento atual”. E a moda ama refletir o momento. 

Tradução de Anna Capovilla