Jaden Smith: o novo homem de saia

Vanessa Friedman - O Estado de S.Paulo

A presença do ator de 17 anos na nova campanha da Louis Vuitton é um novo capítulo na fluidez de gêneros na moda

Foto da campanha de verão 2016 da Louis Vuitton

Foto da campanha de verão 2016 da Louis Vuitton Foto:

Se 2015 foi o ano quando o unissex se tornou uma tendência na moda, 2016 pode ser o ano em que a questão de se vestir conforme o gênero alcance uma dimensão completamente diferente. 

Isso considerando o estilo do visionário Nicolas Ghesquière, diretor criativo da Louis Vuitton, cuja habilidade para sentir as mudanças sociais e dar a elas uma cara o transformou em um dos estilistas de maior sucesso de sua geração. Ou muito bem sucedido, a julgar pelo seu feed do Instagram. Nos primeiros dias de janeiro, Ghesquière revelou na rede social a campanha da coleção feminina de primavera/verão da Louis Vuitton, que vai ter três partes. Uma das seções tem modelos que incluem Jean Campbell, Rianne Van Rompaey, Sarah Brannon - e Jaden Smith, o filho ator, raper e designer de Will Smith e Jada Pinkett Smith.

A presença de Smith, por si só, não é nada demais. É comum ver celebridades de todas as idades em anúncios de moda, e a irmã mais nova de Smith, Willow, estrelou a campanha de outono de Marc Jacobs. A Burberry também costuma usar homens jovens como "acessórios" em suas campanhas femininas, e para a primavera incluiu Dylan Brosnan (filho de Pierce Brosnan) na lista. O que diferencia o anúncio da Louis Vuitton dos outros é que Smith aparece como ele mesmo, mas vestindo roupas de mulheres.

Especificamente, em peças que saíram direto do último desfile feminino da grife: uma jaqueta de couro preta (look número 2, usado na passarela por Lily Stewart), uma camiseta de algodão com aplicações de metal (look número 24) e uma saia kilt com aplicações de metal (look número 3).

Em outras palavras, ele não é um homem em transição (isso já foi feito antes, quando Riccardo Tisci, da Givenchy, colocou uma modelo transgênero, Lea T, na campanha feminina de outono em 2010), ou um homem vestindo roupas que poderiam ser usadas por qualquer gênero. Ele também não é um homem vestindo roupas de homens inspiradas em mulheres, como os homens na passarela de pré-outono da estilista Sonia Rykiel, que apareceram de conjuntinho de tricô twin-set fúcsia com listras pretas e calças de smoking de veludo. Smith é um homem que está vestindo roupas obviamente femininas. E além de não parecer uma garota, ele na verdade está bonito com elas. Não tem nada a ver com o clichê pernas-peludas-e-saia.

Então tem a ver com o quê?

É possível enxergar isso como um sensacionalismo velado. Há especulação de que Smith, que tem vestido várias partes de roupas femininas por um bom tempo - uma saia branca e smoking preto para uma formatura; um vestido florido no festival Coachella, e feito declarações como "gosto de vestir peças super trapeadas porque aí me sinto como um super herói" (a uma entrevista para a revista GQ) - tem feito isso como forma de chamar a atenção, ou promover a si mesmo como um novo líder de pensamento ("Fui a TopShop para comprar roupas de menina, quero dizer, 'roupas'", ele publicou no Instagram no ano passado).

E, sem dúvida, inclui-lo em sua campanha faz a Louis Vuitton parecer descolada, para frente e sensível à geração millennial, especialmente em um contexto em que existem outras celebridades indie nos anúncios: uma atriz sul coreana, Doona Bae, e a estrela virtual do jogo "Final Fantasy", Lightning.

Smith "representa uma geração que assimilou os códigos de liberdade verdadeira, que está livre de manifestos e perguntas sobre gênero", o diretor criativo da grife afirmou. "Vestir uma saia é algo tão natural para ele quanto para uma mulher que, há muito tempo, permitiu-se vestir um casaco trench ou um terninho."

Traduzindo: esse é o estágio final natural da revolução na moda que começou nos anos 1960 e 1970 quando as mulheres tiraram os cintos e aventais e se apropriaram do jeans. Isso posiciona os millennials como os verdadeiros herdeiros dos baby boomers, embora seja questionával quantos dos 2,4 milhões de seguidores no Instagram de Smith são de fato consumidores da Louis Vuitton.

Mas qualquer que seja a motivação de ambos os lados, e não importa quão pura, o resultado tem sua própria substância. 

Não é unissex. Não é sem gênero, com gênero neutro ou gênero flexível ou qualquer outra expressão que nós temos usado para descrever o movimento atual de roupas. Porque tem o gênero, na verdade, muito bem definido, ao menos se forem seguidas definições tradicionais de roupas para mulheres versus para homens. As roupas e suas fidelidades conceituais não mudaram. O que mudou foi a pessoa que as veste.

E é essa a questão. Limites já foram ultrapassados nas passarelas antes: Jean Paul Gaultier causou controvérsia quando colocou saias em homens em seu desfile em 1984. Na época, era deliberadamente provocativo. Quando Alessandro Michele vestiu homens em ternos florais e blusas de chiffon transparentes em um desfile recente da Gucci, assim como no caso da Louis Vuitton, foi mais sutil.

A dúvida é por que isso surpreendeu tanto, ainda mais em tempos em que as definições de gênero jamais estiveram tão fluidas e quando existem esforços para codificar essa nova realidade, seja em portas de banheiros ou na linguagem de instituições. Um resposa possível é considerar que, embora há muito tempo aceitemos as mulheres se apropriem de roupas masculinas - a ideia de homens se apropriando de roupas femininas ainda é um grande tabu.

Mas enquanto as passarelas são principalmente para os poucos ligados ao mundo da moda, campanhas e anúncios globais têm alcance maior. Smith certamente acredita nisso, visto que depois da publicação de Ghesquière, publicou em retorno: "muito obrigada @louisvuitton e @nicolasghesquiere pela oportunidade de impactar esse mundo."

Isso até pode ser considerado exagerar no assunto, mas não há dúvida de que as roupas são uma das formas com as quais ordenamos o mundo. Nós as usamos para identificar se uma pessoa é homem ou mulher (ou se deseja ser um ou outro), o que fazem, quanto dinheiro têm, de quais bandas gostam, de que país são, etc. As roupas são parte do contrato social. Se essa ordem for deixada de lado, como vamos saber que julgamentos fazer? Como sabemos a forma de interpretar o que vemos, se a interpretação é baseada em definições de identidade fora de moda?

Como vamos saber em que piso comprar? A quais semanas de moda ir?

Esse medo de um caos semiológico (e a força da convenção histórica) explica, em parte, porque as normas de vestimenta se seguraram por tanto tempo. Nós queremos entender o que vemos, e queremos que aqueles que veem entendam o que estamos dizendo.

Mas o negócio é o seguinte: tanto quanto compreensão, também queremos admiração; pensar que estamos bonitos com nossas roupas. A moda se desenvolveu em parte porque as formas favorecem nossos diferentes corpos (o melhor caimento, permanece; se não de que outra forma explicar o appeal eterno das jeggings?). Os ternos ajudam definir o torso masculino; os vestidos conseguem criar curvas onde elas não existem. Smith ficou bem com suas roupas femininas da Louis Vuitton por causa de sua figura (ele coube nas roupas da passarela) e também porque as roupas têm um ar gladiador. Mas isso não significa que o mesmo aconteça com todos os homens. 

No fim, esse pode ser o maior esse pode ser o principal fator que diminui a possibilidade de uma completa dissolução dos limites tradicionais entre roupas de homens e mulheres, e também pode ser a mensagem real desse momento em particular: nós estamos entrando na Era do vista o que você gosta.

Feliz ano novo.