Itália além da moda

Sergio Amaral - O Estado de S.Paulo

No ano em que Milão discute o equilíbrio do planeta na Expo 2015, grandes grifes focam em projetos sustentáveis e de incentivo à cultura. Anna e Gildo Zegna, herdeiros da marca que leva seu sobrenome, contam como isso pode fortalecer a moda italiana

As projeções com florais desenhados a partir de imagens dos arquivos da Zegna 

As projeções com florais desenhados a partir de imagens dos arquivos da Zegna  Foto: Divuilgação

Milão é 'O' lugar. Ao menos este ano. Com a Expo 2015 a pleno vapor, a capital da moda italiana se movimenta em torno do evento, que espera atrair até o fim de outubro um público de mais de 20 milhões de pessoas e que levou mais de 140 países a refletir sobre uma questão: como garantir comida saudável, segura e suficiente respeitando o planeta e garantindo seu equilíbrio?

A pergunta, entretanto, reverbera além dos mais de 1,1 milhão m2 ocupados pela Expo. Grandes grifes de luxo da Itália, a exemplo de Prada, Armani e Ermenegildo Zegna, aproveitam a oportunidade para mostrar interesses que vão além da moda. “Trata-se de uma oportunidade de mostrar internacionalmente não somente Milão, mas o país como um todo”, diz Gildo Zegna, presidente da tecelagem e da marca de ternos fundada por seu avô, Ermenegildo Zegna. Após a abertura da Expo, em 1º de maio, a cidade sediou diversos eventos paralelos. Giorgio Armani celebrou os 40 anos de sua marca e abriu um museu, o Silos, para abrigar seu acervo de roupas. A Prada inaugurou um complexo cultural, sede da Fundação Prada, em sintonia também com a abertura da 56ª Bienal de Veneza que aconteceria dias depois. Por sua vez, a Zegna lembrou do passado, mirou o futuro e se deixou levar pela reflexão presente proposta pela Expo, apresentando em sua sede uma festa que misturou performance, gastronomia, sustentabilidade, filantropia e marketing, com uma pitada de ativismo.

Multissensorial, quase carnavalesca, “Fabulae Naturae” teve chef estrelado (Davide Oldani, que servia pratos inspirados em um livro de receitas da família Zegna, tudo preparado com ingredientes da região e da estação), performances dirigida por Lucy + Jorge Orta (encarnando seres mitológicos em uma floresta cenográfica), artes visuais (com estampas florais projetadas nas paredes) e até um lado beneficente (uma série de 500 pratos de porcelana Royal Limoges, também com desenhos florais, foram leiloados em prol da recuperação ambiental de uma antiga região agricultora do país). “Queremos fortalecer os sinais do crescimento econômico na Itália assim como no setor manufatureiro, reforçando a imagem e o poder do ‘Made in Italy’ pelo mundo”, afirma Gildo, em entrevista por e-mail ao Estado. A seguir, ele e sua irmã Anna Zegna, responsável pelos projetos da ZegnArt e presidente da Fundação Zegna, revelam como conseguem costurar moda, consumo consciente, arte, sustentabilidade e ecologia.

Paolo Zegna, Anna Zegna e Gildo Zegna

Paolo Zegna, Anna Zegna e Gildo Zegna Foto: Divulgação

Como conciliar ideias como consumo sustentável e causas beneficentes com os interesses de uma empresa de moda? 

Anna - A sensibilidade com o ambiente e as artes pode ser um ponto de partida de projetos artísticos e sociais que diversificam as atividades de uma marca de moda como a Ermenegildo Zegna. Com o lançamento em 2012 da ZegnArt, uma plataforma de arte contemporânea, nosso objetivo era reforçar o laço com o mundo das artes visuais e relacionar à imagem da empresa e à cultura. Desde então, conseguimos promover intercâmbio e conscientização nessa área.

A sustentabilidade é um assunto importante para a empresa há muito tempo?

Anna - Esse assuntos tem se tornado cada vez mais importantes na última década, abrindo um debate interessante no mundo da moda. Para nós, é crucial devolver o que a comunidade nos entrega. Nos anos 30, meu avô criou um notável exemplo de patrocínio ambiental e social em Trivero, sua cidade natal. Conduziu o completo reflorestamento das encostas das montanhas de seu entorno plantando mais de meio milhão de árvores. Sua “mentalidade verde” foi sempre uma fonte de inspiração para a marca.

Como essas ideias se materializam e se conectam no projeto 'Fabulae Naturae'?

Anna - Ele foi inspirado no cerne da nossa companhia: os tecidos. Há três anos, adquirimos a coleção Heberlein Fund, constituída de mais de 2.200 volumes que retrata mais de 60 anos de história em tecido, assim como uma fascinante viagem pelo universo têxtil. As estampas florais do acervo florais, junto da importância da natureza para a Zegna, tornaram-se a maior inspiração para o trabalho. Conseguimos unir todos os elementos essenciais à Zegna, combinando tecido com nosso DNA, flores e cultura local, tudo graças à arte contemporânea.

Fabulae Naturae estará aberta a visitas guiadas nos dias 24 e 31 de maio, às 10h. O tour é gratuito, dura cerca de uma hora e é realizado em parceria com a Connecting Cultures (connectingcultures.info ).

*O jornalista viajou a Milão a convite da Ermenegildo Zegna