Instagram e e-commerce impulsionam nova geração de modelos

Sergio Amaral - Especial para O Estado de S.Paulo

Expert neste mercado, Liliana Gomes, da agência Joy, analisa o passado, o presente e o futuro da profissão

Naomi Campbell, Linda Evangelista, Tatjana Patitz, Christy Turlington e Cindy Crawford, representantes de uma era de supermodels, fotografadas por Peter Lindbergh para a edição de janeiro de 1990 da 'Vogue' britânica

Naomi Campbell, Linda Evangelista, Tatjana Patitz, Christy Turlington e Cindy Crawford, representantes de uma era de supermodels, fotografadas por Peter Lindbergh para a edição de janeiro de 1990 da 'Vogue' britânica Foto: Peter Lindbergh/Divulgação

Ex-modelo, estudante de direito, funcionária de uma das mais importantes agências de modelos dos anos 90, a Elite Models, do empresário John Casablancas, uma espécie de mentor seu, Liliana Gomes é uma top nos bastidores do mondo modelo.

Estava presente quando Gisele veio a São Paulo ser apresentada às agências locais e por pouco não desdenhou a oportunidade de ser modelo (“Quero ser jogadora de vôlei, a melhor do Brasil”, teria dito, emendando “se você me falar que eu vou ganhar mais dinheiro como modelo, posso pensar no assunto”). O resto, você, eu e o mundo sabemos, é história.

No mercado desde o fim dos anos 80, portanto, ajudou a projetar e acompanhar ela e várias outras meninas e meninos desde então. Atualmente é sócia da agência Joy, fundada em 2008, onde cuida das carreiras de Lais Ribeiro, angel da Victoria’s Secret, da top-trans Valentina Sampaio, de Efraim Schroder e João Knorr, queridinhos de Miuccia Prada e Donatella Versace respectivamente.

A agente de modelos, Liliana Gomes, sócia da agência Joy e representante no Brasil do concurso de novos talentos The Look of The Year, que acaba de abrir suas inscrições para sua edição 2018

A agente de modelos, Liliana Gomes, sócia da agência Joy e representante no Brasil do concurso de novos talentos The Look of The Year, que acaba de abrir suas inscrições para sua edição 2018 Foto: Bruno Soares/Divulgação

Na entrevista a seguir, Liliana fala do impacto das novas tecnologias neste mercado, especialmente o Instagram, que tem exigido outros atributos além de altura (como carisma,  personalidade e seguidores) e do surgimento dos e-commerces (a base do faturamento de muitos modelos hoje).

Conta ainda da democratização do mercado de moda e de modelos (mais aberto à diversidade), do significado do sonhado contrato com a Victoria’s Secret (meta de dez entre dez meninas) e diz que uma nova Gisele, ainda mais poderosa e bem-sucedida, pode e deve emergir marcando essa nova era de modelos influenciadoras.

Você acompanhou a “descoberta” da Gisele… Conta como foi?

Ela veio numa excursão a SP com o Dilson Stein, que foi o cara que a descobriu. Ele vinha a São Paulo e parava ali no shopping Eldorado para a gente olhar olhar as meninas, antes de levá-las para o Playcenter. Ela tinha 13 anos na época. Gostamos dela e a chamamos para ir na agência conhecer. Ela falou: “Quero ser jogadora de vôlei. Quero ser a melhor jogadora de vôlei do Brasil. Mas, se você me disser que eu vou ganhar mais dinheiro como modelo, eu posso pensar”. Achamos ela linda, precisávamos de uma nova top brasileira e a Gisele tinha ambição suficiente para fazer esse caminho.

Não é sempre, imagino...

Quando achamos uma modelo assim, a gente projeta um futuro. Logicamente, muitas meninas boas, iguais ou melhores que a Gisele, se perdem pelo caminho. O que aconteceu com ela envolve o nosso trabalho de encontrar e o dela de ter a ambição para fazer acontecer.

Por que ela deu certo?

Era a época das supermodels e a Elite, onde eu trabalhava naquele tempo, era a agência mais importante do mundo. A Gisele tem uma mentalidade orientada para business. Foi um encontro de situações.

A partir da esquerda, a agente Liliana Gomes com Gisele Bündchen, Aline Casablancas e Claudia Menezes, primeiro lugar do The Look of The Year, em 1994, concurso em que Gisele conquistou a segunda posição. Na frente, o booker Sergio Mattos

A partir da esquerda, a agente Liliana Gomes com Gisele Bündchen, Aline Casablancas e Claudia Menezes, primeiro lugar do The Look of The Year, em 1994, concurso em que Gisele conquistou a segunda posição. Na frente, o booker Sergio Mattos Foto: Acervo Liliana Gomes

Pode dar outros exemplos?

Quando conhecemos a Lais Ribeiro, ela era menina que estava pagando um curso de enfermagem. Ela parou o curso pra vir nos conhecer. Eu vi uma menina linda, mas não imaginava que ela iria fazer Victoria’s Secret, por exemplo. O dom que temos é o de identificar e reconhecer essas meninas que atraem o olhar e têm carisma. A gente tenta colocar a pessoa no lugar correto na hora certa. Tem muita sorte.

Como identificam essas belezas?

Nossa essência na Joy é entender a diversidade. O belo é muito diverso. Tem que ter muita atenção para descobrir novas tendências que estão vindo. Tem muitas meninas que são altas e magras mas não serão tops em cinco anos. Nosso trabalho é descobrir as que serão uma Laís Ribeiro, uma Fernanda Tavares, uma Gisele Bündchen, as que têm essa coisa especial.

A Gisele é considerada uma das mais importantes e melhores modelos de todos os tempos...

Na minha opinião pessoal, as modelos mais importantes são Veruschka, que foi uma mulher maravilhosa, e Linda Evangelista. Ainda não houve uma mulher que fizesse o que ela fazia em frente à câmera. Acredito na Gisele como força de venda. Linda fazia um rolo de 36 fotos e eram 36 poses diferentes, ela nunca estava igual. A supermodel naquela época era uma coisa muito mais emocional. Elas eram modelos 100% do tempo, levantavam da cama lindas. Gisele é de uma geração de mulheres naturais.

A modelo Linda Evangelista, uma das favoritas de Liliana Gomes, fotografada por Peter Lindbergh para a 'Vogue' italiana de dezembro de 1988

A modelo Linda Evangelista, uma das favoritas de Liliana Gomes, fotografada por Peter Lindbergh para a 'Vogue' italiana de dezembro de 1988 Foto: Peter Lindbergh/Vogue Itália

Acha possível surgir uma nova Gisele?

Sim. Vão existir meninas mais importantes porque o Instagram faz com que as pessoas cresçam muito mais rápido. Ele potencializa esse sucesso, podendo ganhar muito mais dinheiro que Gisele, Naomi...

Fale mais desse efeito das redes sociais no mercado de modelos... Meninas, como a Kendall tem mais de 90 milhões de seguidores...

Hoje é obrigatório que elas tenham algo a dizer, que sejam inteligentes. O Instagram vende muito. O cliente quer ver como é a modelo na vida real. Apesar de todas usarem Instagram, ainda não sei se achamos a fórmula. Mas quando se encontrar alguém que una beleza, personalidade e esse foco comercial, vai se ganhar muito mais dinheiro do que ganharam até hoje. As meninas de hoje sabem se colocar e manipular essa midia.

 

new Elle cover! thank you thank you @ninagarcia @elleusa! photographed by the lovely @chriscolls

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Com esse advento, ainda existe essa coisa de gente descoberta nas ruas?

Continuam existindo todas as formas de “descoberta”. A gente faz o concurso The Look of The Year há cinco anos, acabamos de abrir as inscrições para a edição 2018, fazemos o scouting [trabalhando com “olheiros”], colocamos cartaz em lanchonetes, fazemos Instagram, Facebook. Existe tudo isso acontecendo, tem gente que chega até nós por email, tem gente que visita a agência.

Está mais diverso o perfil de meninas?

Quando fui modelo era difícil trabalhar uma mulher como eu: morena, de olhos verdes, mas de perfil latino. Hoje, nossas meninas que mais trabalham são as étnicas, com mistura de raças.

O que mais mudou no mercado?

Personalidade é muito importante. A Twiggy, nos anos 50, 60, ela não era bonita, mas tinha tanto estilo que deu certo. Uma mulher igual Daiane Conterato já tinha um estilo quando começou a carreira. Já existia nela essa personalidade. Esse elemento hoje em dia é fundamental.

A top brasileira Lais Ribeiro no desfile da Victoria's Secret, em 2010

A top brasileira Lais Ribeiro no desfile da Victoria's Secret, em 2010 Foto: Lucas Jackson/Reuters

A gente falou de Victoria’s Secret (VS), que um contrato dos sonhos de toda modelo. São contratos de quanto? De 10 milhões de dólares/ ano?

Tem gente que ganha isso, sim. É que a partir do momento em que uma menina trabalha para a VS, os contratos que surgem são de valores altos. A audiência do desfile da VS é descomunal, é o lançamento desse tipo de beleza de supermodel, eles investem muito dinheiro, é uma coisa impressionante.

E as semanas de moda? Elas ainda têm importância como construção de imagem?

Paris é hoje a semana de moda mais importante, se você quer um pouco de glamour. O momento agora é das mídias sociais. Nosso desafio é balancear essa construção de imagem na vida real e também nas redes.

Tem agências fazendo cursos de Instagram e mídias sociais com as modelos…

Tem muitos tutoriais e a gente recomenda às modelos que assistam. O mais importante é definir sua personalidade no Instagram. Do que você gosta? Qual o seu hobbie? Ninguém tem a fórmula de como fazer certo. No Instagram você se vende. Hoje em dia, cliente nenhum fecha trabalho com modelo sem ver o Instagram antes. Tem os que buscam número de seguidores e outros que buscam uma coisa mais natural ou autêntica. Mas as pessoas admiram o belo. O belo nunca vai ser ultrapassado.

Essa fama nas redes não deixa tudo mais volátil também?

Tudo se descarta muito rápido, mas há exceções. Nunca se viu menina de 30, 35 anos, ainda no topo, trabalhando. O abismo entre uma top e uma new face é muito maior hoje, mas quando elas chegam a top, têm a chance de ficar por muito mais tempo ali.

E no caso dos meninos? O que muda?

O mercado masculino está crescendo muito. A internet proporciona que as pessoas se expressem mais também. Antes, era tudo muito clássico, boring, e hoje temos diversos ângulos, dá inventar cabelo, usar esmalte, vejo essa diversidade como positiva. Caminhamos para uma coisa mais autoral na moda.

O mercado como um todo melhorou no Brasil?

Sim. Hoje tem mais trabalho para todo mundo e é mais democrático. Hoje os modelos sobrevivem de e-commerce, é a base do seu faturamento. O cliente não faz campanha, faz programação. Tem castings, principalmente de marcas grandes, que fazem campanhas de TV e internet por dois meses, muda tudo mais rápido. Para as marcas grandes pode ter ficado complicado porque eles têm que disputar mercado com os pequenos, mas para os pequenos, ficou muito bom porque se você tiver um bom design, uma boa roupa, você acha seu cliente. A moda é maior do que era antes.

Quem da sua agência, a Joy, está despontando hoje?

Tem uma menina que chama Julia Barcelos. Ela tem uma beleza ambígua, meio masculina  e feminina, acho que ela deve desenvolver uma carreira legal assim que colocar os pés em Nova York. Tem o João Knorr, que é um menino Gisele Bundchen: focado na carreira. Tem a [trans] Valentina Sampaio, um tipo de beleza que não tinha a menor possibilidade de existir na moda há 20 anos atrás. Ela é tão linda e tem tanta delicadeza, que simplesmente aconteceu e faz um trabalho fantástico que representam conquistas para muitas pessoas.

A modelo brasileira Valentina Sampaio, na capa da 'Vogue' francesa de março de 2017, em foto de Mert Alas e Marcus Piggott

A modelo brasileira Valentina Sampaio, na capa da 'Vogue' francesa de março de 2017, em foto de Mert Alas e Marcus Piggott Foto: Mert Alas & Marcus Piggott/Vogue Paris