Imediatismo e emoção encerram temporada de Paris

Jorge Grimberg - O Estado de S.Paulo

Da moda instantânea à tradição da alta costura, a temporada Outono Inverno 2016, que terminou no último dia 10, sinalizou um momento de mudanças

Chanel Outono Inverno 2016/17, Grand Palais: tapetes brancos, espelhos e cadeiras douradas

Chanel Outono Inverno 2016/17, Grand Palais: tapetes brancos, espelhos e cadeiras douradas Foto: Divulgação

Há dois movimentos paralelos na moda internacional. O primeiro, e mais emblemático, é o imediatismo. O apelo às redes sociais e a conversa direta com o consumidor final fizeram com que alguns empresários de moda mudassem o calendário, levando as coleções das passarelas diretamente para as vitrines. Não podemos mais negar o impacto no varejo gerado pelo uso de smartphones, com imagens e vídeos em tempo real dos desfiles para milhões de pessoas. Esse movimento beneficiou o crescimento das redes de fast fashion. Quer comprar a nova tendência da Gucci? Na Zara tem. Foi assim na última década. Mas agora, aparentemente, o ciclo está mudando. 

O segundo movimento é o oposto. Neste mesmo cenário de transformação, também há espaço para a valorização da tradição. Casas como Saint Laurent e Chanel entraram no túnel do tempo e, com respeito à herança das marcas e muito esmero, apresentaram coleções com aspecto de meados do século XX. A Chanel de Karl Lagerfeld abandonou os desfiles pensados para bombar nas redes sociais (com suntuosos cenários - de um cassino a um aeroporto) e apresentou sua coleção em uma sala simples, decorado com tapete branco e delicadas cadeiras douradas. Poucos convidados e apenas primeira fila. Era assim que Chanel apresentava coleções há décadas atrás. As peças: inimitáveis, geniais e de extremo luxo. Foi Chanel sendo Chanel.

Detalhes da coleção "La Collection de Paris", de Yves Saint Laurent

Detalhes da coleção "La Collection de Paris", de Yves Saint Laurent Foto: Divulgação

Na Saint Laurent, o diretor criativo Hedi Slimane foi além e apresentou sua visão para a alta costura do século XXI. Em um cenário intimista e sofisticado, com uma escadaria, as modelos eram anunciadas pelo número, como fazia o próprio Yves Saint Laurent. Sem trilha sonora, as modelos andavam com seus looks extremamente oitentistas, com saias muito curtas, laços e decotes muito expansivos, batons vermelhos e um aspecto indie-glam-chic que somente Slimane consegue criar. É a marca registrada dele. 

Na outra ponta está a nova Courreges. A marca, que ficou conhecida nos anos 60 com sua visão futurista, toma novo fôlego com os jovens Sébastien Meyer e Arnaud Vaillant no comando. O pano de fundo da coleção foi uma segunda pele, um body, que durante a apresentação ganhou jaquetas, ternos e tricôs, formando looks em evolução. Leggings e tênis básicos estavam em quase todos os looks. As peças já estão disponíveis para venda imediata no site e redes sociais da marca. Foi tudo muito cool, novo e original. Sem pretensões de reinventar a moda, mas oferecendo soluções práticas para a consumidora e um projeto de construção de marca. Fácil de entender. 

Desfile da coleção de inverno 2017 da Courreges

Desfile da coleção de inverno 2017 da Courreges Foto: Divulgação

Para fechar, em meio ao passado glorioso de Chanel e o presente acelerado de Courreges, está Nicolas Ghesquière para Louis Vuitton.  Cada vez mais leve e confiante em seu posto, demonstrando desenvoltura e atitude em entrevistas com celebridades, fotos e todo o social que o cargo pede, Nicolas consegue distanciar-se do tumulto das fofocas do mercado para criar a sua visão do futuro. É o que ele sempre fez melhor: criar peças para definir o que a consumidora irá vestir no futuro. 

Um mix de tecnologia, esporte e luxo, sem tema específico, delimitam a mulher Vuitton. Com embaixadoras globais quem levam o estilo da marca de maneira acessível a diferentes capitais, sem liquidar e sem abandonar a tradição de coleção por temporada, Nicolas criou uma coleção tão desejável que dificilmente será esquecida dentro de seis meses.

A construção do novo momento do mercado aponta para a diversidade em todos os sentidos. Cada marca, conhecendo suas capacidades de investimento e produção, aliadas aos hábitos do consumidor, irá desenhar seu próprio caminho. As coleções com ‘tema’ são cada vez mais raras e vemos nas passarelas uma mistura parecida com a que estamos acostumados no Instagram. Um pouco de tudo. Em diferentes tempos. Sem regras e com reações diversas em tempo real. 

Desfile da coleção de invero 2017 da Louis Vuitton 

Desfile da coleção de invero 2017 da Louis Vuitton  Foto: Divulgação